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A VIRGEM MARIA NO ISLÃ MEDIEVAL


Virgem Maria e Jesus , antiga miniatura persa. No Islã, eles são chamados de Maryam e Isa .
Virgem Maria e Jesus , antiga miniatura persa. No Islã, eles são chamados de Mariam e Isa .

A Virgem Maria no Islã e o seu lugar na tradição islâmica, incluem as tradições ligadas ao nascimento de Jesus, considerado também como um Profeta e respeitado como figura sagrada pelos muçulmanos, por mais que neguem a sua figura divina. Apesar das muitas diferenças entre as religiões abraâmicas, nunca será demais relembrar a sua base comum e pontos onde concordam.


Para alguns não-Muçulmanos, pode vir a ser uma surpresa que a Virgem Maria é reverenciada tanto por Muçulmanos como por Cristãos. Mas a Virgem Maria (ou Mariã', Mariam, como ela é conhecida em árabe) é uma das mulheres mais veneradas no Islã, um estatuto que tem mantido desde a fundação da religião no século VII.


Ela é classificada entre as mulheres mais santas do Islã, um grupo que inclui Khadija e A’isha, as mulheres do Profeta, e Fátima, sua filha. Como elas, é usada tanto para homens como mulheres como um exemplo de piedade e devoção a Deus. De facto, Mariam é a única mulher identificada pelo nome no Alcorão, onde é descrita como “um sinal para os mundos” (Sura 21:91). Ela é a única mulher com uma Sura (ou capítulo) com o seu nome – Sura 19.


Num anterior ensaio nesta série, Vanessa Corcoran demonstrou que as representações medievais europeias da Virgem Maria desafiam os nossos estereótipos de mulheres Cristãs silenciosas e impotentes. Para os cristãos europeus, a Virgem Maria era uma figura poderosa e de comando. Ela empunhava armas para defender os fiéis e punir os perversos, e ela habilmente debatia com o próprio Diabo. Ela era bem mais do que o ícone serenamente sorridente de devoção maternal que vemos à nossa volta nesta época do ano (Natal).


Explorar o lugar da Virgem Maria na cultura islâmica medieval pode similarmente desafiar os nossos estereótipos de mulheres Islâmicas, tanto medievais como contemporâneas. Também desafia um sórdido estereótipo que pinta o Islã como uma religião inerentemente misógina.

Como veremos, o respeito pelas mulheres também é “tradicional” no Islã. Isso é visto não só na história islâmica de Maria, mas também nas histórias de milhares de mulheres que se tornaram estudantes religiosas e académicas reconhecidas na Idade Média.


A Virgem Maria no Alcorão


Para os muçulmanos, Maria é especial desde o momento da sua concepção. A sua história começa com a sua mãe Ana. Um dia, Ana, estéril e já na menopausa, senta-se debaixo de uma árvore e observa uma mãe pássaro com os seus pintainhos. No momento em que o faz, é dominada pelo desejo de ter um filho. Ela e o seu marido Amran (ou Imram) rezam por um; Deus garante o desejo deles. Ana fica grávida e jura que ela irá dedicar o seu filho ao serviço de Deus no templo. Ela nomeia a sua filha bebé Maria e, uma vez desmamada, Ana cumpre a promessa e entrega-a ao templo.


Depois de Maria chegar à idade da puberdade, Deus manda o Arcanjo Gabriel até ela na forma de um homem jovem e bonito. Gabriel diz a Maria:


“Eu sou um mensageiro do teu Senhor, para te dar um rapaz puro.”

Ao que Maria responde:


“Como hei-de eu ter um filho se nenhum homem me tocou nem fui impura?”

O anjo diz-lhe que Deus pode fazer qualquer coisa, e que o seu filho será


“um sinal para as pessoas e uma misericórdia vinda de nós”

(Sura 19:19-21).


Embora o Alcorão simplesmente afirme


“soprámos nela do nosso espírito”

(Sura 19:91)


Peritos dedicaram atenção considerável a como esta concepção ocorreu. A maior parte pensava que Gabriel soprara o espírito de Deus em Maria, mas eles divergiam sobre se Gabriel soprara no decote, manga ou bainha da veste de Maria, ou na boca. A expressão “espírito de Deus” recorre um número de vezes no Alcorão e significa a vida que Deus respira em cada ser humano. Isto faz da concepção de Jesus um milagre, mas em contraste com a versão Cristã, não implica que Ele [Jesus] fosse Filho de Deus.


O nascimento de Jesus também é marcadamente diferente; o relato Islâmico não tem nenhum dos acessórios de uma cena de Natal Cristã tradicional. Ao invés, depois de ficar grávida Maria retira-se para


“um lugar distante” para evitar a censura dos seus familiares e comunidade"

(Sura 19:22).


Ela entra em trabalho de parto sozinha, ao pé de uma palmeira, e grita em angústia a Deus:


“Quem me dera ter morrido antes disto, e tivesse sido esquecida e olvidada”

(Sura 19:23)


Uma voz da palmeira diz-lhe que Deus lhe tinha mandado sustento na forma de água debaixo do lugar onde se senta e tâmaras frescas na palmeira (apesar de não ser a estação das tâmaras). Ela dá à luz Jesus (Isa) e regressa com ele ao seu povo. Eles estão chocados e horrificados ao vê-la com o recém-nascido, acreditando que ela era culpada de sexo ilícito. Mas Maria aponta o bebé Jesus, que anuncia:


“Eu sou um servo de Deus. Ele deu-me o livro e fez de mim profeta,
E fez de mim abençoado onde quer que eu esteja, ordenou-me as preces e a zaka [esmola] enquanto viver,
E [fez-me] diligente para com a minha mãe, e não fez de mim insolente nem amaldiçoado.
E a paz está comigo no dia em que nasci, e no dia em que eu morrer, e no dia em que ressurgir com vida.”

Para quem for cristão ou familiar com o Cristianismo, alguns detalhes da versão Islâmica da vida da Virgem Maria poderão parecer exóticos. Veja-se, por exemplo, a aparição miraculosa da fruta fora de época no “mihrab” trancado e o nascimento de Jesus debaixo de uma palmeira. Mas nas suas linhas essenciais, a história é muito similar. Tanto Cristãos como Muçulmanos acreditam que Maria era uma virgem quando deu à luz a Jesus, e ambas as tradições religiosas mantêm-na como modelo de piedade e obediência à vontade de Deus. Contudo, estas similaridades podem ser enganadoras. Alguns aspectos da história da Virgem Maria têm um significado muito diferente para os Muçulmanos.


Maria: Como uma Virgem


Muçulmanos e Cristãos, pelo menos dogmaticamente, concordam que Maria era virgem quando concebeu e pariu Jesus. Os Cristãos medievais insistiam na “virgindade perpétua” de Maria – isto é, eles acreditavam que Maria permaneceu virgem por toda a sua vida, não obstante o seu casamento com José. De facto, os teólogos Cristãos medievais que acreditavam que Maria permanecera virgem fizeram uma série de ginástica mental para contornar referências bíblicas (Marcos 6:3 e Mateus 13:55-56) aos “irmãos” de Jesus: Tiago, José, Judite e Simão.

Isto porque os Cristãos medievais elevavam a sua virgindade a um estado espiritualmente superior. Para muitos teólogos Cristãos medievais, o sexo, mesmo no contexto do casamento, era considerado sempre, de alguma forma, um pecado. Por exemplo, o grande Pai da Igreja S. Agostinho ligava o sexo ao pecado original (o pecado original, já agora, não é um conceito encontrado no Islã). Assim, era crítico para os Cristãos que Maria permanecesse virgem por toda a vida.

Por contraste, para os Muçulmanos, se Maria era virgem ou não depois do nascimento é irrelevante. Certamente, tanto no Cristianismo como no Islã, a virgindade, especialmente nas mulheres, era igualada com pureza física e espiritual. E, tanto de mulheres Cristãs como Muçulmanas era expectado que se mantivessem virgens até ao casamento. Mas para os Muçulmanos, a virgindade vitalícia não é melhor do que o casamento e criação de filhos, tanto para homens como para mulheres. Sexo no contexto do casamento não é pecado nem impiedade.


Então se Maria casou e teve mais filhos depois do nascimento de Jesus (uma questão com a qual a maioria dos comentadores Muçulmanos nem sequer se preocupou), no Islã, isto faria nada para diminuir o seu “status” como mulher santa. A historiadora Marina Warner caracterizou a Virgem Maria como “única entre as mulheres”, devido ao seu lugar paradoxal na Cristandade, onde ele é uma virgem física e espiritualmente pura e também uma mãe. Isto fazia dela diferente de qualquer outra mulher. Por contraste, no Islã, Maria é vista em paridade com três mulheres casadas, Khadija, A’isha e Fátima, que conceberam e pariram crianças de maneira natural.

Os teólogos Islâmicos medievais concordavam entre eles que o filho de Maria, Jesus, era um profeta. Eles discordavam, porém, sobre se Maria era ou não ela própria uma profetisa. Enquanto a maioria argumentava que não, dois teólogos do al-Andalus, Ibn Hazm (m. 1064) e Al-Qurtubi (m. 1072), insistiam que sim. Al-Qurtubi asseverava:


“Verdadeiramente, Mariam é uma profetisa porque Deus inspirou-a através do anjo do mesmo modo que Ele inspirou o resto dos profetas masculinos”.

Ibn Hazm queria extender o “status” de profeta não apenas a Maria, mas também às mães de Isaac e Moisés. Ambos os lados deste debate usavam passagens do Alcorão para justificar as suas posições. (Maria é listada entre os profetas descritos no Alcorão na Sura 21). Representações artísticas de Maria e Jesus reflectem esta controvérsia. Quase todos os artistas Islâmicos representavam Jesus com uma coroa de chamas, o símbolo de um profeta. Mas alguns escolheram também representar Maria com uma coroa de chamas.

Pensar as Mulheres no Islã Medieval


Debates sobre se Maria era ou não profetisa são particularmente interessantes porque no mundo Islâmico medieval, ao contrário do mundo Cristão medieval, vastos números de mulheres como peritas e professoras religiosas. No Islã, as mais importantes fontes de conhecimento religioso, a não ser o Alcorão, são as colecções de “hadith”. Os “hadith” são considerados como as palavras do Profeta Maomé como trasmitidas oralmente aos seus acompanhantes e aqueles à sua volta durante a sua vida. Os “hadith” eram frequentemente emitidos em resposta a questões específicas colocadas ao Profeta, e elas constituem ensinamentos e decisões acerca de um vasto espectro de tópicos, que formam a base das leis e práticas religiosas Islâmicas. Posto que os diferentes ramos do Islã divirjam sobre a importância e validade de “hadith” individuais, em geral são incrivelmente importantes.


Muitos dos transmissores de “hadith” iniciais eram mulheres, incluindo as mulheres do Profeta. Mas no século IX, o estudo e ensino de “hadith” tinha sido largamente restrito a homens. Mas então uma mudança ocorreu: entre os séculos X e XV, de acordo com a historiadora Asma Sayeed, as mulheres retornaram à proeminência como peritas e professoras religiosas. Elas faziam isso ao argumentar que a exclusão de mulheres não era “tradicional”. Em outras palavras, as académicas femininas Muçulmanas medievais e os seus aliados asseveravam que proibir as mulheres de espaços sagrados e posições de autoridade não era consistente com o Alcorão, os ensinamentos do Profeta, ou as práticas mais antigas da comunidade Islâmica. Ao invés, eles argumentavam, a exclusão de mulheres era um desenvolvimento mais tardio que se desviava do verdadeiro espírito do Islã.


Investigações recentes têm demonstrado que havia milhares de mulheres a estudar o Alcorão e os “hadith” na Idade Média. Estas mulheres incluem Umm al-Darda, uma professora de “hadith” e fiquh” (lei Islâmica) do século VII cujos estudantes incluíam o Califa de Damasco; Karima al-Marwaziyya, uma perita de Meca do século XI que era uma das autoridades proeminentes numa colecção de “hadith” conhecida como o “Ṣaḥīḥ al-Bukhārī”; e Fatimah al-Bataihiyyah, uma perita do século XIV que ensinava “hadith” na mesquita do Profeta em Medina. Os números de mulheres a estudar e ensinar o Alcorão e “hadith” na Idade Média desafiam todos os estereótipos acerca do papel das mulheres no Islã.


Houve e há grupos Muçulmanos que usam o Alcorão e os “hadith” para justificar opressões como barrar as mulheres de oportunidades educativas e profissionais, impor códigos de vestuário rígidos, casamento infantil e mutilação genital feminina. Apesar de tais práticas fazerem “headlines” e suscitarem condenação internacional (como deveriam), é um erro acreditar que a misoginia de tais grupos representa o espectro completo de ideias sobre mulher e género na tradição Islâmica.


Hoje feministas Islâmicas constroem argumentos para a inclusão de mulheres em domínios religiosos e públicos que são muito similares aos que as suas predecessoras medievais faziam. Estas feministas enfrentam oposição não só de fundamentalistas Islâmicos, mas também de feministas seculares Ocidentais que vêem o Islã como uma religião inerentemente opressiva e patriarcal da qual as mulheres devem ser libertadas. Olhar para o lugar da Virgem Maria na cultura Islâmica concede um primeiro plano aos aspectos mais igualitários da História e ensinamento Islâmico. É importante lembrar que estes são crenças tão “tradicionais” e autenticamente Islâmicas como as de inferioridade feminina.

 

Fonte - Aliah Schleifer, Mary the Blessed Virgin of Islam (Louisville, KY: Fons Vitae, 1997).

Jane I. Smith and Yvonne Y. Haddad, “The Virgin Mary in Islamic Tradition” The Muslim World vol. LXXIX nos. 3-4 (July/October 1989): 161-187.


Repensando a Idade Média, A Virgem Maria no Islão Medieval


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