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INSTRUMENTOS DE TORTURA NUNCA USADOS NA INQUISIÇÃO

Atualizado: há 3 dias




A Mentira Difundida


Quando falamos em Inquisição, a primeira coisa que imaginamos são os tais “Instrumentos de Tortura da Inquisição” presente em diversos sites, vídeos no Youtube, páginas do Instagram de adolescentes revoltados que se dizem possíveis "netas das bruxas" e por aí vai. Isso ainda sem qualquer tipo de referência histórica.


Até porque o uso de gravuras, e explicações de como esses instrumentos eram utilizados, é um ótimo gatilho para ganhar "Like" nas redes sociais.


Pois bem, a maioria dos instrumentos alegados sequer existiam na época que a Inquisição operava, tal qual a “Dama de Ferro”, que surgiu no fim do século XVIII, já quando a inquisição estava acabando, sem contar que nunca contabilizam o possível custo de montar um instrumento desse porte, deslocamento, e tudo mais.


Embora os tribunais inquisitoriais recorressem a tortura, ela era raramente aplicada. Vários estudos realizados por estudiosos recentes têm argumentado que a tortura era praticamente desconhecida no processo Inquisitorial Medieval.


O registro de Bernard Gui, inquisidor de Toulouse por seis anos, que examinou mais de 600 hereges, mostra apenas um caso em que foi usada tortura. Além disso, nas 930 sentenças registradas entre 1307 e 1323, a maioria dos acusados foi condenada à prisão, ou ao uso de cruzes, e penitências, sem qualquer tortura. A inquisição raramente usou a tortura em seus processos, ao contrário do que alegam muitos "historiadores", "sites" e "páginas do Instagram".


O Prof. Doutor Henry Kamen (maior autoridade viva sobre a Inquisição) em seu livro “Spanish Inquisition: A Historical Revision” afirma:


“A tortura era usada, normalmente como um último recurso e aplicada em apenas uma minoria dos casos. Muitas vezes, o acusado era apenas colocado em conspectu tormentorum, quando a visão dos instrumentos de tortura já provocava uma confissão. Confissões obtidas sob tortura não eram aceitas como válidas, porque elas obviamente tinham sido obtidas por pressão. Era, portanto, essencial para o acusado ratificar sua confissão no dia seguinte à provação.”

Então vamos lá, começando pela Dama de Ferro.


Dama de Ferro


Iron Maiden Torture - Torture Museum (Amsterdam)
Dama de Ferro - Museu da Tortura (Amsterdam)

Antes de tudo, é necessário lembrar das diversas gravuras que são propagadas sobre as sessões de tortura, que são frutos de artistas que não viram qualquer sessão. O historiador Jean Dumont, ressalta que gravuras do século XVI retratando Autos de Fé (anúncio público da sentença dos investigados pela Inquisição) exibiam construções com telhado triangular. Este tipo de arquitetura era comum nos Países Baixos e no vale do Reno regiões que são protestantes, não na Espanha.


A Dama de Ferro é provavelmente o mais famoso instrumento de tortura da história. A Dama de Ferro não é nem medieval ou da inquisição e nem um instrumento de tortura. Não existe nenhum registro histórico de uma “Dama de Ferro” até 1793.


No século XIX, catalogou-se a Dama de Ferro como instrumento medieval e ela foi exposta em diversos museus pelo mundo.


O San Diego Museum of Man e o Museu Universitário de Meiji também a expuseram, mas contraditoriamente um colunista da própria página do San Diego Museum of Man publicou, no dia 25 de Julho de 2012, um artigo chamado 'Medieval Imposter: the Iron Maiden', “A Dama de Ferro, impostora medieval”.


Neste texto, o colunista refuta o suposto uso de tal instrumento em uma execução realizada no dia 14 de agosto de 1515; a narração era um conto, uma fábula, com pouco ou nenhum valor histórico.


Assim declara o Dr. Klaus Graf:


“O objeto de execução, ‘Dama de Ferro’, é uma ficção do século XIX, já que somente a partir do século XIX que as chamadas "rishard cloaks", também chamadas de “damas”, foram providas de espinhos de ferro; deste modo, os objetos foram adaptados para as fantasias terríveis na literatura e nas lendas.”

(Mordgeschichten und Hexenerinnerungen - das boshafte Gedächtnis auf dem Dorf, June 21, 2001).


Em 19 de Abril de 2003 o filho de Saddam Hussein usou uma no Iraqi National Olympic Committee para torturar os atletas que não correspondessem as expectativas olímpicas do país.


A Pera


Pera da Angustia
Pera da Angústia - Klaus D. Peter / Wikimedia Commons

A “Pera” ou “Pera da Angústia” é mais um instrumento falsamente atribuído a inquisição. Além de não existir qualquer registro histórico que ela tenha sido usada na Inquisição, não existe qualquer referência a ela antes do século XVII.


Uma menção precoce é em F. de Calvi 's L'Inventaire général de l'histoire des larrons ('inventário geral da história de ladrões'), escrito em 1639, que atribui a invenção a um ladrão chamado Capitaine Gaucherou de Palioly.


Palioly teria usado uma mordaça mecânica para subjugar um parisiense rico enquanto ele e seus cúmplices roubavam a casa da vítima, fora isso não há qualquer registro que ela tenha sido usada por quem quer que seja, exceto alguns ladrões holandeses que para torturar seus inimigos.


Esse instrumento é muito difundido com o pretexto que seria utilizado para “rasgar” o ânus ou órgãos genitais das pessoas, não existe qualquer fundamento, mesmo os próprios ladrões holandeses utilizavam apenas para abrir a boca das pessoas.


Guilhotina


Guilhotina Francesa - Museu de Saigon, Vietnã

A guilhotina é mais um dos casos de instrumentos que surgiram após inquisição, mas são atribuídos a ela. Não existe qualquer relato do uso desse instrumento pela inquisição, até porque uma das regras da Inquisição era não derramar sangue. Não há nenhuma evidência histórica que a guilhotina tenha sido usada antes da Revolução francesa.


Após 1577 algumas histórias contam que máquinas parecidas como a guilhotina foram usadas na Alemanha, Grã-Bretanha e Itália, em 1300, por alguns tribunais seculares, mas não há nenhuma evidência clara para provar isso.


A guilhotina surgiu em 10 de outubro de 1789, quando o médico Joseph-Ignace Guillotin (daí o nome guilhotina) propôs à Assembleia Nacional que a pena de morte deveria ser mais "humanista" e sempre assumir a forma de menor sofrimento para todos.


Então Guillotin junto com o engenheiro Tobias Schmidt, construíram um protótipo para a guilhotina.


Antes da invenção da guilhotina, membros da nobreza poderiam ser decapitados com uma espada ou um machado, que muitas vezes levava dois ou mais golpes para matar os condenados. Ter apenas um método de execução civil para todos, independentemente da classe, era visto como uma expressão de igualdade entre os cidadãos. O dispositivo foi influenciado por dispositivos de decapitação usados ​​em outras partes da Europa, como o italiano Mannaia (ou Mannaja, que era usado desde os tempos romanos), o Scottish Maiden e o Halifax Gibbet.


Embora muitos desses instrumentos anteriores esmagassem o pescoço ou usassem força bruta para arrancar uma cabeça, os dispositivos também usavam uma lâmina crescente para decapitar, bem como uma canga articulada de duas partes para imobilizar o pescoço da vítima.


Berço de Judas


Berço de Judas - Museu da Tortura (Amsterdam)
Berço de Judas - Museu da Tortura (Amsterdam)

O berço de Judas também conhecido como Culla di Giuda foi inventado no século XVII, mas não há registros de seu uso, apenas gravuras atribuídas a inquisição.


Como já falamos aqui, é necessário lembrar que diversas gravuras que são propagadas sobre as sessões de tortura da inquisição, são frutos de artistas que não viram qualquer sessão. Nesse processo, o condenado era içado para cima de uma espécie de pirâmide feito de madeira, após isso era repetidamente e violentamente solto para baixo.


A invenção deste instrumento é atribuída (erroneamente) a Ippolito Marsili, professor de direito canônico e penal que viveu entre os século XV e XVI. É "atribuído" a Ippolito Marsili, pelo simples fato que Ippolito sendo contra a tortura corporal pelos tribunais seculares, inventou o “tormento do sono”.


Ao longo de sua vida, ele escreveu muitas repetições e notabilia em muitos cânones e decretais. Além disso, ele ensinou direito romano no ano de 1482. Ele é mais conhecido por documentar a tortura chinesa da água, método no qual gotas d'água cairiam consistentemente na testa da vítima, fazendo com que ela enlouquecesse.


Ele também foi a primeira pessoa a documentar a privação de sono como um meio de tortura, em que os interrogadores repetiam as mesmas perguntas, sacudindo a vítima em intervalos aleatórios, picando-a com uma alfinete ou forçando-a andar indefinidamente por um corredor. Para ele a privação do sono era um meio mais “humano” de tortura, já que não conseguiria abolir a tortura, e já que não infringia nenhum dano físico ao réu. E em seus registros nada consta sobre tal invenção do berço.


Por conta disso, criou-se a associação entre a privação do sono de Ippolito, e o “berço de Judas”.


A Serra


Pessoas eram serradas (Foto: Reprodução)
Pessoas eram serradas (Foto: Reprodução)

Essa ilustração é muito comum, quando você busca por "imagens da inquisição" na internet. Essa tortura, mais parece uma mutilação por assim dizer, consiste em colocar o acusado nu e suspenso pelas pernas, e ainda com uma serra abrindo o individuo aos poucos.


Não podemos negar sua existência, até porque se trata de uma prática muito antiga, que remonta ao reino persa, porém não há qualquer registro que tal prática tenha ocorrido na Inquisição.


Vamos lembrar novamente, os tribunais inquisitoriais não usavam nenhuma método que derramasse sangue, isso tambem mostra porque os condenados a morte por heresia eram queimados na fogueira.


O único indício da serra sendo utilizado na Europa Católica, ocorreu na Espanha na época da Rebelião das Alpujarras, ou (revolta dos mouriscos), onde um mourisco é relatado como tendo sido serrado em 1568.


Cadeira Inquisitória


Cadeira Inquisitorial - Museu da Tortura (Amsterdam)
Cadeira Inquisitorial - Museu da Tortura (Amsterdam)

Essa imagem é a mais famosa quando falamos em inquisição, acredito que seja até uma imagem universal, você pode simplesmente não conhecer, mas supostamente pode pensar em tortura assim que a vê.


Ela é conhecida como "Cadeira Interrogatória", "Cadeira Inquisitória", “Cadeira espanhola”, "Cadeira de Pregos" ou “Cadeira das Bruxas”.


Pois bem, ela se assemelha a uma poltrona de madeira, mas é revestida por uma chapa de ferro, sobre essa chapa havia diversas ponteiras em toda sua superfície.


Supostamente a pessoa era amarrada nessa poltrona de metal, como as pontas (semelhantes a pregos) eram totalmente alinhadas em seu tamanho e em toda sua superfície, a vítima não sofria nenhum ferimento (por um simples conceito de física), devido a isso, seus pés eram descalços e eram colocados no fogo até que falasse.


Ou ainda poderia ser colocado uma caixa metálica com fogo, em baixo da cadeira, fazendo a cadeira atingir altas temperaturas, o que facilmente perfuraria a vítima com as pontas flamejantes.


Mas, não há absolutamente nenhum registro, nenhuma anotação ou referência dessa cadeira, antes que ele aparecesse no museu de Amsterdam em 1800.


Outro ponto importante, é que o custo de uma cadeira dessa, seria altamente caro, e não duraria muito, já que seu esqueleto interno era feito de madeira, praticamente teria que ocorrer reparos contínuos se caso fosse realmente utilizado, ainda mais com o fogo aplicado em baixo da cadeira.

 

Fonte - Henry Kamen, Spanish Inquisition: A Historical Revision


BBC London, The Legend of the Spanish Inquisition


Benjamin P. Eldridge and William B. Watts (2004) [1897]. Our Rival, the Rascal: A Faithful Portrayal of the Conflict Between the Criminals of This Age and The Police.


Executive Producer Don Cambou (2001). Modern Marvels: Death Devices


Carlyle, Thomas. The French Revolution in Three Volumes.



Dwight Reynolds, speaking on 'Bettany Hughes:When the Moors Ruled in Europe


RODRIGUES, Rafael. Os instrumentos de tortura atribuídos a inquisição

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