Alfredo, o Grande e a lenda dos bolos
- História Medieval

- 25 de mai. de 2022
- 7 min de leitura
Atualizado: 7 de fev.

“Se a história fosse ensinada na forma de histórias, nunca seria esquecida.”
Rudyard Kipling
Entre as histórias mais conhecidas da história medieval inglesa, uma das mais curiosas é a lenda dos “bolos de Alfredo, o Grande”. A narrativa é simples, quase doméstica, mas envolve um rei em fuga, um fogo de lareira, alguns bolos assando e uma mulher camponesa que, por um momento, não sabe quem está em sua casa. Essa combinação de realeza e simplicidade da vida cotidiana deu origem a uma das imagens mais marcantes associadas à figura de Alfredo, o Grande: um rei que, mesmo escondido, aceita uma tarefa simples — e falha nela.
Ao mesmo tempo, a lenda é usada como uma parábola moral: mostra que concentração, responsabilidade e respeito por qualquer tarefa, grande ou pequena, fazem parte da verdadeira grandeza. Por isso, mesmo que sua veracidade histórica seja questionável, o simbolismo da história permanece vivo, sendo utilizado em escolas, livros infantis e até em discursos sobre liderança.
Quem foi Alfredo, o Grande?
Alfredo tornou-se conhecido como “Alfredo, o Grande” em razão de decisões políticas, militares e culturais tomadas entre os séculos IX e X. Ele nasceu por volta de 849 d.C., em Wessex, um dos reinos anglo-saxões da Inglaterra, e ascendeu ao trono em 871, em meio a uma crescente pressão provocada pelos ataques vikings. Sua época foi marcada por guerras, cercos, alianças instáveis e períodos de refúgio em pântanos e áreas rurais — o que ajuda a compreender o cenário da lenda dos bolos.
Historiadores destacam que Alfredo não se tornou “grande” apenas por vencer batalhas, mas por consolidar um sistema de defesa, promover a educação, estimular a tradução de textos religiosos e clássicos e fortalecer a imagem de um rei que se envolve pessoalmente com o povo. Essa combinação de resistência militar, organização interna e cultura explica por que a lenda dos bolos acabou se associando à sua imagem: ela reforça a ideia de um monarca que, mesmo em situação de fragilidade, não se afasta da responsabilidade por aquilo que lhe é confiado.
O contexto histórico da lenda
Para compreender por que a lenda dos bolos faz sentido no universo de Alfredo, é preciso lembrar o contexto em que ele viveu. A Inglaterra desse período era dividida em vários reinos anglo-saxões, frequentemente atacados por guerreiros nórdicos, popularmente conhecidos como vikings. Esses grupos, vindos principalmente da Escandinávia, chegavam pelo mar, atacavam mosteiros, vilas e centros de poder, muitas vezes promovendo saques e destruição.
Em 878, após uma série de derrotas, Alfredo foi forçado a fugir com um pequeno grupo de homens para a região de Somerset, uma área de pântanos e florestas que conhecia desde a infância. Foi nesse período que, segundo os relatos, ele se escondeu em pequenas comunidades, dependendo diretamente da ajuda de camponeses e lenhadores para se alimentar e obter abrigo. Esse cenário torna plausível a ideia de um rei disfarçado em uma casa simples, solicitando comida e abrigo e, mais tarde, aceitando uma tarefa doméstica.
Como a lenda se consolidou na memória
A lenda dos bolos de Alfredo não aparece em documentos históricos do próprio século IX, mas em narrativas posteriores, escritas por cronistas, historiadores e autores de textos didáticos e religiosos. Essas obras misturam informações históricas verificáveis com relatos simbólicos, pensados tanto para entreter quanto para ensinar valores como humildade, responsabilidade e disciplina.
Com o tempo, a história foi contada e recontada em livros, escolas, catecismos e sermões, ganhando versões mais simples para crianças e mais elaboradas para leitores adultos. Isso explica por que, mesmo sem fontes rigorosamente históricas sobre o episódio, a lenda se tornou uma das imagens mais fortes ligadas à figura de Alfredo, o Grande, muitas vezes resumida na expressão “o rei que queimou os bolos”.
Narrativa principal da lenda
De forma geral, a lenda narra o seguinte episódio: Alfredo, disfarçado e escondido, chega à casa de camponeses. Ele é acolhido pela mulher da casa, que, desconhecendo sua identidade real, lhe atribui uma tarefa simples: cuidar de alguns bolos que estão assando perto da lareira. Enquanto a mulher sai para ordenhar as vacas, cortar lenha ou realizar outra tarefa rural, o rei permanece pensando em seus problemas, preocupado com o destino de seu povo, as ameaças vikings e a necessidade de organizar sua resistência.
A concentração de Alfredo se dispersa em seus pensamentos, e ele acaba se esquecendo da tarefa. Quando os bolos começam a queimar, a mulher retorna, encontra a cabana cheia de fumaça e os bolos queimados, e repreende o desconhecido com severidade, chamando-o de preguiçoso, desleixado e ingrato. Ela diz algo semelhante a: “Você quer comer, mas não quer trabalhar”, deixando claro que, para ela, o descuido com um dever simples é inaceitável.
A descoberta da verdadeira identidade
Em muitas versões, o marido da camponesa chega logo depois e, ao ver Alfredo próximo ao fogo, reconhece o rei. Em alguns relatos, ele o havia visto em batalhas ou visitas anteriores; em outros, o identifica pela aparência ou por algum detalhe. A mulher, então, descobre que o homem que repreendera com tanta dureza era, na verdade, o próprio monarca de Wessex.
Assustada, ela se ajoelha, pede perdão e se desculpa pelas palavras duras. Em quase todas as versões, porém, Alfredo não se mostra ofendido nem retaliador. Ele reconhece que havia recebido a tarefa de cuidar dos bolos e que falhou em cumpri-la; portanto, a mulher tinha razão em censurá-lo. Essa resposta é o ponto central da lenda: mostra que o rei aceita a crítica, admite a falha e a transforma em lição, sem recorrer ao poder simbólico de sua posição.
Título moral
A leitura mais comum dessa lenda é a de uma parábola moral sobre concentração, responsabilidade e humildade. Ao executar uma tarefa simples, Alfredo simboliza a tendência humana de se preocupar com questões grandiosas e negligenciar aquilo que está imediatamente diante de si. A camponesa, por sua vez, representa a voz da consciência: alguém que não se impressiona com status e julga as pessoas por suas ações concretas.
A ideia central é que a grandeza não se mede apenas por títulos, mas pela forma como se cumpre qualquer tarefa, mesmo a mais humilde. A lenda ensina que não se deve subestimar deveres aparentemente banais, pois a negligência nas pequenas coisas pode revelar despreparo para questões maiores.
Versões diferentes da lenda
Existem diversas versões da lenda, mas o núcleo narrativo permanece o mesmo: um rei em fuga, uma camponesa, bolos queimando e uma repreensão. Em alguns relatos, o anfitrião é um lenhador; em outros, um casal simples que oferece abrigo por caridade. Em versões infantis, o tom é mais leve, com foco no humor e no desfecho educativo.
Também há variações quanto à reação da mulher ao descobrir a identidade do hóspede. Em algumas versões, ela entra em pânico, temendo punições; em outras, o rei a tranquiliza, agradece o abrigo e utiliza a situação para ensinar que ninguém está livre de errar, mas que o essencial é aprender com o erro. Essas variações permitem que a lenda seja adaptada a diferentes públicos, desde crianças até reflexões sobre liderança.
O simbolismo dos bolos na história
Os bolos representam algo aparentemente simples, mas que exige atenção constante. Assar alimentos em fogo aberto não é uma tarefa complexa, mas requer vigilância e cuidado. Quando Alfredo se distrai, o símbolo indica que até grandes líderes podem falhar em deveres cotidianos quando sua mente está voltada exclusivamente para questões de grande escala.
Os bolos queimados também simbolizam o risco de negligenciar o presente em nome de preocupações futuras. A lenda funciona, assim, como uma crítica sutil à ideia de que pessoas “importantes” só precisam se ocupar de grandes decisões, lembrando que qualquer organização depende do cuidado com tarefas menores.
Alfredo e a figura do rei próximo do povo
A lenda reforça a imagem de um rei que se mistura ao povo comum. Diferentemente da representação de monarcas permanentemente cercados de luxo, Alfredo aparece disfarçado, sem corte nem proteção formal. Essa proximidade também é observada em sua trajetória histórica: ele é lembrado por dialogar com líderes locais, visitar comunidades e compreender a realidade do povo.
A crítica da camponesa ao hóspede
Um dos momentos mais marcantes da lenda é a repreensão da camponesa ao ver os bolos queimados. Ela trata o hóspede como qualquer outro homem incapaz de cumprir uma tarefa básica. Esse trecho evidencia a igualdade momentânea entre rei e camponesa: sem os símbolos de poder, Alfredo está sujeito às mesmas críticas que qualquer pessoa.
Humildade como traço central de Alfredo
Mais do que a falha em si, a lenda destaca a humildade de Alfredo. Ele aceita a crítica, admite o erro e não se vale de sua posição para escapar da responsabilidade. Esse comportamento contrasta com muitas narrativas de poder em que líderes reagem com arrogância ou punições diante de questionamentos.
Considerações finais
A lenda dos bolos não substitui a trajetória histórica de Alfredo, mas a complementa. Ela apresenta um rei guerreiro e administrador, mas também humano, falível e capaz de aprender com erros simples. Essa combinação de força e humanidade é o que mantém a lenda viva, séculos depois, como uma das narrativas morais mais duradouras da tradição medieval inglesa.
Fontes
ALTICK, RD Alfredo, o Grande. Oxford: Oxford University Press, 1962.
ASSER, bispo de Sherborne. Vida do Rei Alfredo (Vita Ælfredi regis Angul Saxonum) . In: KEYNES, Simon; LAPIDGE, Michael (org.). Alfred the Great: Asser's Life of King Alfred and other contemporary sources. Harmondsworth: Penguin Books, 1983.
BENNETT, William J. O Livro das Virtudes II – O Compasso Moral. Tradução de RODRIGO ITALIANO. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.
KEYNES, Simon; LAPIDGE, Michael (org.). Alfredo, o Grande: A biografia do Rei Alfredo escrita por Asser e outras fontes contemporâneas. Harmondsworth: Penguin Books, 1983.
ROBERTS, Jem. Alfredo, o Grande. Londres: Hodder & Stoughton, 2020.
SMYTH, Alfred P. Rei Alfredo, o Grande. Oxford: Oxford University Press, 1995.
SILVA, Eduardo de VC Tempo, narrativa e história na Vita Ælfredi regis Angul Saxonum. In: Revista História & Culturas . Fortaleza, CE: Universidade Estadual do Ceará, 2015. Disponível em:
Acesso em: 07 fev. 2026.




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