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AS ROTAS E VIAS COMERCIAIS NA BAIXA IDADE MÉDIA

Atualizado: 19 de ago. de 2022




Renascimento Comercial do Século XI


Ao final do século XI a Europa já se encontrava em uma configuração política completamente diferente de seu início. O Colapso do Império Carolíngio provocou o surgimento de novos territórios, formas de estado e uma nova organização social imposta pela igreja. A conquista normanda na Inglaterra parecia por início ao contrato feudovassálico do território inglês sobre administração do Duque Normando Guilherme. A reconquista na península ibérica, o fim dos ataques escandinavos e de povos nômades dos balcãs pareciam por início a uma fase relativamente pacífica no cenário europeu.


Entretanto, junto dessa paz no ordenamento social e político houve o reaparecimento e renascimento do comércio, que viria a ser potencializado pelo contato mais próximo entre os mercadores muçulmanos e cristãos. Mas, as diferentes regiões da cristandade não conhecem com a mesma intensidade essas manifestações da revolução comercial.


Nos polos de maior intensidade havia a Itália com suas cidades-estado, estas viviam do comércio, mercadores venezianos e genoveses aprenderam novas táticas de vendas e descobriram novos produtos em Bizâncio e Alexandria, assim, revendendo os produtos na Europa. Em menor grau o renascimento comercial do século XI foi experimentado na Provença, Espanha, Alemanha do Norte, Inglaterra do Sudeste, Normandia, e estados eslavo-escandinavos onde era possível adquirir escravos. O Império Romano do Oriente, porta de entrada de mercadorias do mar negro e oriente tinha um dos maiores polos de compra fáceis de especiarias, o Chipre.


As trocas comerciais provocaram o aparecimento de mercadores itinerantes, ou seja, comerciantes que viajavam entre as rotas hanseáticas, italianas, ibéricas, muçulmanas, bizantinas e tártaras em busca de vender seus produtos e lucrar uma quantia por mercadorias “miúdas”, expressão que abrange uma série de mercadorias de preço elevado por um pequeno volume (especiarias), estas eram usadas nos toaletes, farmácias, tinturarias e cozinhas, e haviam as mercadorias “pobres”, pesadas e volumosas por um valor menor, consistiam em grãos, vinhos e sais.


As Rotas Terrestres



As rotas usadas pelos mercadores itinerantes consistiam de três tipos. As terrestres, de todas estas eram as mais árduas e de mais complicada travessia, muitos obstáculos eram ocasionados pela precarização de estradas nas montanhas que não eram tão lajeadas ou cimentadas como na Antiguidade, apesar de serem muito mais largas que estas, ainda eram rudimentares.


Dos Pirineus até os Alpes italianos o tráfego por era volumoso e a passagem das mercadorias se dava de forma complicada, um carregamento que iria de Flandres para a Itália representava inúmeros riscos e esforços, em algumas rotas ainda eram possível fazer uso das antigas vias romanas, mas, em caminhos não pavimentados os resultados poderiam ou não ser desastrosos.


Carroças de quatro rodas, mulas e cavalos com selas e fardos eram normalmente os principais meios de transporte usados nas travessias.


Além dos riscos que as vias poderiam apresentar, havia a possibilidade de assaltos por bandidos, senhores de cidades que buscavam uma maneira pouco honesta de conseguir novos produtos através de confisco.


Um claro exemplo é a ponte suspensa de Gothard, em 1237, este viria a ser o caminho mais curto para a Itália e a Alemanha.


Uma das táticas mais utilizadas e que foi potencializada pela fragmentação dos territórios e divisão do poder, eram as taxas de pedágio. Estas eram cobradas por senhores, cidades ou comunidades em travessia de pontes e terras, no século XIII até mesmo monastérios e grupos de burgueses retiravam rendas de pedágios para a própria manutenção destas. Mas, uma política concisa de organização e cuidado das estradas de forma que não fossem exauridos os mercadores só viria a ser implementado no século XIV e XV, quando reis e príncipes começam a deter um poder mais absoluto de suas terras e o poder começa a ser menos fragmentado.


Vias Fluviais


Justamente pelas dificuldades presentes nas vias terrestres, as vias fluviais eram de suma importância e maior praticidade. O transporte por barcos a vela asseguravam uma maior segurança e facilidade para o comerciante medieval, as rotas mais lucrativas iam desde o norte da Itália e seus afluentes, mas, deve-se dar destaque as vias flamengas do século XIII e a Reno-Danúbio, os rios sofriam constate alterações antrópicas que permitiam com o passar dos séculos uma maior estabilidade, segurança e manutenção do comércio pelas vias fluviais.


As vias Marítimas




Mas, viria a ser o transporte marítimo que viria a fazer o nome e fortuna dos grandes mercadores, vendendo e revendendo os produtos na Europa, Oriente e Ásia. Estas apesar de serem as que ofereciam um lucro maior, apresentavam também inúmeros riscos. Um destes viria a ser a pirataria, mas não apenas potencializada pelos que a exerciam corriqueiramente, mas pelos próprios comerciantes.


Os comerciantes medievais faziam seus empreendimentos com suas naus, podiam se aproveitar da falta de especialização da própria lei para lucrar. Os reis angevinos davam o “jus naufragii” no século XIII como o direito de aquisição de destroços ou bens abandonados por naufrágio, pela falta de probabilidade de se provar um naufrágio, muitas naus eram atacas por corsários contratados por comerciantes ingleses e bretões nos mares hanseáticos.


Muitos foram os comerciantes italianos que foram prejudicados por esta lei que já havia sido abolida há muito no mediterrâneo, e só mesmo as próprias cidades italianas podiam organizar frotas e comboios que protegeriam seus produtos e mercadorias. O ciclo de uma operação mercantil veneziana poderia durar seis anos mesmo com os adventos da bússola, velas latinas e progressos da cartografia. O transporte de especiarias de Alexandria para Veneza, a revenda destes em Londres, a compra de estanho que seria revendida em Alexandria e o recarregamento destas especiarias em Veneza duraria no mínimo dois anos. Naus hanseáticas, galeras italianas, carracas genovesas e espanholas eram carregadas de especiarias da Síria e do Chipre, que raramente excediam 500 toneladas. Já no século XIV haverá o advento do mercador sedentário, que será abordado em outro escrito.

 

Fonte - Jacques LeGoff., Mercadores e banqueiros da Idade Média.

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