Coelhos assassinos em manuscritos medievais
- História Medieval

- 10 de mar. de 2022
- 3 min de leitura
Atualizado: 25 de jan.

Se você já assistiu a Monty Python e o Cálice Sagrado, certamente se lembra da célebre cena em que um aparentemente inofensivo coelho revela-se uma criatura assassina — uma sequência tão absurda quanto memorável. Embora, à primeira vista, esse episódio pareça apenas mais um exemplo do humor surreal característico do grupo britânico, ele possui raízes muito mais profundas na cultura visual e simbólica da Idade Média. Assim, senhoras e senhores, apresentamos-lhes um curioso — e inquietante — fenômeno do imaginário medieval: os coelhos assassinos. Convém advertir: haverá sangue.
Antes de cerca de 1440, quando o ourives Johannes Gutenberg introduziu a imprensa de tipos móveis, os livros eram copiados manualmente. Durante a Idade Média, essa tarefa exigente era desempenhada, em grande parte, por monges residentes em mosteiros. Muitos desses manuscritos eram ricamente iluminados, isto é, ornamentados com ilustrações e elementos decorativos. Além disso, uma parcela significativa deles continha aquilo que os estudiosos denominam marginalia: desenhos e figuras inseridos nas margens do texto principal.
Essas imagens marginais revelam um universo surpreendente e, por vezes, perturbador: monstros grotescos, bestas híbridas, cenas obscenas, figuras humano-animais e representações explícitas da corporalidade humana. Entre essas imagens, destaca-se um grupo específico conhecido como drolleries — composições cômicas ou absurdas que se tornaram particularmente populares entre meados do século XIII e o século XV.
No imaginário medieval convencional, os coelhos eram associados à pureza, à inocência e à vulnerabilidade. Não por acaso, aparecem com frequência em representações da Sagrada Família ou de Cristo, como se observa, por exemplo, em gravuras de Albrecht Dürer. Contudo, nas drolleries, essa simbologia é deliberadamente subvertida. Os coelhos deixam de ser presas indefesas e assumem o papel de criaturas violentas, cruéis e sádicas. Armados até os dentes, eles caçam homens, enfrentam cavaleiros e protagonizam cenas de brutalidade surpreendentemente elaboradas. São imagens que invertem radicalmente a ordem natural e social: o fraco torna-se predador, o animal domina o homem.
Esse universo visual reflete o chamado “mundo às avessas”, uma lógica profundamente enraizada na cultura medieval do riso. Em uma sociedade marcada por hierarquias rígidas, dogmas religiosos e forte controle social, o humor funcionava como uma válvula de escape. Festas populares, celebrações carnavalescas e manifestações satíricas permitiam a suspensão temporária das normas, expondo a relatividade das verdades absolutas e a fragilidade das autoridades estabelecidas. Nesse contexto, a inversão simbólica — como coelhos assassinos dominando cavaleiros — tornava-se uma poderosa forma de comentário social.
Foi justamente essa dinâmica que o filósofo e crítico literário russo Mikhail Bakhtin, em 1929, definiu como o “carnavalesco”: um modo cultural e literário que subverte a ordem dominante por meio do humor, do exagero e do caos. Para Bakhtin, o carnaval não era apenas um evento festivo, mas uma expressão profunda da psique humana, tanto coletiva quanto individual. As drolleries dos manuscritos medievais, com seus coelhos violentos e cenas absurdas, são exemplos paradigmáticos dessa subversão cultural.
Nem todos, contudo, apreciavam esse tipo de expressão. O célebre monge cisterciense Bernardo de Clairvaux, uma das figuras mais influentes do monaquismo medieval, condenava tais imagens, descrevendo-as como “monstruosidades ridículas” nos Decretais. Em tom severo, escreveu:
“Ainda que a tolice de tudo isso não cause vergonha, ao menos que alguém recuse o custo.”
Ao que tudo indica, Bernardo não possuía grande apreço pelo humor nem pela inversão simbólica das hierarquias.
Assim, os coelhos assassinos podem ser interpretados de múltiplas formas: como simples piadas visuais, como reflexos da mentalidade medieval ou como manifestações sofisticadas de crítica cultural. E, embora menos acadêmica, há ainda uma leitura irresistivelmente irônica: talvez essas imagens representem uma vingança imaginária — ainda que inconsciente — dos amantes de animais e, quem sabe, de vegetarianos medievais, contra uma sociedade essencialmente carnívora. Afinal, na vida real, o destino dos coelhos era bem conhecido.
Felizmente, os livros preservaram esse mundo invertido. E graças a eles, os coelhos, ao menos nas margens dos manuscritos, tiveram sua revanche.
Fontes
Zuzanna Stanska, The Unbelievable Story of Killer Rabbits in Medieval Manuscripts - Dailyart Magazine
BRITISH LIBRARY. Illuminated Manuscripts Collection.
Disponível em: https://www.bl.uk/manuscripts/ Acesso em: [24 de janeiro de 2026].




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