Como os Assassinos receberam seu nome?
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Como os Assassinos receberam seu nome?

Atualizado: 20 de jan.



Como os Assassinos receberam seu nome?

A forma pela qual os nizaritas ismaelitas passaram a ser conhecidos no Ocidente como “Assassinos” permanece objeto de intenso debate historiográfico. A explicação mais difundida no imaginário popular sustenta que o termo teria origem no suposto uso de substâncias entorpecentes — especialmente ópio ou haxixe — empregadas para induzir um estado de frenesi fanático entre seus agentes. Essa narrativa, embora amplamente difundida, carece de comprovação documental sólida e deve ser tratada com cautela.


Tal interpretação surgiu no contexto das Cruzadas, quando relatos europeus começaram a circular descrevendo os nizaritas como uma seita secreta e violenta, dotada de métodos obscuros e rituais exóticos. No entanto, essas descrições foram construídas majoritariamente a partir de testemunhos indiretos, rumores de campo e interpretações enviesadas, marcadas pela incompreensão cultural e pela hostilidade religiosa.


O mito ganhou maior difusão no Ocidente por meio dos escritos de Marco Polo, cujos diários de viagem exerceram enorme influência sobre a percepção europeia do Oriente. Em sua obra, Polo descreveu o funcionamento dos chamados Assassinos e chegou a afirmar que teria visitado a fortaleza de Alamut, o célebre centro político e espiritual dos nizaritas. Contudo, essa afirmação é altamente questionável. Marco Polo redigiu seus relatos no final do século XIII, quando o poder nizarita já havia sido destruído pelas campanhas mongóis, especialmente após a queda de Alamut em 1256.


Desse modo, os relatos de Polo não apenas são tardios, como também refletem uma tradição narrativa já carregada de exageros, elementos lendários e estereótipos orientais. A associação direta entre os nizaritas e o consumo ritual de drogas não encontra respaldo nas fontes islâmicas contemporâneas ao movimento, tampouco nos registros administrativos ou doutrinários do próprio ismaelismo.


A persistência dessa explicação deve-se menos à sua veracidade histórica e mais à sua força simbólica. Ela oferecia ao público europeu medieval uma justificativa conveniente para explicar a eficácia, a disciplina e o comprometimento dos agentes nizaritas, reduzindo um fenômeno político-religioso complexo a uma caricatura de fanatismo irracional.


Assim, a origem do termo “Assassino”, longe de ser um dado estabelecido, revela mais sobre os processos de construção do imaginário ocidental medieval do que sobre a realidade histórica dos nizaritas ismaelitas.


O Velho da Montanha


Segundo os relatos de Marco Polo, os Assassinos seriam liderados por uma figura enigmática e temida, conhecida no Ocidente como o Velho das Montanhas. A ele é atribuída a criação de um espaço secreto no interior da fortaleza de Alamut, denominado pelo viajante veneziano como o Jardim do Paraíso. De acordo com essa narrativa, o jardim seria um local cuidadosamente construído para simular as recompensas celestiais descritas na tradição islâmica, repleto de alimentos exóticos, bebidas abundantes e mulheres seminuas, destinadas a encantar e seduzir os jovens iniciados.


Ainda segundo Polo, os recrutas eram conduzidos a esse espaço após receberem substâncias entorpecentes que os colocavam em estado de torpor profundo. Ao despertarem, encontravam-se imersos em um ambiente de prazer absoluto, o que os levava a acreditar que haviam sido transportados para o Paraíso prometido. O viajante descreve o procedimento da seguinte forma:


“Em certas ocasiões, ele fazia com que ópio fosse administrado a dez ou doze jovens; e quando meio mortos de sono, eram transportados para os diversos apartamentos dos palácios do jardim. Ao despertar do estado de letargia, seus sentidos eram imediatamente tomados por todos os objetos deliciosos ali dispostos. Cada um se percebia cercado por belas donzelas, que cantavam, brincavam e atraíam seus olhares com as mais sedutoras carícias, servindo-lhes também iguarias delicadas e vinhos requintados. Embriagados pelo excesso de prazer, em meio a verdadeiros riachos de leite e vinho, acreditavam-se seguramente no Paraíso e sentiam profunda relutância em abandonar aquelas delícias.”

Após um período nesse ambiente, o Velho das Montanhas, ainda segundo Polo, retirava os jovens do jardim, entregava-lhes uma adaga cerimonial e lhes designava uma missão específica: o assassinato de um alvo previamente escolhido. Prometia-lhes que, caso fossem bem-sucedidos, poderiam retornar ao Jardim do Paraíso. Caso morressem no cumprimento da tarefa, seriam recompensados com prazeres ainda mais sublimes na vida após a morte.


Essa narrativa, embora profundamente marcada por elementos simbólicos e fantásticos, exerceu enorme influência sobre a percepção ocidental dos Assassinos, contribuindo decisivamente para a consolidação de sua imagem como uma seita fanática e manipuladora, disposta a instrumentalizar o desejo humano como meio de controle absoluto.


A visão europeia foi ainda mais intensificada por relatos clericais de tom moralizante. O padre alemão Brocardus, escrevendo no século XIV, deixou uma descrição particularmente alarmante ao tratar dos perigos enfrentados por viajantes no Oriente Médio. Em seu testemunho, ele menciona explicitamente os Assassinos, afirmando:


“Eu nomeio os Assassinos, que devem ser amaldiçoados e evitados. Eles se vendem, têm sede de sangue humano, matam inocentes por pagamento e não se importam nem com a vida nem com a salvação. Como o diabo, transfiguram-se em anjos de luz, imitando os gestos, as vestimentas, as línguas, os costumes e os atos de diversas nações e povos.”

O testemunho de Brocardus revela menos sobre a realidade interna do movimento nizarita e mais sobre o clima de temor, incompreensão e demonização que cercava os Assassinos no imaginário cristão medieval. Assim como os relatos de Marco Polo, sua descrição deve ser compreendida dentro do contexto de conflito religioso, distância cultural e transmissão indireta de informações.


Em conjunto, essas narrativas moldaram uma imagem duradoura do Velho das Montanhas como arquétipo do manipulador absoluto — uma figura que, embora poderosa no plano simbólico, permanece envolta em camadas de lenda e construção ideológica. A historiografia moderna, ao revisitar essas fontes, reconhece nelas menos um retrato fiel da liderança nizarita e mais um testemunho eloquente de como o Ocidente medieval interpretava — e frequentemente distorcia — realidades que lhe eram estranhas.


Uma caricatura colorida


As narrativas fantasiosas difundidas por Marco Polo e Brocardus, repletas de alusões ao uso de drogas e a assassinatos ritualizados, embora dramaticamente eficazes, possuem escassa sustentação histórica. Não há evidência documental confiável que indique que os nizaritas ismaelitas recorressem a substâncias entorpecentes em seus rituais ou processos de formação. Pelo contrário, o consumo de álcool e de outros intoxicantes era explicitamente proibido pela seita, conhecida por sua disciplina rigorosa e por uma interpretação austera dos preceitos islâmicos.


Apesar disso, o mito dos Assassinos como agentes enlouquecidos por drogas sobreviveu ao longo dos séculos e chegou praticamente intacto à modernidade. Parte dessa persistência decorre de uma confusão linguística e historiográfica relacionada aos termos hashīshīm e hashīshiyya, empregados por algumas fontes muçulmanas medievais para designar os nizaritas. Esses vocábulos acabariam, mais tarde, por fornecer a base etimológica da palavra ocidental “assassino”.


Traduzidos de forma literal e descontextualizada como “usuários de haxixe”, tais termos levaram muitos autores posteriores a supor que os nizaritas faziam uso sistemático da droga. Essa interpretação, contudo, ignora o valor semântico e social dessas expressões no contexto medieval islâmico. O haxixe era frequentemente associado às camadas marginalizadas da sociedade, sendo visto como um vício dos imorais, dos pobres ou dos desviantes. Nesse sentido, o uso desses termos deve ser compreendido menos como uma descrição factual e mais como um rótulo pejorativo, destinado a deslegitimar e difamar o grupo.


É igualmente fundamental considerar o perfil ideológico das fontes. Muitos dos cronistas contemporâneos que escreveram sobre os Assassinos eram muçulmanos sunitas, profundamente hostis à seita xiita ismaelita. Essa antipatia sectária influenciou diretamente a forma como os nizaritas foram retratados, resultando em descrições carregadas de exagero, medo e desprezo. Ao rotulá-los como hashīshiyya, esses autores não apenas os marginalizavam religiosamente, mas também os associavam a práticas moralmente condenáveis.


Dessa maneira, a imagem dos Assassinos como fanáticos drogados não emerge de uma observação empírica, mas de um processo de caricaturização, no qual preconceito religioso, incompreensão cultural e transmissão acrítica de relatos se combinaram para criar um estereótipo duradouro. O sucesso dessa caricatura foi tamanho que atravessou séculos, moldando a percepção ocidental do grupo e obscurecendo a complexidade política, religiosa e estratégica dos nizaritas ismaelitas.


A historiografia moderna, ao reexaminar cuidadosamente as fontes e seus contextos, tem demonstrado que essa imagem diz menos sobre os próprios Assassinos e mais sobre as ansiedades, rivalidades e construções simbólicas do mundo medieval que os observava à distância. As fontes utilizadas neste artigo baseiam-se exclusivamente em obras acadêmicas consolidadas, com especial destaque para os estudos de Farhad Daftary, referência mundial no campo do ismaelismo nizarita. Obras de caráter enciclopédico ou não acadêmico, como Wikipédia, não foram utilizadas.

Fontes


DAFTARY, Farhad. The Assassin Legends: Myths of the Ismaʿilis. London: I.B. Tauris, 1994.


DAFTARY, Farhad. The Ismāʿīlīs: Their History and Doctrines. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.


HODGSON, Marshall G. S. The Venture of Islam. Vol. 2: The Expansion of Islam in the Middle Periods. Chicago: University of Chicago Press, 1974.


LEWIS, Bernard. The Assassins: A Radical Sect in Islam. London: Phoenix Press, 2002.


MAALOUF, Amin. As Cruzadas vistas pelos árabes. Tradução de Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.


POLO, Marco. O livro das maravilhas. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Edições 70, 2002.


WALKER, Paul E. Early Philosophical Shiism: The Ismaili Neoplatonism of Abū Yaʿqūb al-Sijistānī. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.


WILLEY, Peter. Eagle’s Nest: Ismaili Castles in Iran and Syria. London: I.B. Tauris, 2005.

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