Justiniano I
- História Medieval

- 27 de dez. de 2025
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Poucos soberanos do Mediterrâneo tardo-antigo concentraram tanta ambição em um único reinado quanto Justiniano I. Ele tentou fazer, do século VI, um retorno consciente à grandeza romana: reconquistar províncias perdidas no Ocidente, unificar a fé do império, reorganizar o direito e erguer, em Constantinopla, uma capital que parecesse não apenas herdeira, mas continuação de Roma. O problema é que o mundo no qual Justiniano governou já não era o mundo que Roma um dia dominara. A máquina imperial ainda era poderosa, mas estava cercada por fronteiras em combustão, tensões religiosas profundas, elites provinciais difíceis de controlar e, no meio do caminho, uma crise biológica devastadora: a peste.
É por isso que Justiniano permanece como figura-limite. Em alguns sentidos, ele foi o último imperador “romano” em chave clássica, porque pensou o império como universal e governável pela lei. Em outros, foi já plenamente “bizantino”, porque governou por uma política palaciana altamente centralizada, por diplomacia dura, por uma fiscalidade pesada e por uma teologia que se confundia com administração. O seu legado, ao mesmo tempo monumental e frágil, explica por que ele é indispensável para entender a transição entre Antiguidade e Idade Média no Oriente e no Ocidente.
Fontes e o desafio de narrar Justiniano
A principal base narrativa do reinado é Procópio de Cesareia, e ele é, ao mesmo tempo, indispensável e perigoso. Em History of the Wars, Procópio fornece um relato detalhado das campanhas e de personagens como Belisário. Em Buildings, produz uma peça de exaltação do programa de construção de Justiniano, praticamente propaganda. Já a Secret History oferece um retrato brutalmente hostil do imperador e de Teodora. Essas três obras, juntas, não “se anulam”; elas obrigam leitura crítica: Procópio escreve com propósitos diferentes, para públicos diferentes, e com graus diferentes de liberdade para elogiar ou atacar.
Para equilibrar o quadro, entram cronistas como João Malalas, autores como Agátias para a fase posterior, materiais diplomáticos e eclesiásticos, além do corpus legal do próprio governo. A historiografia recente, por sua vez, reforçou uma regra simples: Justiniano não pode ser explicado apenas como “grande homem” ou “grande vilão”. Seu reinado é um laboratório do funcionamento estrutural do Império Romano do Oriente, em que exército, fisco, elites provinciais, Igreja e propaganda formam um sistema único.
Origens: Petrus Sabbatius e a ascensão por redes e patronagem
Justinianо nasceu como Petrus Sabbatius, provavelmente por volta de 482/483, em uma região balcânica vinculada às províncias de fronteira, onde o latim ainda tinha peso e onde a carreira militar podia impulsionar mobilidade social. O detalhe exato do local de nascimento é discutido nas tradições, mas o quadro que importa é sólido: ele veio do mundo provincial, não da velha aristocracia senatorial de Roma.
O impulso decisivo foi a ascensão do tio, Justino I, um soldado que alcançou o trono em 518. Justiniano foi adotado, promovido e preparado como herdeiro. Esse caminho explica duas marcas centrais do futuro imperador. A primeira é a confiança na capacidade do Estado e do exército de “refazer” a ordem do mundo. A segunda é a crença de que o poder imperial deveria ser programático, isto é, dotado de projeto e de coerência: governar não era apenas responder a crises, mas produzir unidade por meio de leis, ortodoxia e administração.
Esse ideal, porém, logo se chocaria com a realidade explosiva da capital e com o custo material de um império em múltiplas frentes.
Teodora: poder palaciano e o equilíbrio interno do regime
A presença de Teodora é um dos eixos mais discutidos do reinado. Procópio, especialmente na Secret History, a retrata com hostilidade extrema, e isso exige cautela. Ainda assim, quando se cruza o conjunto de fontes e a leitura historiográfica moderna, emerge um dado consistente: Teodora detinha influência política real.
Sua relevância aparece sobretudo no campo religioso e nas dinâmicas de corte.
Constantinopla era uma máquina administrativa, mas também era um sistema palaciano, no qual acesso ao imperador, patronagem e proteção de redes eclesiásticas tinham consequências diretas. Teodora surge como força que protegeu grupos e líderes dissidentes ou marginalizados pela política oficial e, com isso, funcionou muitas vezes como contrapeso interno às tentativas de uniformização rígida. Esse aspecto é decisivo porque antecipa um tema recorrente: a unidade religiosa era, para Justiniano, uma necessidade imperial, mas o império era diverso demais para que a unidade fosse obtida sem fratura.
532: a Revolta de Nika e o trauma que moldou a autoridade
A Revolta de Nika, em 532, foi o grande abalo interno do reinado inicial. O levante nasceu em um ambiente em que facções do hipódromo não eram simples torcidas, mas redes urbanas e políticas capazes de canalizar ressentimentos contra impostos, favoritismos, violência e disputas entre elites. A crise rapidamente ultrapassou o hipódromo e atingiu o coração do poder, com incêndios, destruição e ameaça real ao governo.
O desfecho foi a repressão brutal e o restabelecimento da autoridade. A lição para Justiniano foi clara: controlar o império exigia controlar a capital, seus rituais e seu clima social. Em um Estado tão centralizado, a legitimidade não era sustentada apenas por vitórias distantes, mas pela capacidade de governar a cidade que era vitrine do mundo romano-oriental.
A partir daqui, seu programa monumental e simbólico ganha uma função adicional: não apenas glorificar o império, mas estabilizar a própria ideia de que o regime era inevitável e permanente.
Hagia Sophia: arquitetura, liturgia e propaganda do império cristão
A reconstrução da Hagia Sophia e sua consagração em 537 expressam o auge da política simbólica justinianéia. O edifício não era apenas um templo: era um manifesto. Ele articulava teologia e poder, produzindo um espaço onde a liturgia parecia confirmar, com luz e escala, a universalidade do império cristão.
Procópio, em Buildings, descreve as obras de Justiniano em tom laudatório, e isso precisa ser lido como propaganda. Mas propaganda é útil justamente por revelar intenção: Justiniano queria que Constantinopla fosse o centro visível de uma ordem do mundo. Depois de 532, isso também era uma mensagem doméstica: a capital seria reconstruída não como cidade ferida, mas como cidade triunfante. Essa lógica se repetiu em obras civis, defensivas e religiosas pelo império. Construir era governar.
O Corpus Juris Civilis: o direito como instrumento de unidade imperial
A grande obra durável do reinado é o Corpus Juris Civilis. A codificação e reorganização do direito romano em Codex, Digest, Institutas e Novelas foi mais do que compilação; foi projeto político. Ao sistematizar normas e juristas, Justiniano consolidou o imperador como fonte do direito e forneceu instrumentos para administração, tribunais e ensino.
Aqui está uma chave para entender sua autopercepção: Justiniano via a lei como coluna vertebral do império. Guerra podia ampliar fronteiras, mas a lei poderia manter coesão e produzir continuidade. E, de fato, essa herança escapou ao tempo curto da política: o direito justinianeu atravessou séculos e, muito mais tarde, teria papel decisivo no renascimento jurídico do Ocidente medieval, moldando tradições do direito civil europeu.
Se Roma é também uma linguagem, Justiniano garantiu que essa linguagem sobrevivesse em textos.
A “restauração” militar: por que Justiniano tentou reconquistar o Ocidente
A guerra de Justiniano no Ocidente não foi apresentada como conquista, mas como restauração. Isso importa. O governo buscou enquadrar suas campanhas como recuperação de províncias romanas usurpadas por reinos germânicos. A retórica, além de simbólica, era fiscal e política: ela justificava tributos, mobilização e sacrifícios em nome da continuidade romana.
Mas restauração, na prática, é sempre mais cara do que parece. O império do século VI não reconquistava um mundo intacto; reconquistava territórios que haviam mudado, com novas elites, novas lealdades e novas vulnerabilidades.
África vândala: vitória rápida, integração difícil
A campanha contra os vândalos (533–534) foi militarmente notável, e Belisário tornou-se o rosto dessa vitória. Recuperar a África significava recuperar um espaço economicamente valioso, associado a rendas e abastecimento. No curto prazo, foi um triunfo de prestígio.
A reintegração, porém, revelou o padrão recorrente do reinado: vencer é uma etapa; governar o pós-guerra é o problema real. A África exigiu presença militar, reorganização administrativa e enfrentamento de instabilidades internas e de fronteira. A província retornou, mas retornou como território que demandava investimento contínuo.
Itália ostrogoda: a guerra que venceu e devastou
A Guerra Gótica (535–554) foi o conflito que drenou o reinado. Recuperar a Itália tinha valor simbólico extremo, mas o preço foi devastador. O conflito se prolongou, alternou vitórias e recuos, e atingiu cidades e campos de forma repetida. Roma, em particular, sofreu cercos, fome e desorganização estrutural.
A vitória final, consolidada sob Narses, devolveu a península ao império, mas a Itália estava empobrecida e difícil de administrar. O mapa voltou a parecer romano, mas a Itália já não era uma base sólida. Ela exigia guarnições, reconstrução lenta e reativação fiscal em um contexto social frágil. Essa é uma das ironias mais duras do projeto: a Itália foi reconquistada, mas o tipo de guerra necessário para reconquistá-la reduziu sua capacidade de sustentar o domínio imperial no longo prazo.
Hispânia: ganhos limitados, utilidade simbólica
A presença imperial em partes do sul da Hispânia foi mais modesta, mas reforçava a narrativa de retorno romano ao Ocidente. Na prática, eram enclaves difíceis de manter, dependentes de circunstâncias locais e sem equivaler ao peso da África ou da Itália.
O Oriente não parava: Pérsia e a matemática de governar em duas frentes
Enquanto o Ocidente absorvia recursos e atenção, a fronteira oriental permanecia como desafio estratégico contínuo. A rivalidade com o Império Sassânida exigia campanhas, fortificações e diplomacia. Justiniano, em momentos, buscou tréguas custosas para liberar fôlego à restauração ocidental. Em outros, enfrentou guerra aberta.
Isso mostra que o reinado foi um exercício de cálculo permanente. Cada passo no Ocidente criava risco no Oriente; cada necessidade do Oriente limitava a ambição no Ocidente. O império não possuía recursos infinitos. E, quando choques inesperados surgiram — como a peste — a margem de manobra diminuiu drasticamente.
Pós-conquista: a restauração que virou administração
As reconquistas são frequentemente celebradas como clímax. No século VI, o clímax real foi administrar o que se reconquistou. A África, apesar do potencial econômico, exigiu controle de fronteira, disciplina militar e recomposição administrativa. A Itália, devastada pela guerra, exigiu reconstrução lenta e presença armada custosa. Em ambos os casos, aparece o paradoxo justinianeu: a restauração aumenta prestígio e território, mas multiplica responsabilidades e custos.
Esse paradoxo empurra o reinado para o limite. Justiniano construiu um império maior, mas cada parte reconquistada adicionou despesas permanentes em um sistema já pressionado por guerras simultâneas.
Fiscalidade e burocracia: o preço do projeto total
Se Justiniano pôde guerrear, construir e legislar, foi porque a máquina fiscal do Império Romano do Oriente era robusta. Mas robustez não significa ausência de tensão. A arrecadação dependia da produção agrária, de rotas funcionais, de cooperação (ou coerção) de elites locais e de estabilidade mínima.
Figuras como João, o Capadócio, aparecem como símbolo do rigor fiscal, em relatos muitas vezes hostis. Mesmo descontando exageros, a lógica estrutural é inequívoca: o reinado exigia muito dinheiro. Exércitos, soldo, navios, fortalezas, obras públicas e diplomacia custavam caro. A capital, por sua vez, exigia abastecimento e manutenção de um regime de legitimidade urbana que, como 532 mostrara, podia explodir.
A pressão fiscal não foi detalhe; foi fundamento. E, como todo fundamento, ela podia sustentar grandeza ou gerar desgaste social profundo, alimentando ressentimentos e fragilizando a cooperação local em províncias.
A peste do século VI: o choque que reduz a margem de manobra
A chamada peste de Justiniano, iniciada em 541/542, atingiu o império em ondas ao longo de décadas. As fontes descrevem mortalidade intensa e paralisia social. O ponto mais sério, em texto de divulgação responsável, é evitar números fechados fáceis: a documentação não permite percentuais universais seguros. O que ela permite afirmar é a severidade do choque e sua recorrência.
A consequência estrutural foi a redução da base humana e produtiva que sustentava arrecadação e recrutamento. Um império que já operava sob alta pressão fiscal e militar perdeu parte da capacidade de manter o próprio esforço de guerra e administração. A peste não explica sozinha as dificuldades do império, mas empurrou o projeto de Justiniano para um cenário mais estreito, em que cada campanha e cada guarnição se tornavam ainda mais pesadas.
Religião e unidade: Calcedônia, dissidências e o dilema imperial
Justinianо acreditava que unidade religiosa era unidade política. Por isso, tentou conciliar facções e, quando julgou necessário, impor ortodoxia. O problema é que o império do século VI carregava fissuras profundas desde Calcedônia (451), com regiões inteiras associadas a tradições cristológicas divergentes, especialmente no Oriente.
A controvérsia dos Três Capítulos mostra a armadilha: qualquer gesto conciliador parecia traição a um lado; qualquer gesto rígido parecia opressão a outro. Teodora, em muitas leituras, aparece como contrapeso interno, protegendo redes dissidentes e impedindo que a política religiosa se tornasse ainda mais explosiva. O resultado histórico foi uma unidade sempre incompleta. O império podia legislar e punir, mas não conseguia apagar identidades regionais e eclesiásticas sem custo político alto.
O final do reinado e a morte em 565: o mapa brilhou, a máquina cansou
Justinianо morreu em 565 deixando um império territorialmente impressionante e culturalmente marcado por sua obra. A África e a Itália estavam de volta ao domínio de Constantinopla, a capital tinha sido monumentalizada, e o direito romano fora reorganizado sob seu nome.
Mas o preço era visível. Guerras longas, pressão fiscal, tensões religiosas e a peste reduziram a capacidade de sustentar conquistas e responder a novos choques. O império que Justiniano entregou aos sucessores era maior no mapa e mais pesado na administração. A grande pergunta do pós-565 não era mais “o que conquistar”, mas “o que é sustentável”.
Conclusão
Justinianо I foi o governante que mais seriamente tentou devolver ao século VI uma romanidade universal: pela reconquista, pela lei, pela monumentalidade e pela unidade religiosa. Ele transformou Constantinopla em vitrine de um império cristão e legislador, e deixou ao mundo uma obra jurídica que sobreviveria ao próprio império territorial.
Ao mesmo tempo, seu reinado evidencia os limites do possível. A restauração custou caro, a unidade religiosa mostrou-se inalcançável sem fissuras, e a crise biológica da peste reduziu a base humana e fiscal que sustentava o Estado. Justiniano alcançou grandeza e, simultaneamente, mostrou a fragilidade estrutural de um império que pretendia governar o Mediterrâneo num mundo já transformado.
Se “romano” significa universalidade política, direito e continuidade institucional, Justiniano foi um ápice tardio de Roma. Se “romano” significa estabilidade mediterrânica e domínio incontestado, ele foi uma tentativa monumental em um cenário que já não permitia retornos simples. E é justamente por reunir apogeu e crise, lei e guerra, pedra e peste, que Justiniano permanece indispensável para compreender a passagem da Antiguidade para a Idade Média no mundo mediterrânico.
Fontes
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