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O PAPA ORDENOU MATAR OS GATOS PRETOS NA IDADE MÉDIA?

Atualizado: 6 de abr. de 2023


Afresco do Papa Gregório IX aprovando os Decretos (imagem editada) Afresco de Raffaello Sanzio (domínio público)
Afresco do Papa Gregório IX aprovando os Decretos (imagem editada) Afresco de Raffaello Sanzio (domínio público)


Quando o tema é Peste Negra, ou ainda Sexta-Feira 13, assim como eu, você já deve ter visto na internet algo sobre: "O Papa ordenou a caça e morte de Gatos Pretos", "A Peste Negra ocorreu porque a Igreja matou os Gatos", "A Igreja criou a Bula Vox in Rama como aprovação do extermínio em massa dos bichanos" e por aí vai.


E como a internet é uma terra vasta, existem inúmeras retrospectivas históricas da maneira como os gatos pretos eram vistos pela sociedade, mas o que me chamou atenção para trazer esse assunto hoje, foi uma certa publicação de uma página do Instagram que dizia o seguinte:


“Em 1232, o papa Gregório IX levou o besteirol ao extremo, ao incluir os gatos (especialmente os pretos) na lista dos seres hereges, condenando muitos deles a queimar na fogueira da Santa Inquisição. Foi o auge da perseguição a esses animais, que durou séculos.
A loucura coletiva propagada pela Inquisição custou caro: a redução da população felina foi um dos fatores que ajudaram na proliferação dos roedores e, indiretamente, na disseminação da peste negra pela Europa.”

Lindo texto né? Pois bem, é aí que muitos leigos acabam caindo na "Fake News". Bom, vamos lá explanar o tema e trazer as informações que realmente faltaram, e tambem trazer a verdade que o Papa (ou Igreja) nunca ordenou a matança de gatos, assim como tambem a bula Papal Vox in Rama.


A bula Vox in Rama (Uma voz em Ramah), foi escrita no começo da década de 1230 por Gregório IX. A bula foi escrita para combater um certo tipo de culto ao demônio (alguns dizem que o culto era chamado Luciferianismo, mas não se sabe ao certo) que supostamente ocorria em uma cidade alemã; o Inquisidor que possivelmente foi Konrad von Marburg, havia feito um relato ao Papa, que decidiu escrever o documento; nele, Gregório descreve os rituais desse suposto culto, e que incluíam um gato preto.


Basicamente, é isso. O texto da bula não contém nenhuma ordem de matança de gatos, nenhuma inclusão de “gatos (especialmente os pretos) na lista dos seres hereges”, era dirigido ao povo de uma cidade específica e foi publicado mais de um século antes do primeiro surto de peste negra ocorrido na Europa.


O pior é que toda essa informação que desmonta a lenda nem é tão difícil de encontrar. Basta buscar no Google “Gregório IX e Gato Preto" você verá inúmeras postagens e até vídeos de youtuber's (que parecem mais consultor de história) reafirmando a lenda, colocando até frases modernas em "supostos" escritos de Gregório IX que ele nunca escreveu e fazendo afirmações genéricas sem fonte alguma.


Um artigo de Alex Johnson escritos do Museum Hack; lembra que a peste veio de lugares onde o Papa não mandava absolutamente nada, e que a bactéria causadora da peste vive em pulgas cujos hospedeiros nem de longe se limitam aos ratos, lembre-se pulgas podem ser encontrados em cachorros e outros animais, isso não é um fator do século XXI, na idade média as pulgas tambem usavam cachorros e outros animais como hospedeiro.


Há tambem um texto de um ateu brilhante, Tim O’Neill, membro do History for Atheists, ele trata das “reações religiosas” à peste de forma mais ampla, mas dedica muito espaço à lenda criada em cima de Gregório IX; O’Neill usa, inclusive, a iconografia da época para mostrar que os gatos tinham um status bem favorável entre os cristãos medievais.


Agora por que a "fake news" sobre isso ainda perdura? Bom, as vezes a pessoa leu ou ouviu a história e, como pareceu verossímil (ou como eu diria, possui um inimigo em comum), nem procura checar; e assim conclui que a versão é melhor que o fato; e assim a "fake history" vai se espalhando e conquistando as mídias.

 

Fonte - Engles, Donald W. (2001). "Appendix III: Pope Gregory and the Vox in Rama"




Alexandre Zabot, Daniel Marques e Luan Galani, Bíblia e Natureza: os dois livros de Deus – reflexões sobre ciência e fé

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