O Papa ordenou matar os gatos pretos na idade média?
- História Medieval
- 22 de mar. de 2022
- 4 min de leitura
Atualizado: 13 de fev.

Quando o tema é Peste Negra — ou mesmo datas envoltas em superstição, como a sexta-feira 13 — é quase inevitável deparar-se, sobretudo na internet, com afirmações categóricas como:
“O papa ordenou a caça e morte de gatos pretos”
“A Peste Negra aconteceu porque a Igreja matou os gatos”
“A bula papal Vox in Rama autorizou o extermínio dos felinos”
Essas frases circulam com enorme facilidade, repetidas em vídeos, textos de divulgação rasa e publicações em redes sociais. À primeira vista, parecem coerentes, moralmente indignantes e, portanto, convincentes. No entanto, quando confrontadas com a documentação histórica, revelam-se exemplos clássicos de anacronismo, simplificação grosseira e desinformação histórica.
Foi justamente uma publicação recente em uma página do Instagram que motivou esta análise. O texto afirmava:
“Em 1232, o papa Gregório IX levou o besteirol ao extremo, ao incluir os gatos (especialmente os pretos) na lista dos seres hereges, condenando muitos deles à fogueira da Santa Inquisição. Foi o auge da perseguição a esses animais, que durou séculos. A loucura coletiva propagada pela Inquisição custou caro: a redução da população felina foi um dos fatores que ajudaram na proliferação dos roedores e, indiretamente, na disseminação da Peste Negra pela Europa.”
É, de fato, um texto sedutor: curto, indignado, com vilões bem definidos e uma explicação simples para um fenômeno histórico complexo. Justamente por isso, é falso.
A bula Vox in Rama: o que ela realmente foi
A chamada bula papal Vox in Rama (“Uma voz em Ramá”) foi emitida pelo papa Gregório IX por volta de 1232–1233. O documento não surgiu de forma arbitrária nem como uma condenação genérica de animais. Ele foi redigido a partir de relatos enviados ao papado por autoridades eclesiásticas da Alemanha, especialmente ligados ao inquisidor Konrad von Marburg.
O objetivo da bula era denunciar e combater um suposto culto herético, descrito como envolvendo rituais demoníacos. Em uma dessas descrições — claramente carregada de linguagem simbólica e retórica — aparece a figura de um gato preto como elemento do ritual alegado.
E aqui está o ponto central, frequentemente omitido:
Em nenhum momento o texto ordena a matança de gatos,
Em nenhum momento declara gatos hereges,
Em nenhum momento autoriza perseguições a animais,
Em nenhum momento institui qualquer política de extermínio felino.
A bula é dirigida a uma região específica, em um contexto local, e reflete a retórica típica de documentos anti-heréticos do século XIII, repletos de imagens simbólicas destinadas a chocar e convencer — não a legislar sobre animais domésticos.
Além disso, a Vox in Rama foi escrita mais de cem anos antes do primeiro grande surto da Peste Negra na Europa, ocorrido em 1347–1351. Qualquer tentativa de estabelecer uma relação causal direta entre o documento e a pandemia é, portanto, cronologicamente impossível.
A Peste Negra e sua origem: o que a ciência demonstrou
Hoje, graças à arqueogenética, à biologia molecular e à análise de DNA antigo, sabemos que a Peste Negra foi causada pela bactéria Yersinia pestis. Estudos recentes indicam que ela teve origem próximo ao lago Issyk-Kul, no Quirguistão, espalhando-se ao longo das rotas.
A doença atingiu portos do Mar Negro, como Caffa, e daí espalhou-se pela Europa através do comércio marítimo — independentemente de decisões papais, práticas religiosas ou perseguições locais a animais.
Além disso, a própria epidemiologia moderna desmonta outro ponto recorrente do mito: a ideia de que a peste se espalhou exclusivamente por ratos. Na realidade:
A Yersinia pestis é transmitida por pulgas,
Essas pulgas podem parasitar vários animais, não apenas ratos,
Cães, porcos e até humanos podiam servir de hospedeiros intermediários,
Surtos ocorreram em regiões onde a presença felina era comum e não perseguida.
Ou seja: mesmo que houvesse ocorrido um extermínio de gatos (o que não ocorreu), isso não explicaria a pandemia.
Os gatos na iconografia e na vida medieval cristã
Outro aspecto frequentemente ignorado por quem difunde essa lenda é a iconografia medieval. Manuscritos iluminados, marginais, vitrais e esculturas mostram gatos:
Convivendo em ambientes domésticos,
Associados à vida cotidiana,
Retratados em contextos neutros ou até positivos.
Não há evidência de uma perseguição sistemática e prolongada aos gatos na cristandade medieval. Pelo contrário: em muitos contextos, os gatos eram valorizados exatamente por sua utilidade no controle de roedores.
O historiador Tim O’Neill, do projeto History for Atheists, dedica ampla análise a esse tema, demonstrando como a narrativa moderna sobre “a Igreja e os gatos” é um produto do anticlericalismo dos séculos XVIII e XIX, projetado retroativamente sobre a Idade Média.
Por que essa “fake history” ainda persiste?
A persistência desse mito revela mais sobre o presente do que sobre o passado. Ele sobrevive porque:
Oferece uma explicação simples para um evento complexo;
Cria um vilão claro e moralmente condenável;
Reforça narrativas ideológicas pré-existentes;
Raramente é confrontado com leitura de fontes primárias ou estudos acadêmicos.
Muitas pessoas repetem a história não porque a tenham investigado, mas porque ela parece plausível e confirma expectativas. Como resultado, a versão falsa passa a circular mais do que o fato histórico.
É assim que a fake history se espalha: não pela força das evidências, mas pela conveniência da narrativa.
Conclusão
A Peste Negra não foi causada pela Igreja,
não foi causada pela matança de gatos,
não foi autorizada por bula papal alguma.
Ela foi o resultado de processos biológicos, ecológicos e comerciais complexos, compreendidos hoje com muito mais clareza do que no passado. O verdadeiro desafio não está em demonizar a Idade Média, mas em compreendê-la com rigor histórico, evitando projeções modernas e julgamentos simplistas. A História não precisa de vilões caricatos. Ela exige método, fontes e honestidade intelectual.
Fontes
ENGLES, Donald W. Appendix III: Pope Gregory and the Vox in Rama.
O’NEILL, Tim. Did the Catholic Church kill cats and cause the Black Death? History for Atheists, 2018. Disponível em: https://historyforatheists.com
. Acesso em: 12 fev. 2026.
JOHNSON, Alex. Did Pope Gregory IX order a medieval purge of black cats that caused the Black Death? Museum Hack, [s.d.]. Disponível em: https://museumhack.com
. Acesso em: 12 fev. 2026.
ZABOT, Alexandre; MARQUES, Daniel; GALANI, Luan. Bíblia e natureza: os dois livros de Deus – reflexões sobre ciência e fé.
