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RESENHA DO CAPÍTULO: HELOÍSA, ISOLDA E OUTRAS DAMAS DO SÉCULO XII, DE GEORGES DUBY

Obra: "The Penitent Magdalen", 1640 - Georges de La Tour .



Em “Maria Madalena”, a mesma que repousa ao lado do apóstolo Tiago e da santa Fé em um dos santuários pertencentes ao uso dos peregrinos de Santiago da Compostela, em Vézelay, Georges Duby inicialmente levanta uma proposta fundamental, que baseará toda sua análise a seguir, a qual: “[...] No século XII, Maria Madalena está viva, presente. Tanto quanto Alienor. E, da mesma forma que sobre o corpo desta, sobre seu corpo imaginado se projetam os temores e os desejos dos homens.” (DUBY, 2013, p. 30).


Mencionada dezoito vezes no relato evangélico e sendo a primeira testemunha da Ressurreição de Jesus, portanto, “o apóstolo dos apóstolos”, Madalena pode ser confundida com outras duas mulheres que também são citadas, uma delas anônima e prostituta, que banha os pés de Cristo com suas lágrimas na Galiléia, e outra na Judéia, na casa de Simão, que acaba por derramar perfume sobre a cabeça de Cristo, demonstrando assim uma semelhança comum entre ambas: a adoração amorosa perante seu mestre. Posto que com a ida de missionários do Mediterrâneo Oriental ao Ocidente, datados do século VIII, a devoção pela santa começa a se espalhar pela Europa, e é nos grandes mosteiros francos no final do século X que se torna fecunda as inovações litúrgicas através dos monges, demonstrando com estas a imagem que estes homens possuiam de uma figura feminina. Vale também recordar que assim como no “sermão para venerar Maria Madalena”, a mulher descrita também possui atributos advindos de uma aristocracia mais alta, como a das viúvas que sustentavam as instituições monásticas e que esses homens tinham recente contato. No entanto, neste mesmo escrito, há outras características dirigidas à Madalena, tais como a fraqueza, timidez e o amor, “ardor fevoríssimo do amor” em que a mesma não chora de remorso, mas de desejo insatisfeito.


Já no século XI, com a instituição de comunidades de cônegos pelos reformadores colocadas sobre o signo de Madelena, inicia-se o rumor sobre o seu corpo estar repousado em Vézelay, região próxima, fazendo com que numerosas aparições e milagres sejam descritas bruscamente - à exemplo do novo abade Geoffroi - , na mesma época em que a Igreja volta-se para os textos do Novo Testamento e também aos personagens dos Atos dos Apóstolos, fazendo com que fosse criado a força para a cristandade latina os restos de santos que ali poderiam repousar, como à exemplo das relíquias de Maria Madalena e de seu irmão, Lázaro.


Para sustentar esses ocorridos, fora escolhido três complementos lendários: o de Maria, a Egípcia - que busca redenção de suas faltas no deserto - ; de Madalena que viajou ao lado de Maximiliano na região de Aix; e por fim, furto de seu corpo por um religiosos séculos antes na Provença. A partir do século XII, escritos como algumas cartas e sermões de Geoffroi de Vendôme, abade da Trindade de Vendôme, são citados pelo autor como referência de como Maria Madalena torna-se, diferentemente de rica e dominada por sua paixão, habitada pelos sete demônios, e perdoada não mais pelo amor, mas sim por conta de seu temor e esperança, “[...] lançando fúria sobre seu próprio corpo, castigando-o com jejuns, vigílias, prestes ininterruptas [...].” (DUBY, 2013, p.43) Dessa forma, “[...] Maria de Magdala, para tornar-se a esperança dos pecadores [...] precisou destruir totalmente, consumida em penitências, a parte feminina do seu ser.” [...] (DUBY, 2013, p.43), demonstrando uma imagem de Madalena alterada pela reforma entre 1075 e 1125, em que com as ascensão das cidades e a prostituição florescendo, era necessário ocupar as almas destas mulheres, admitindo-as em seus círculos em posição dominante em relação aos monges, a fim de alcançarem o amor de Cristo e imitassem os gestos de Madalena, vivendo penitentes e afastadas de qualquer entrelaço mundano. “[...] Nem virgem, nem esposa, nem viúva, Madalena permanecia a própria marginalidade [...] O motivo da exortação jaz, com efeito, de uma misoginia fundamental. A Madalena, nessas homilias, é no fundo antimulher. [...]” (DUBY, 2013, p. 49)



Obra: "Prayer", 1859 - John Phillip RA



Tendo seu relato conservado através de sua última confissão por um religioso de Floreffe, Ivette ou, “Juette”, não possuiu uma vida muito diferente das mulheres nobres de seu tempo até o casamento. Levada ao seu primeiro esposo com apenas 13 anos, “[...] durante cinco anos, tivera de suportar o “jugo” conjugal, pagar a dívida com desgosto, carregar o fardo das gravidezes e das dores do parto. [...]” (DUBY, 2013, p. 90). Depois da morte do mesmo, sentindo-se libertada, renegou as ordens de seus pais e da Igreja para se dedicar ao único homem que desejava: Cristo. Era impossível lhe negarem esse pedido. No entanto, sendo perseguida por possíveis pretendentes ou tendo seus bens confiscados por seu próprio pai, “[...] Juette foi então invadida pelo sentimento de estar manchada inexoravelmente. [...] Como escapar enfim de todos os homens que a maltratavam? [...] Após cinco anos de viuvez, ela decidiu retirar-se do mundo.” (DUBY, 2013, p. 91).


Ao encontrar novos instrumentos de remissão coletiva, a mesma se instala, depois de dez anos em um leprosário, em uma casa anexa à sua capela, e por 27 anos dali nunca saiu, tendo como única companhia uma criada e a Virgem Maria, da qual possuía um vínculo indescritível, [...] uma espantosa intermediária entre o visível e o invisível. Nesse dom se baseava seu poder. [...]” (DUBY, 2013, p. 95). Reunindo em sua volta uma grande quantidade de mulheres como uma comunidade de auto defesa, educando-as desde a infância contra os males do casamento e daqueles homens condenados e incorrigíveis, Juette acabou se tornando um obstáculo para o clero urbano, que essencialmente masculino, não permitiria a ascensão feminina como ameaça à ordem vigente. Assim, após sua morte, “[...] a visionária foi esquecida. O poder, a verdade, permaneceu em mãos masculinas.” (DUBY, 2013, p. 99)




Obra: "The End of The Song", 1902 - Edmund Leighton



Em “Isolda”, Georges inicialmente atenta o leitor à importância desta literatura para o contexto do século XII através de dois principais fatores: a orientação familiar das dinastias aristocráticas, que além do fortalecimento político, procuravam a domesticação da cavalaria e sua conservação; e, o empenho da Igreja em cristianizar a nobreza, fazendo com que a mesma aderisse a sua própria concepção de casamento, ao mesmo tempo que impunha ordens ainda mais rígidas para o clero. No entanto, há uma contradição entre esses dois aspectos, fazendo com que fosse urgente “[...] conjurar esse perigo elaborando um código de comportamento que regulasse da melhor maneira as relações entre o masculino e o feminino” (DUBY, 2013, p. 76).


Através disto, esta literatura cavaleiresca que de início tinha como função o divertimento da corte, também começa a se tornar um estímulo para aqueles que buscavam inspiração nas condutas dos personagens, especialmente àqueles “[...] homens de guerra que, em sua tenra infância, haviam sido brutalmente arrancados de sua mãe, do universo das mulheres [...] para quem o feminino se tornara [...] um território de nostalgia e de estranheza [...]” (DUBY, 2013, p. 79), fazendo com que personagens como Isolda, de o “romance de Tristão”, através de um lovedrink, se tornasse uma figura de destaque por tanto tempo, imaginada perante diversos olhares. A todos da época, ela se tornou um exemplo de feminidade, como rainha e mulher, possuindo uma beleza rude, “[...] feita para dar ao seu marido reis futuros muito valentes, muito fogosos [...]” (DUBY, 2013, p. 83).


Contudo, agradava também por ser adúltera, se tornando ora objeto de desejo para àqueles novos Lancelots, ora denunciando o suposto perigo nascente das mulheres, “[...] do qual todas as filhas de Eva, inevitavelmente, são portadoras, a parte maldita da feminilidade [...]”. Para além, ressalta-se também estudos como o de Béroul e de Thomas à questão da responsabilidade, pois sendo fruto de uma poção, aqueles enamorados não deveriam ser culpabilizados pelos seus atos, podendo-os transformar até em uma “nova religião”, a do amor, pois mesmo distante Tristão submete-se a adoração de Isolda através de uma estátua que continha ferro por cima de suas vestes, demonstrando não só o domínio do desejo carnal, como o ultrapassamento de si.




Obra: "Abelard and his Pupil Heloise", 1882 - Edmund Blair Leighton


Tocando através de sua suposta “loucura” pensadores como Rousseau, Diderot e Voltaire, “Heloísa”, pertencente ao círculo da alta aristocracia da Île-de-France e priora da abadia de mulheres de Argenteuil em 1129, torna-se perante aos escritos uma figura controversa, ora modelo e consolação para as nobres mulheres que “optavam” pelo convento ao final da vida, ora rebelde com suas atitudes anti matrimoniais, por vezes propensa aos prazeres da carne. Como objeto de sua análise, são dispostas 42 questões que Heloísa submete a Abelardo, fundador de um eremitério sob a vocação do Paráclito; uma carta do abade de Cluny, Pierre, o Venerável, escrita em 1142 endereçada a Heloísa; duas cartas endereçadas a Abelardo, sendo uma de Fouques, prior da abadia de Deuil, e outra de Roscelin, quem outrora foi mestre do endereçado; e, por fim, uma coletânea de Correspondência entre Heloísa e Abelardo, que tende a não haver comprovação de veracidade completa, valendo-se de algumas considerações.


O assunto de todos estes escritos citados baseia-se fundamentalmente, com base na análise do autor, na relação amorosa entre Heloísa, que “[...] desde sua juventude espantava o mundo; [...] só pensava nos estudos; e desenvolveu-os de tal forma que, [...] ela, uma mulher, consegue, ó prodígio “ultrapassar todos os homens”. [...]” (DUBY, 2013, p. 53) e Abelardo (sábio reputado), que resultando em um filho, ambos fogem para a Bretanha e casam-se em segredo, sem o consentimento da mesma, que após é encerrada em um convento em Argenteuil, com o objetivo de que voltasse à Paris sem resquícios de maternidade ou casamento. Sentindo-se traídos, os parentes de Heloísa castram Abelardo, que tornando-se monge, a obriga também a se tornar freira.


No entanto, é a partir deste momento que a mesma dispõe da autoridade que tinha sobre si à serviço de todo sentimento que possuí por ele, tornando-se serva mas não de Cristo, e sim de seu amado, obedecendo-o ficando ali a fim de encontrá-lo no Juízo Final. Assim, questiona-se Duby o objetivo desta abnegação tão expressa presente nesta mulher e de que forma esses textos poderiam suprir um objetivo religioso maior, tanto com relação ao renascimento humanista daquele período, quanto a apologia da conjugalidade e as fraquezas da feminidade, respondendo para além outra questão que dividia os homens da oração: o monaquismo feminino. Decerto, “[...] não é ela - a obra – um conjunto sobre a superioridade funcional do homem; discurso cujos argumentos mais veementes são habilmente colocados na boca de uma mulher? [...]” (DUBY, 2013, p.68) revelando assim mais do que o papel feminino nas relações da elite parisiense, mas sua necessária subordinação para que as mesmas ocorressem com as bençãos dos Céus.



Manuscrito datado do século XIII, Cliges e Fenice, e Tristan e Isolde de Chrétien de Troyes, por volta de 1140 - 1190



No último tópico deste capítulo “Dorée D’Amour e a Fênix”, o leitor é apresentado à literatura esportiva de Chrétien de Troyes, denominada Cligès (1776), na qual o tema principal, apesar da minuciosa descrição dos feitos das armas, é o amor. Amor esse que, como contraposição ao “romance de Tristão” por meio de Phénice e Cligés, demonstra o domínio por Phénice do próprio desejo a fim de se seguir as regras pré-estabelecidas, diferentemente do que fez Isolda. A mesma (filha do Imperador do Ocidente), ao ver-se apaixonada pelo sobrinho de seu pretendente (Alis, herdeiro do Oriente), busca ajuda de sua ama de leite Thessala, ora para conseguir enganá-lo em sua noite de núpcias, ora para lhe atribuir a aparência de moribunda, resistindo aos médicos e dando-se como morta. “[...] Entra no sepulcro e sai, renascendo como verdadeira fênix de suas supostas cinzas. [...] Alis morre por fim. Seguem-se imediatamente as núpcias que coroam o perfeito amor.” (DUBY, 2013, p. 102). Ademais, segue um trecho de sua fala destacada por Duby: “Se eu te amo e tu me amas/jamais te chamarão Tristão/ e não serei jamais Isolda.” (DUBY, 2013, p. 103). Exaltando claramente o valor do casamento, Chrétien também retrata o amor nascente de Alexandre (pai de Cligès) e Dorée d’Amour, que ainda adolescentes, acabam por se juntar pelas palavras da rainha da Bretanha, que segundo Georges, os releva “dos dois corações eles fizeram apenas um”. (DUBY, 2013, p. 105).


Dessa maneira, através de personagens como a própria rainha, Dorée d’Amour, Thessala e Phénice, é necessário também ressaltar suas iniciativas e impactos no romance, as quais levam o próprio autor a revelar “[...] Por muito tempo combati, e duramente, a hipótese de uma promoção da mulher na época feudal, [...] Diante da imagem destas, eu cedo. É incontestável que tanto uma quanto outras não são esses seres menores, privados da razão [...]” (DUBY, 2013, p. 107). Assim, é importante ressaltar as mudanças que estavam ocorrendo na alta aristocracia francesa, que por intermédio dos literatos e da decolagem da economia mercantil, começava a elaborar formas cultas de relacionamento entre os sexos, que exigiam dos homens mais cortesia e domínio de si. Para além, com a flexibilização econômica, os divertimentos amorosos tendiam a não mais ficar à margem da conjugalidade, aderindo à rituais de amor corteses, modificam o olhar dirigido à mulher, que ainda longe de ser tratada como uma igual, “[...] merecem ao menos ser tratadas por eles, donzelas ou damas, segundo as regras.” [...] (DUBY, 2013, p. 109).




Foto de Richard, o Destemido, como parte da estátua dos Seis Duques da Normandia, na praça da cidade de Falaise.



No capítulo intitulado “A lembrança dos ancestrais”, Duby apresenta algumas breves considerações acerca de Richard I, duque da Normandia, quanto a sua percepção sobre os mortos e relação com o cristianismo, as quais valem a pena serem destacadas. Em primeiro plano, no tópico “Os mortos na casa”, através de Henrique Plantageneta que gostava de ouvir as histórias de heroísmo do trisavô de seu avô, Richard, o leitor depara-se com uma aventura deste cavaleiro um tanto quanto diferente daquelas recorrentes para a nobreza. Uma noite, tendo partido sozinho para uma caça, deparou-se com uma capela, e como era seu hábito, entrou-na para uma breve prece, despreocupado, mesmo ao passar por um caixão aberto, ocupado. No entanto, o mesmo “[…] escutou que aquilo se mexia atrás dele. Por duas vezes gritou: “Volta a deitar-te”, acrescentando: “Estás cheio de diabo”. […] Virando-se para sair, viu o então, erguido à sua frente, o cadáver […]” (DUBY, 2013, p. 116). Abatendo-o com sua espada, Richard saiu de lá impávido, e advertido por esse encontro, ordenou que não mais deixassem os mortos sozinhos à noite antes que fossem sepultados, possivelmente para que encontros como esse não mais ocorressem.


Em “Escrever os mortos”, outro relato sobre este nobre é apresentado, mas agora através de Dudon de Saint-Quentin, testemunha ocular dos últimos momentos deste duque, no ano de 996. Evangelizando os vikings à sua maneira, Richard explicava-os que a composição do ser humano advinha de dois elementos: a carne, e a alma, a qual, no fim dos tempos, “irrigaria a carne” e a “reanimaria”, explicando de certa maneira o motivo dos cristãos, assim como ele, terem cuidado com os seus sepulcros. Quanto ao seu, o mesmo se preocupara a longa data, decidindo que seus restos mortais seriam transportados para o local que recebera seu batismo, um mosteiro dedicado à Trindade, em Fécamp.


Assim, ao adoecer, fora conduzido à este localidade revestindo o costume dos penitentes, descalço e já sem suas vestimentas. Foi assim que seu meio irmão, ao perguntar-lhe onde colocar o sarcófago, recebe a resposta que a todos maravilhou na época: “[…] Richard respondeu que seu corpo muito maculado de pecados era indigno de ser introduzido ao santuário. Ele repousaria à porta, sob a goteira. […]”. Vale lembrar como destaca Duby, que tal gesto era incomum para nobres como ele, os quais em vez disso exigiam sepulturas como as dos reis francos em Saint-Denis, e o mais próximo possível das relíquias dos santos, pelos efeitos da cristianização que vinha ocorrendo desde o século VII, senão antes.


 

Fonte - DUBY, Georges [1919-1996]. As Damas do Século XII; traduzido por Paulo Neves e Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.


Larissa Aparecida Ramos - 2° ano de História do Centro Universitário do Sagrado Coração/Unisagrado-Bauru.

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