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UMA DÉCADA DE PRIMAVERA ÁRABE



Na edição passada (abril 2020) sobre o Islamismo, você conheceu a sua origem, as regras da fé, os conceitos divinos, as denominações e o Islã no mundo. Desta vez, por ocasião dos 10 anos de Primavera Árabe, vamos realizar uma reflexão sobre a experiência desse movimento em diferentes países bem como outros assuntos pertinentes ao Islã. Tais como, o papel das mulheres (combatendo o Estado Islâmico e se colocando no movimento feminista) e a situação dos refugiados. Questões que talvez, em um primeiro momento, possa fugir da efeméride, mas que estão conectadas ao tema Islamismo. Deixamos claro que, em hipótese alguma, mapearemos cada país de forma específica bem como um aprofundamento da religião que apresenta várias denominações e cosmovisão teológica.


Além disso, você verá que muita coisa aconteceu em decorrência dos levantes de 2010 e 2011. As mudanças não vieram como esperado, mas houve e trouxeram impactos significativos nos países que foram palco dessas manifestações, como é o caso da Síria que ainda vive em guerra civil. Mas em outros países, por exemplo, o movimento foi sufocado.



The Spring is continued

Fonte: ResearchGate


Cabe destacar que, para compor este artigo, fizemos uso de fontes da imprensa ocidental e também oriental, como o site Al-Jazeera e Al-Monitor, bem como os dados de algumas ONGs e as informações de organizações internacionais. Além disso, também usamos artigos de geógrafos, especialistas em relações internacionais, cientistas políticos e historiadores. Nesse ínterim, ser historiador, que também testemunha os fatos, permite-nos um intercâmbio com outras áreas do conhecimento. Ademais, temos também os de dentro do mundo árabe/muçulmano que também produz artigos, relatórios e pesquisas sobre esses 10 anos de Primavera Árabe e seus desdobramentos, configurando-se assim como co-atores – no sentido de fazer uma escrita de si.

Talvez cause estranheza um tema tão atual em uma revista que tem a Idade Média como recorte temporal. Justamente isso. Um recorte. O tempo histórico nos serve como referência de tempo, documento e fatos que marcam e, consequentemente, que caracterizam esse tempo. Neste sentido, nós, historiadores do tempo presente, temos as possibilidades dos testemunhos vivos e que podem “vigiar e contestar o pesquisador, afirmando sua vantagem de ter estado presente no momento do desenrolar dos fatos”. Nesse sentido, os atores da Primavera Árabe ou as mulheres nos movimentos feministas seculares (ou não) são esses testemunhos que podem atestar os fatos não só como única fonte de pesquisa mas também como mais uma possibilidade de análise.

Além disso, pertence ao senso comum a ideia tradicional da História que remete ao estudo do que já aconteceu, de um fato consumado e acabado.


Como se necessariamente estudar/pesquisar/analisar um fato histórico fosse obrigatoriamente um arquivamento do evento que se quer tratar. Ou seja, estudar história é sempre em um passado longínquo e não é por aí. Cabe ressaltar que pesquisar ou desenvolver uma pesquisa em história enquanto o fato se desenrola, como é o caso dos temas que serão abordados nesta edição de Islamismo, é poder construir a história junto com os atores sociais que vivenciaram o acontecer do evento e muitos ainda estão vivos e colaboram para a pesquisa histórica e assim com a escrita da História.



Primavera Árabe

É usual em História, o uso do termo Primavera como metáfora à renovação. Nesse sentido, a Primavera Árabe (PA) foi um conjunto de revoltas populares contra os governos autoritários, de tradição muçulmana, que aconteceu em países do Oriente Médio e Norte da África. Tais revoltas foram iniciadas no final de 2010 e início de 2011. A agenda comum dos países envolvidos era o fim de ditaduras longevas e a qualidade de vida. O inicio foi na Tunísia, mas cada país seguiu diferentes rumos com o rescaldo das manifestações.


É importante destacar que nem todo árabe é muçulmano, mas neste artigo iremos tratar da referida etnia com tradição nos dogmas do Islã.



O começo


No dia 17 de dezembro de 2010, um jovem ateia fogo em si mesmo em Túnis (capital da Tunísia). Seu nome era Mohamed Bouazizi. Tal gesto chamou a atenção da imprensa e foi o estopim para a onda de protestos em um país com um governo autocrático que reprimia qualquer tipo de oposição. Nas manifestações, havia o clamor por regime democrático, liberdade de expressão e solução para o desemprego entre os jovens.


Naquele momento, havia uma sucessão de afirmações sobre o perfil dos manifestantes: jovens bem formados, inconformados com o desemprego em seu respectivo país e sem liberdade política. Outro agravante foi também o poder das mídias sociais que permitiu ao mundo saber o que estava acontecendo em tempo real. Por décadas, sob regime autoritário, vários países do mundo árabe coibiram manifestações com a finalidade de manutenção da estabilidade política, num formato de governo que subtrai qualquer tipo de voz que se levantasse contra.




The Spring is continued

Fonte: The Guardian



Tunísia


O primeiro país a inaugurar uma onda de protestos liderados por jovens e o governo de Zineel Abidine Ben Ali foi derrubado. Governando o país desde 1987, exilou-se na Arábia Saudita e faleceu em 19 de setembro de 2019.


Segundo portal de notícias G1, durante seu mandato, Ben Ali reprimiu qualquer tentativa de oposição e permitiu abertura econômica com privatizações e acordos com o Fundo Monetário Internacional enquanto o país era marcado por corrupção e desigualdade. Além disso, a retórica do governo girava entorno do combate ao radicalismo islâmico.



Jordânia


Na Jordânia, o rei Abdullah II herdou o trono de seu pai em 1999. Sua forma de governo era delimitada pelo Parlamento. Mesmo com os moldes de uma monarquia constitucional, jovens ativistas de esquerda e grupos islâmicos deram início a uma onda de protestos em março de 2011. O intuito era derrubar a monarquia e conseguir melhoria de vida para a população. Também pediam eleições gerais e fim do nepotismo e da corrupção. O rei, percebendo a força dos manifestantes, deu início a algumas reformas. Uma delas foi a nomeação de um novo primeiro-ministro, Maaruf Bahkit, militar muito popular no país, com a intenção de reequilibrar o cenário político. A monarquia na Jordânia ainda se mantém de pé, mas ainda há pressões para o seu fim, segundo o recente artigo do The Guardian.



Egito


No mês seguinte ao levante popular que começou na Tunísia, foi a vez do Egito. O presidente Husni Mubarak saiu do poder em 11 de fevereiro de 2011, como resultado das manifestações que teve a Praça Tahir como palco. O desdobramento da saída de Husni foi a eleição do civil Muhammad Mursi do partido Fraternidade Muçulmana.



Manifestante em frente a canhões de água durante confrontos no Cairo

Fonte: Al-Jazeera.



As eleições no Egito tiveram importante presença dos partidos muçulmanos, mostrando sua expressiva força política. O Partido Liberdade e Justiça, ligado a Fraternidade Muçulmana, conquistou 37,5 % do eleitorado. Já o Partido Luz, atingiu a marca de 27,8% dos votos válidos. Como desdobramento das eleições parlamentares, venceu o candidato Muhammad Mursi, com 51% dos votos. No entanto, seu mandato durou pouco, apenas 1 ano e um mês (junho de 2012 e julho de 2013).



Resultado das eleições parlamentares no Egito 2011/212

Fonte: Araújo, 2013.



Tempo depois, o então eleito Mursi sofreu um golpe de Estado, conduzido pelo exército egípcio. Em seu lugar, Abdel Fattah Sisi, um general rapidamente reconhecido pelo monarca saudita Abdullah bin Abdulaziz Al Saud. Não muito tempo depois, outras nações reconheceram o general como novo chefe de estado. De acordo com o artigo de Ricard Gonzales, na cerimônia de posse, Sisi contou com a presença de autoridades, como de monarca da Jordânia, do Kuwait e do Bahrein bem como o líder da autoridade Nacional Palestina, Muhamed Abbas.

A derrubada de Mursi foi acompanhada de protestos organizados pela Irmandade Muçulmana. No entanto, esses levantes foram perdendo energia à medida que se intensificava a repressão por parte das forças de Sisi. Membros da Irmandade foram condenados a morte sob a acusação de incitar a violência e ocupação das ruas.


Iêmen


Ali Abdullah Saleh iniciou seu mandato em 1990, unificando o Iêmen do Norte (República árabe do Iêmen) e o Iêmen do Sul (República Democrática do Iêmen). Sua política versava em reprimir separatistas do sul e insurgentes de vertente Xiita. Somando-se a isso, os anos 2000 foram marcados por lutas para conter a pobreza e corrupção.


Tal situação ganhou volume no cenário internacional quando as ruas de Sanaã (capital do país) foram tomadas de manifestantes em março de 2011 e o resultado expressivo foi a queda de Saleh. Inicialmente, houve mediações para uma transição pacífica com eleição de um único candidato, Abd Rabbo Mansur Hadi.


O Iêmen, desde 2014, tem sido palco de uma guerra civil sob o governo eleito após os levantes de março de 2011. Tal conflito ganha uma face internacional, pois está envolvendo outros países por conta da disputa de hegemonia com apoio militar segundo os seus interesses. O Irã (Xiita) apoia os separatistas Huthis; já o presidente interino conta com forças militares da Arábia Saudita (Sunita). Para além disso, a Arábia é apoiada pelos EUA, pelo Irã e pela Rússia.



Bahrein


Os protestos no Bahrein começaram em fevereiro de 2012. A motivação era similar ao que já estava acontecendo nos demais países. Não havia neles nenhum movimento sectário ou uma denominação islâmica específica. Xiitas e sunitas nas ruas juntos por melhor qualidade de vida, mais direitos políticos e restrições ao poder monárquico da família sunita Al-Khalifa.


Os protestos, no país do Golfo Pérsico, não tiveram grande fôlego. O governo acusou a oposição xiita (60% da população) de ser a responsável pelo levante que contou com a morte de um manifestante. Nesse ínterim, o governo prometeu reformas, mas a população se mantinha firme na exigência de liberdade de participação política.


Sem sucesso na contenção dos ânimos, o governo recebeu ajuda militar da Arábia Saudita. Integrantes da oposição foram presos sob a acusação de conspiração contra o governo.



Líbia


Os protestos contra o regime de Gaddafi, interino desde 1969, teve início em 15 de fevereiro de 2011. O país era marcado por grande concentração de renda e corrupção. No mês seguinte, o Conselho de Segurança da ONU autorizou a Organização do Atlântico Norte (OTAN) de intervir militarmente na região. Em seu histórico político, Gaddafi apoiou o movimento da África do Sul contra o Apartheid, mas apoiou conflitos armados em Serra Leoa e também na Libéria.

Inicialmente, em seu mandato, investiu em áreas sociais, como transporte e educação. Na economia, nacionalizou instituições financeiras e passou a controlar reservas petrolíferas. Tais medidas foram vistas como socialistas por autoridades ocidentais e o resultado dessas ações chegaram na década de 1970. A alfabetização ganhou fôlego bem como saldos positivos na economia.


Em contrapartida, Gaddafi não sabia dialogar com as diferentes tribos em seu território. Havia repressão aos berberes e muçulmanos. Além disso, mantinha os privilégios dos membros de sua família durante os anos do seu mandato. Essa diferenciação foi se desgastando com o passar do tempo. A cidade de Bengazi foi palco de intensas manifestações e utilização da força por parte do governo com o uso de armas letais contra manifestantes pacíficos. Neste ínterim, a ONU, no intuito de defender os civis, denunciou Gaddafi de violar os direitos humanos. A partir de então, o país passou a receber restrições, como o uso de armas e viagens.


Para conter a situação, os EUA e o Reino Unido iniciaram o bombardeio contra as forças de Gaddafi e, após 8 meses de conflito, a oposição o capturou e o matou. Com a queda de um governo de longa data, houve um vácuo de poder que está sendo ocupado por tribos e grupos paramilitares. Nem mesmo o Conselho Nacional de Transição (NTC, sigla em inglês) tem sido capaz de apaziguar tais conflitos. As diretrizes da OTAN, ao intervir na região, não contavam com um plano para o país caso Gaddafi fosse derrubado.


A população líbia, após o desmonte do governo de Muammmar Gaddafi, encontra-se insatisfeita, armada e dividida entre os antigos apoiadores e a oposição do antigo governo. Além disso, há milícias armadas dentro do NTC.



Síria


Na Síria, a onda de manifestações teve início em 26 de janeiro de 2011 e em março já havia se configurado em uma guerra civil. A oposição pretendia derrubar o governo de Bashar al-Asad e, em seu lugar, instituir um regime democrático. O presidente, por sua vez, reage com expressiva força militar alegando que grupos estrangeiros estão financiando extremistas com o intuito de acusar instabilidade política no país.


Durante as manifestações em março, a ONU denunciou as violações dos direitos humanos, como tortura e execução sumária. Esse olhar atento de instituições internacionais não tem “apenas” causa humanitária. A Síria ocupa uma região estratégica no cenário geopolítico no que se refere ao Oriente Médio. Além disso, é vista como peça importante na manutenção de conflitos para a estabilidade política da região.



Arab Spring Bowling

Fonte: Cagle.



Toda essa movimentação que aconteceu nos países citados anteriormente foi acompanhada pela imprensa oficial, pelas instituições internacionais e pelas mídias sociais. Foi possível acompanhar, no calor do momento, tudo o que acontecia através das redes sociais de cidadãos comuns em seu respectivo país, bem como quem era apenas um usuário e compartilhava o que estava acontecendo.


Mídias sociais

The new Revolutionary Weapons

Fonte: A Ficha Caiu.



De acordo com Recuero, as mídias sociais possuem poder de informação de forma contínua e com alcance maior de circulação. Mantém as pessoas conectadas com grande possibilidade de conversação e também tem um grande poder de movimentar sem sair do sofá. Assim, em uma só plataforma, é possível o engajamento entorno de uma pauta. Com isso, temos o uso das #hashtegs, a quantidade de compartilhamentos e as visualizações. Ou seja, indivíduos comuns, em uma plataforma digital e sem cartazes, podem, em poucos minutos, participar de alguma mobilização (social ou política) ou mesmo denunciar algo e “gritar” palavras de ordem.

Os jovens do levante da PA surfaram na onda digital. O senso de imediatismo tão presente nas mídias sociais impulsionou o compartilhamento em tempo real de tudo o que acontecia no calor do momento. Neste sentido, um indivíduo que estivesse interessado em saber o que acontecia no Egito, por exemplo, poderia pesquisar no Twitter acomodado em seu sofá. Bastava apenas usar #Egito ou #Egypt (em inglês) e, com 140 caracteres, era possível saber e acompanhar o que estava acontecendo na #praçaTahir e compartilhar no Facebook.


O relatório produzido pelo Programa de Governança e Inovação da Escola de Governo de Dubai, publicado em fevereiro de 2011, analisou, entre outras coisas, o crescimento do uso das redes sociais, como Twitter, YouTube e Facebook, alimentado pelos movimentos civis que culminaram com a PA. O Programa também se dedica a entender o alcance dos aplicativos das mídias sociais e da interação entre indivíduos e órgão do governo. Além disso, os países árabes tiveram um crescimento do número de usuários das redes sociais. Os gráficos a seguir trazem um pouco dessa reflexão.


Growth Rate of Facebook Users Duringthe 2011 Protests, as Compared to a Similar Time Period in 2010

Fonte: ResearchGate.





O gráfico mostra um comparativo do crescimento de usuários das mídias sociais em países da PA. A amostragem não permite dizer o conteúdo, mas podemos observar no comparativo da mesma época, no entanto em anos diferentes, um aumento dos usos dessas mídias que coincidem com os levantes civis da PA.


Gráfico 2 –

Where did you get your news/information on the events during the civil movements?

Fonte: ResearchGate



No gráfico acima, observamos que os cidadãos do Egito e da Tunísia, apenas como exemplo desse processo de engajamento nas redes, tiveram como fonte as mídias sociais. Os dois países ficaram bem próximos em relação a outras formas de se manterem informados. No entanto, o uso das redes sociais e seu imediatismo e a possibilidade de conversação estão como figuras de proa nessa dinâmica de comunicação em tempos de mundo globalizado. O uso das plataformas digitais permitiu que cidadãos árabes compartilhassem o cotidiano das manifestações com o mundo de forma direta e sem o intermédio do governo. Esses indivíduos se tornaram porta-vozes de problemas domésticos com outros países.


O compartilhamento de informações e/ou eventos de forma instantânea é o eco da globalização que mudou a forma de enxergar e fazer política. Porque, seja do seu próprio quintal, seja de outro país, trouxe o protagonismo de novos indivíduos e não mais unicamente tendo órgãos do governo como fonte oficial de informações.


Talvez você, leitor, pergunte-se: existiu algum “blogueiro” ou influenciador digital que tenha catalisado esse processo? Sim, houve. O impulsionador da vida on-line, em tempos de levantes civis, teve como destaque Wael Ghonim, executivo da Google no Catar e fundador da fanpage no Facebook que homenageava Kaled Said, morto pela polícia egípcia. Ghonim usava a referida rede para divulgar o que acontecia na Praça Tahir aos seus 400 mil seguidores. Em sua conta pessoal, até o momento da redação deste artigo, Ghonoim contava com 614.342 mil seguidores em seu perfil pessoal.


Como podemos ver, o que impulsionou a queda dos governos autocráticos não foi apenas a oposição política, pois, pegando o caso egípcio, por exemplo, havia sim uma tolerância a pluralidade partidária, no entanto havia constante ameaça de repressão. Na Tunísia, por exemplo, Ben Ali reprimiu as expressões políticas e tentou manipular os sindicatos.

Neste sentido, o que alavancou e projetou os levantes de 2010 e 2011 foram os usuários e cidadãos das e nas redes sociais com senso de imediatismo, conexão nacional e internacional, permitindo ao mundo acompanhar o desenrolar das manifestações e as reações truculentas das forças do governo.


Muitos desses indivíduos/usuários, repercutindo a modernidade e seu senso de urgência e imediatismo, tão próprios do nosso tempo moderno, são indivíduos cheios de fé. Seja na crença de que é possível mudar os rumos políticos de suas respectivas nações, seja a fé religiosa de seguir os preceitos do livro sagrado, Alcorão. Deste modo, trataremos a seguir como religião e política andam juntas e como a religião pode ser usada como instrumento político.


Religião e política


Na edição passada, você, leitor, viu que o Islã é uma religião monoteísta, com 1,9 bilhões de seguidores, cujos dogmas e conceitos estão amparados no Alcorão (livro sagrado), nos Cinco Pilares do Islã e na Sharia (Lei Islâmica). Mas precisamos clarificar a distinção entre o termo islâmico e muçulmano. Enquanto o primeiro diz respeito à religião em si, o segundo se refere a um fenômeno social. Nesse sentido, islâmico e islã diz respeito a um fenômeno político e religioso.

De acordo com o Islã, para reduzir a distância entre ricos e pobres, a acumulação de riquezas não é bem recebida, mas, para sanar eventuais distanciamentos socioeconômicos, é ofertado aos mais pobres o que aqui no Ocidente entendemos como Estado do bem-estar social.


Neste sentido, seria natural que o Islã como religião seria instrumentalizado com a política já que a jurisprudência da religião apresenta alguns pontos que se referem a questões sociais e que, se houver caso de desordem com os dogmas, haverá sim contestação da ordem vigente.

Ao olharmos para os países da PA aqui mencionados, percebemos que não houve nenhum envolvimento de partido islâmico no início dos levantes, mas sim a autoimolação de um jovem cidadão comum, indignado com a situação econômica de si e de seus pares. No entanto, o vulto político passou a ser mais presente quando olhamos, por exemplo, para o caso egípcio, que se tornou uma força política com a presença de partidos religiosos (Figura 4). Deste modo, fica difícil não falar da religião quando nos referimos às manifestações.


Vamos repercutir, primeiramente, o Egito como exemplo. A Irmandade Muçulmana, desde a sua fundação em 1920, vem se expandindo e conquistando a sociedade egípcia com uma proposta mais pacífica de contestação política. Desde o começo das manifestações, a fraternidade já se colocara ao lado dos jovens na Praça Tahir e também ao lado de outras crenças ali aglutinadas.

No entanto, uma vez conquistado o poder com a liderança de Mohammed Morsi, teve vários embates políticos como, por exemplo, a inserção ou não dos preceitos do Islã na nova Constituição egípcia.


Na Tunísia, quem venceu as eleições foi o partido islâmico moderado, Ennahada (com maioria no parlamento – 90 cadeiras), que ficou na ilegalidade nos anos do governo de Ben Ali e, uma vez conquistado o poder, fez garantias de que o povo tunisiano teria seus direitos assegurados pela nova gestão. Ennahada disputou com o partido secular (Congresso pela República) e obteve 14% dos votos, ou seja, com 30 cadeiras no Parlamento e o partido de esquerda, Ettakatol, com 10% – 21 acentos no Parlamento. Esse percentual de disputas e conquistas nos mostra um Islã que possui uma face de resistência e de embate de longa data. A Irmandade Muçulmana estava na ilegalidade durante os anos de Mubarak; Ennahada foi oprimido durante os anos de Ben Ali.

Nenhum partido está livre de sofrer disputas internas. No caso da Irmandade, enquanto os mais jovens queriam um sistema político mais democrático, a ala mais conservadora não pretendia se envolver com o levante para derrubada de Mubarack, por exemplo. Essa disputa fez surgir o Partido Liberdade e Justiça.


Quem está fora do mundo islâmico aguarda com expectativa um governo que, em sintonia com valores islâmicos, possa de fato ser democrático, pois existe a superioridade dos valores religiosos islâmicos frente a outros grupos da mesma fé ou não. E não podemos esquecer que existe também o movimento com tendência secularista, exemplo do partido Congresso pela República na Tunísia. O grande desafio é abraçar o sistema democrático com o recorte Ocidental: de separação de poderes e partidos políticos que elege periodicamente seus governantes; ressaltamos que para isso é necessário tempo de maturação nos diferentes países, com suas diferentes culturas.

Talvez você, leitor, pergunte-se sobre a religião e a política nos nossos dias, seja no Oriente, seja aqui mesmo no Ocidente (Brasil, para ser mais específico) e como isso se encaixa com a História.

Durante muito tempo, foi comum a ideia de que a história política era vinculada a uma determinada classe privilegiada e que as massas (a coletividade) fossem incapazes de participar das mudanças mais profundas de uma sociedade. O modo de pensar a história política teve seu foco dos grandes monarcas diminuído para pensar os povos e a sociedade para além do Estado. Ou seja, traz os populares como figuras de proa na participação do tecido político e, além disso, um recorte interdisciplinar (como a ciência política) e, nesse sentido, torna-se possível repercutir estudos sobre processos eleitorais, mídias, partidos políticos, passando pelas classes sociais até chegar aos grupos religiosos.


A História, segundo o historiador francês René Remond, não é alheia ao seu tempo: “ainda mais quando se trata de história política: suas variações são resultado tanto das mudanças que afetam o político como das que dizem respeito ao olhar que o historiador dirige ao público. Realidade e percepção interferem”. Desse modo, os eventos políticos (eleições) como desfecho da PA será objeto de análise por sociólogos, cientistas políticos, historiadores e antropólogos, pois os cidadãos islâmicos, sejam tunisianos, sejam egípcios, uma vez se sentindo membros de uma sociedade e integrantes do tecido político, permitem-se participar de manifestações que podem mudar os rumos de seu respectivo país. A história política, repercutindo não somente os grandes nomes mas também outros atores, pode sim pesquisar os grupos religiosos e como estes se arranjam no tabuleiro político nas disputas de interesses. Não esqueçamos que a religião, seja ela qual for, possui seus códigos morais e, em cima deles, podem votar ou vetar novas leis, caso o grupo político tenha poder para tal. E, além disso, a religião pode ser usada também como controle social.


Talvez você se questione como a religião que pensa o além deste plano material se mistura com a política que rege o aqui e agora? Segundo a historiadora francesa Aline Coutrot, há quem defenda o caráter privado da religião. No entanto, o religioso é estruturado pelo político que lhe apresenta questões inevitáveis, que impõe e instiga o fiel a participar dos debates na esteira política. Ainda segundo a autora, na comunidade religiosa que está inserida em uma sociedade secular, o religioso tem grandes e desafiadoras relações com o político já que este é capaz de estruturar o religioso.


(...) tentativa de politizar o discurso religioso envolve uma revisita à tradição, para reforçar o senso de pertencimento e para melhor confrontar a ortodoxia – quer apontando desvios em relação à pureza das origens, quer ressemantizando a atualidade de dissidentes e mártires no interior da tradição, tomando-os como exemplos de antecipação visionária, independência e compromisso.


Sob essa perspectiva, é possível enxergar a disputa da narrativa religiosa no Islã entre xiitas e sunitas em diferentes países da PA bem como as disputas partidárias nas eleições nos países aqui citados. Cabe destacar que há um interesse da “circulação do religioso em busca de eficácia política, que gera condensações em discursos político-religiosos em contextos nacionais” e, nesse sentido, vemos que os cidadãos dos países de tradição islâmica buscam uma eficácia na política e que, se for o caso de um governante estar no poder de forma heterodoxa, haverá sim confrontação e não será apenas um lugar de fala que entrará em disputa mas também a defesa dos pilares da fé. Tal defesa pode ser feita de forma extrema, como é o caso do Estado Islâmico que veremos a seguir.



Estado islâmico


Prezado leitor, as informações que seguem sobre o Estado Islâmico (EI) foram pautadas em artigos escritos no calor da hora (primeiras notícias sobre o EI). Ou seja, as primeiras análises e pesquisas sobre o que é, como agem e a ideologia do grupo. No entanto, no decorrer deste texto, pautaremo-nos em informações mais recentes que serão explicitados nas notas de pé de página.

O Estado islâmico do Iraque e da Síria (ISIS, sigla em inglês) é um grupo militante que segue a doutrina jihadista da vertente sunita e que ganhou notoriedade na imprensa internacional em 2014 quando tomou a cidade de Mossul e pelo massacre de Sinjar – ambos no Iraque.


Minorias religiosas, especialmente yazidis do Iraque, foram alvos do Estado Islâmico.

Fonte: BBC



De acordo com o site Al-Jazeera, quem se recruta ao EI, é oferecida uma visão gloriosa dos tempos idos do Islã e os jovens e mais zelosos da fé se sentem atraídos por essa oferta. O EI apresenta uma narrativa que inspira obediência e sacrifício de seus membros e não deve ser vista como uma rebelião paroquiana, pois o grupo apresenta aspirações de conseguir novos adeptos em outros continentes. O EI se declarou como califado e reivindicou sua autoridade sobre os muçulmanos de qualquer parte do mundo. A exigência do grupo era a fidelidade ao líder Ibrahim Awad Ibrahim al-Badri al-Samarra (conhecido como Abu Bakr al-Baghdadi) e que os muçulmanos migrassem para o território sob seu controle. Seus membros se colocam como os mais fieis da vertente sunita e, quem não está em concordância com eles, significa que quer a destruição do Islã e isso vale para muçulmanos ou não. Neste sentido, em qualquer coalizão contra eles, há a visão de que estão na luta para a firmação e o estabelecimento do reino de Deus na Terra.


Com um tom bélico em seu discurso e sua prática, a ONU qualificou e condenou o grupo como terrorista e, em seu relatório de 2014, apresentou medidas para conter o terrorismo internacional com a colaboração de vários países, dentre eles, a Síria que também enfrenta em seu território as ações do ISIS. De acordo com a Síria, uma das maneiras de acabar com a propagação do terrorismo é minando as bases de troca de informações e de financiamento. Mas quem financia o ISIS com armas ou dinheiro? De acordo com o portal de notícias do Oriente Médio Al-Monitor, o grupo recebe apoio de bases vizinhas, de contrabando e de empresas financeiras:


os remanescentes do grupo na Síria continuam recebendo fluxos de dinheiro de associados baseados na vizinha Turquia e de contrabandistas no Iraque, de acordo com um memorando não confidencial do Departamento do Tesouro divulgado no início deste mês.
Algumas dessas transferências foram feitas por hawalas (empresas de serviços financeiros) locais no notório campo de internamento de al-Hol, que abriga cerca de 50.000 familiares de combatentes do EI. Outras remessas de dinheiro foram entregues por correio através da fronteira plana e desértica entre o Iraque e a Síria.


Até o ano de 2015, de acordo com pesquisas sobre a cúpula do EI, as informações sobre como se organiza são obtidas através de fontes não oficiais e também através de relatório de serviço secreto ou de especialistas ocidentais que se debruçam em analisar os traços do terrorismo e fundamentalismo. É muito comum a afirmativa de que muitas guerras têm por motivação desavenças religiosas e, por essa razão, religião (fé) e violência caminham juntas, mas essa mistura não é algo único e simples de se pensar.


As ações do EI, decapitando suas vítimas enquanto citam o Alcorão, são perturbadoras e traz à luz justamente esse conectivo do “e” da violência e da religião. No entanto, há quem defenda que exista uma ligação entre essas partes, pois, uma vez crendo que Deus está ao seu lado, os atos mais cruéis em nome Dele ganham lugar.


No Ocidente, pensamos a religião no modo privado, separado de qualquer esfera da sociedade, pois, para que haja a paz, foi feita a separação entre Estado e Igreja. Neste sentido, o secularismo ocidental naturalizou essa separação, porém essa naturalização não se deu por inteiro e de igual modo em todos os lugares do globo.


Entre os séculos XVI e XVIII, católicos e protestantes disputaram a teologia da Reforma e, como consequência, um massacre mútuo, contribuindo para a criação do “mito de violência religiosa”. Naquele momento, a pauta não era unicamente política ou unicamente religiosa, pois as duas caminhavam juntas. Em seu artigo à BBC, Armstrong vai buscar na Formação da Turquia, em 1903, sob o governo Mustafa Kemel Ataurk, a tentativa de compreender certa repulsa à secularização. O líder turco via o Islã com desdém, reprimiu a vertente sufis e aboliu a instituição do califado. Além disso, promoveu uma limpeza étnica com os cristãos armênios, iniciando o século XX com o primeiro genocídio: ao matar os homens e ao mandar mulheres e crianças ao deserto para morrerem. Outro líder que quis trazer o secularismo de forma abrupta foi Jamal Abdul Nasser em 1952, transformando os membros do clero em funcionários do seu governo.


Armstrong reitera que, se os muçulmanos lutam contra o secularismo, não é porque são inferiores mentalmente, mas que, em sua trajetória, há a tentativa de secularização de forma imposta numa tentativa de copiar o ocidente e sem respeitar as questões domésticas. Ou seja, de forma violenta e invasiva. Em um artigo mais recente, Magali Cunha aponta que as muitas religiões que deveriam promover a paz são passíveis de cometer atos violentos a partir do momento que abraçam a ideia do discurso exclusivista e “guardião” de “detentor da verdade” e, quem não é daquele grupo, é perseguido. Neste sentido, há o uso da religião como instrumento de violência e, em alguns casos, como intolerância religiosa.


Sob esse viés, é comum olharmos nos noticiários casos de violência e religião. No Brasil, vemos casos de violência contra terreiros de umbanda e candomblé; nos Estados Unidos, ataques a igrejas negras ou o embate entre muçulmanos e budistas no Sri Lanka. Neste sentido, parece-nos que a violência está imersa na sociedade e a religião é apenas uma face dessa mesma sociedade. E que, por mais que as religiões estejam geralmente ligadas a ideia de promoção da paz, dependendo de quem faz o uso dela, poderá instrumentalizá-la de forma violenta e de forma fundamentalista. De acordo com Apolloni, fundamentalista é quando um indivíduo ou grupo apresenta uma leitura literal dos textos sagrados e rejeita a religião no modo privado. No entanto, dentro de uma perspectiva secularista ocidental, o fundamentalista é visto como inferior mentalmente ou um mero fanático no sentido de insistir nos seus objetivos e agir de forma drástica para alcançá-los.


Embora as ações do EI com as decapitações sejam algo que marcam o Islã como uma síntese religiosa de violência, fundamentalismo e extremismo, o Islã não é assim. Não podemos tomar uma parte pelo todo. Em 2004, foi lançado um documento chamado de “Mensagem de Amán”, na qual 552 eruditos do Islã defendem a unidade entre os muçulmanos em escala global e a tolerância mútua entre as vertentes da religião. No ano seguinte, promulgaram uma declaração trazendo luz a essa unidade entre as diferentes escolas islâmicas:


a) - o reconhecimento mútuo de todas as escolas jurídicas do Islã; b) - o fim da estigmatização de membros de outras correntes islâmicas como apóstatas; e c) - a superação da prática de declarar muçulmanos de outras linhas infiéis. No mesmo espírito, outros eventos seguiram, por exemplo o diálogo entre sunitas e xiitas no chamado “Fórum de Rodos”, dedicado à busca para soluções de conflitos intraislâmicos em andamento.


Essa declaração nos faz pensar que, por mais que a imprensa oficial nos aponte sempre o terrorismo perpetrado por extremistas, há o movimento de conter a disputa de natureza teológica dentro do próprio Islã. Existem algumas organizações muçulmanas que se colocam como porta-vozes na denúncia de atos extremistas, reivindicados por grupos terroristas islâmicos, são elas Coalizão Muçulmana pela Paz e o Conselho Nacional de Muçulmanos Canadenses.


“Terrorista não é igual a mulçumano.”

Fonte: l’Humanité



Cabe pensar que, no senso comum, o Estado Islâmico é que define a religião liderada por Maomé, mas não é assim. Vimos que há organizações islâmicas que se colocam diametralmente opostas ao EI. Ademais, no imaginário coletivo, também temos a premissa de que as mulheres são todas silenciadas pela religião. Você, leitor, já se perguntou qual o papel das mulheres na religião e na sociedade muçulmana? Ou mesmo sobre o papel delas diante das ofensivas contra o EI? No tópico a seguir, iremos entender um pouco sobre como elas são vistas no Islã, sua atuação em ONGs para então vermos como elas têm um importante papel na defesa do seu território contra o grupo jihadista.



Protagonismo de mulheres islâmicas


De acordo com o fundamentalismo muçulmano, há uma ênfase de que as mulheres possuem determinismo biológico no sentido de que elas possuem, como principal ocupação, a maternidade e, com ela, a transmissão dos preceitos e valores islâmicos aos filhos. Na esteira do movimento fundamentalista, a participação feminina é bem variada. É possível que ela tenha papel estratégico na expansão ideológica e em outros locais, como no Afeganistão, sua função pública é vetada. Nesse ínterim, um dos pontos centrais do fundamentalismo muçulmano é a separação entre os gêneros no espaço público. A proximidade entre homens e mulheres é vista como um perigo à virtude, pois seria uma exposição desnecessária de ambos à tentação. Além disso, para que a sexualidade fique centrada nos espaços privado/familiar (casamento), as vestes das mulheres religiosas muçulmanas demonstram esse comportamento social na esfera pública, que varia de acordo com a denominação e o país, como, por exemplo, no Irã com o xador preto entre os xiitas e a burca no Afeganistão que cobre totalmente o corpo. Desse modo, vemos que às mulheres cabe o decoro e o comportamento normativo de acordo com os princípios fundamentalistas, que acomoda várias posições dentro do Islã.


Seguidamente, esse controle sobre as mulheres esbarra com a modernidade e, com ela, temos o movimento de mulheres no Islã (de cunho secular, fundamentalista ou com releitura do Alcorão) que repercute a sua condição no âmago da religião. Tais propostas partem de dentro do mundo muçulmano cujo objetivo é uma releitura das fontes sagradas sob a perspectiva feminista.

Em virtude de tais movimentações femininas no Islã, em Barcelona, a “Junta Islâmica Catalana” debateu, entre os dias 27 e 29 de dezembro de 2005, o movimento “mulheres muçulmanas pelos direitos humanos, conhecido como "jihad de gênero". Outra prioridade do Congresso foi iniciar uma colaboração entre as mulheres muçulmanas e o movimento feminista global” e, por conseguinte, à repercussão da temática, o Alcorão não fornece bases para o patriarcalismo e que essa releitura das fontes sagradas do Islã pode mudar o status das mulheres muçulmanas, não esquecendo de levar em conta o contexto das sociedades do presente século.

Além disso, esse ativismo de mulheres muçulmanas se faz presente em ONGs, como a Karamah – que busca uma igualdade entre os gêneros dentro do Islã, incentivando mulheres a serem líderes em suas comunidades – e a Sister In Islam –que tem por visão defender a “igualdade de gênero, justiça, liberdade e dignidade no Islã e capacite as mulheres a serem defensoras da mudança”. As pautas são as mesmas, no entanto há diferenças entre as vertentes do movimento de mulheres dentro da religião islâmica, conforme veremos a seguir.


Ilustração modificada via Think Olga

Fonte: Jornal da USP

Exemplificando, há algumas vertentes dentro do movimento de mulheres muçulmanas, de acordo com a pesquisadora Cila Lima, dentre eles: 1) “ativismo fundamentalista de mulheres muçulmanas” que como o próprio nome nos antecipa, é de raiz fundamentalista com rejeição ao feminismo internacional; 2) nascido no Egito em 1920, o feminismo secular que está presente não só em países muçulmanos mas também fora dele e que se preocupa com as raízes sócio-política de cada país e as problematiza; 3) feminismo islâmico que tem um caráter transnacional com a releituras das fontes do Alcorão e que junta o feminismo secular com o fundamentalista. Essa transnacionalidade se faz presente através das ONGs, que mencionamos anteriormente.


Além disso, o feminismo islâmico é dirigido às mulheres islâmicas e atua na intenção de fazer uma releitura do Islã sob o ponto de vista feminista. Ele surgiu nos anos de 1980, no Egito (assim como os outros já citados), mas com uma proposta de diálogo para fora do mundo muçulmano.

Apesar de ter nascido em um país majoritariamente muçulmano, o feminismo islâmico dialoga com o contexto internacional e se desenvolve com outras vertentes femininas, bem como a atuação junto a ONGs em países muçulmanos e também com a ONU. Por um lado, o caráter religioso do feminismo repercute o caráter normativo da mulher ao patriarcado de forma mais diversificada que o feminismo internacional; por outro, impossibilita pensar a sexualidade de forma mais ampla. Além disso, a desconstrução do papel de submissão feminina encontra acolhimento nos meios mais elitistas e acadêmicos do que nos meios populares que são mais tradicionais e com pouco acesso ao feminismo islâmico.


Outrossim, o que impossibilita o feminismo islâmico de ser mais eficaz na contribuição direta à vida das mulheres são as leis em vigor nos locais em que vivem. Neste sentido, a ocupação de cargos parlamentares nos países que se permitem o acesso de mulheres a esses espaços é fundamental, mas é minoritário, pois enquanto algumas mulheres recebem educação, outras são subjugadas e punidas por seus companheiros com amparo da lei. A formação de lideranças políticas para atuarem na elaboração e execução de leis que promovam o bem-estar das mulheres é de grande importância nesses países.


Além disso, devemos destacar que existe certa desconfiança no diálogo entre o feminismo secular e o Islã. Pois os modos de compreender as fontes sagradas do Islã não são capazes de provocar impacto político (mudança nas leis) para transformar a vida das mulheres muçulmanas.

Seguidamente, quando se refere à ação de organizações sem fins lucrativos (falamos anteriormente de ONGs que atuam no sentido de cooperação para igualdade entre os gêneros), nem todas essas organizações podem ser reconhecidas, como o caso das que ajudam mulheres Yazidis que foram vendidas e traficadas pelo EI no Iraque.


Ademais, o caso da etnia yazidi é emblemático, pois, em 2014, o EI perpetrou um genocídio sobre a referida etnia na localidade de Sinjar (Iraque). Para o grupo jihadistas, o gênero é motivo de argumentação para praticar seus atos violentos sob a interpretação de que o Alcorão confere às mulheres o papel de submissão. Neste sentido, sentem-se à vontade para cometer os atos mais vis contra elas.


Nesse ínterim, a vida das mulheres yazidis, nas mãos dos EI, consiste em estupro coletivo, reprodução forçada, violência física e psicológica; ademais, elas não possuem acesso à educação, sua liberdade de ir e vir é suspensa bem como a supressão da liberdade religiosa, cultural e de identidade. Desse modo, a ONU enxerga que o EI comete graves violações dos direitos humanos e, mesmo com a chancela da entidade internacional, o movimento feminista se faz necessário, pois cada país há particularidades culturais e práticas jurídicas.


Ademais, após a imprensa internacional ter tomado conhecimento das graves violações de direitos das mulheres yazidis, Nadia Murad e Lamya Ali Bashar se tornaram ativistas em prol da etnia, pois ambas publicaram suas experiências enquanto cativas sexuais do EI. As duas ganharem o prêmio Sakharov em 2016 considerado pelo Parlamento Europeu como premiação de direitos humanos. Na mesma localidade de Sinjar, algumas mulheres yazidis pegaram em armas para se defenderem e protegerem outras mulheres e crianças contra as ofensivas do EI. Tais ataques influenciaram a formação da unidade de 30 mulheres combatentes da referida etnia, assim como as mulheres curdas do Iraque e da Síria.


Grupo mulheres curdas da Síria e do Iraque em Sinjar em 2014

Fonte: G1



Na mesma esteira de mulheres que combateram (e ainda combatem) o EI, temos a Unidade de Defesa Feminina (YPJ) que está ligada ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK). O PKK conta também com as Unidades de Proteção Popular (Yekîneyên Parastina Gel – YPG) que não difere em nada do YPJ, pois ambos são combatentes. O Curdistão não é um país, e sim uma região que está dividida entre as fronteiras de países, conforme o mapa a seguir.



Mapa do Curdistão

Fonte: Outras Palavras



Fundado em 2013, YPJ, liderado por Meysa Adbo, comanda uma resistência em Kobani (Síria) bem como outras operações de forma autônoma e, além disso, em paralelo ao combate ao EI, elas lideram uma revolução contra o patriarcado através da igualdade de gênero do movimento feminista. Cabe destacar que essas combatentes atuaram de forma significativa no resgate e na segurança à comunidade yazidi, no monte Sinjar (Iraque) em 2014, conforme já relatamos anteriormente. Deste modo, para elas, o grupo jihadista é só algo a mais que elas combatem de forma bélica, pois a luta delas é também contra uma estrutura de pensamento em que a mulher está abaixo dos homens.


Nesse contexto, cabe destacar que a luta das mulheres curdas não é algo novo, pois remonta desde o final do século XIX quando Kara Fatima liderou um batalhão com 700 homens, incluído mulheres, contra o Império Otomano. Não esquecendo também de Leyla Qasim, curda iraquiana e ativista estudantil, foi a primeira mulher no Iraque a ser condenada à forca sob a acusação de terrorismo. Até a redação desse artigo, o YPG conta com uma página no Facebook com 576.274 mil seguidores. Na página, é compartilhado os treinamentos, as batalhas e outras imagens fortes. Também é possível acompanhar toda a dinâmica do povo curdo com a página “Solidariedade à resistência curda 3.0” com um pouco mais de 2 mil e quatrocentos seguidores. Nessa fanpage, há notícias em português e em espanhol sobre tudo o que se refere à luta curda por autonomia.



Combatentes da Unidade de Defesa Feminina (YPJ)

Fonte: Facebook do YPJ, 2019.



Refugiados, síntese e encaminhamentos


Além do drama vivido pelos yazidis com o Estado Islâmico, eles também engrossam o corpo de refugiados em cidades, como Duhok (Iraque). Iraque, Turquia, Egito, Jordânia e Líbano são alguns dos destinos próximos para os refugiados sírios.


Destinos de refugiados sírios

Fonte: BBC



Conforme vimos no começo deste artigo, a Síria é um dos países que foi palco da Primavera Árabe. Uma manifestação que começou pacificamente contra Bashar Al-Assad que reagiu com força e que contou com a presença de potências estrangeiras que enviaram armas e dinheiro aos combates contrário ao referido presidente. A Síria, com sua agenda de múltiplos atores – como o Estado Islâmico, os grupos contra Assad e os curdos que reivindicam autonomia –, tenta equacionar tamanha instabilidade após anos 10 anos do início do conflito e essa equação está aparentemente difícil de equacionar.


De acordo com o Observatório Sírio para Direitos Humanos, há o registro de 387.118 mortos e destes 116.911 são civis. O Observatório também aponta a estimativa dos 88 mil civis que tenham sido mortos sob tortura enquanto estavam detidos pelo governo de Assad. Além disso, existe outra fonte que acompanha essas estatísticas que é o Centro de Documentação de Violações que contabiliza a marca de 35.634 civis até dezembro de 2020.


Além disso, segundo a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), o Iêmen vive uma grave crise humanitária oriundo de um conflito civil como consequência da derrubada de Abdullah Saleh. Além disso, a Agência pede às partes envolvidas no conflito proteção para a população civil iemenita, pois a cada conflito aumenta o número de vítimas, deixando o país ainda mais fragilizado.


Nesse ínterim de ajuda humanitária e de deslocamento de pessoas, dados da ONU de 2016 apontam que, desde a Segunda Guerra Mundial, não havia tão grande deslocamento de indivíduos fugindo de perseguição e guerra; grande parte é oriunda de países da África e do Oriente Médio que foge dos terroristas, das violações de direitos humanos e dos conflitos internos.

Além disso, nem sempre essas populações conseguem sair de seu país e dependem de ajuda humanitária. Retomando o Iêmen, como exemplo, desde a guerra civil após a PA, o país enfrenta a fome, o surto de cólera, os desastres ambientais e mais recentemente enfrenta também a Covid-19. Diante de um panorama tão calamitoso, muitos países da Europa ou da Ásia recebem essas pessoas. Na Europa, dois dos destinos são a Itália e a Grécia; já para ganhar uma sobrevida longe dos conflitos domésticos, muitos enfrentam, em condições precárias, o Mar Egeu ou o Mediterrâneo – isso quando chegam ao destino. Como dissemos anteriormente e também como mostra o mapa dos refugiados sírios, muitos procuram a Turquia para então chegarem à Europa, gerando preocupações de países da União Europeia. Em 2015, a Alemanha de Angela Merkel adotou medidas de acolhimento para o povo sírio e quase um milhão conseguiram.


Por um lado, o acolhimento de refugiados se encontra em uma situação difícil de equacionar. Porque muitos nativos de países da Europa estão envelhecendo e uma parte está fora da população economicamente ativa bem como a baixa taxa de natalidade e, nesse sentido, esses imigrantes refugiados se tornam importantes para o mercado de trabalho. Por outro, existe o europeu nativo que se incomoda justamente com a concorrência no mercado de trabalho e com o temor do crescimento do Islã e terrorismo. Mas essas questões estão fora do escopo do nosso artigo, mas mesmo assim cabe destacar que uma das motivações da saída do Reino Unido foi também a crise de refugiados desencadeada pelos levantes de 2010 e 2011.

Se a Primavera Árabe trouxe muitas mudanças positivas ou não, é difícil dizer, pois cada país apresenta sua particularidade. Se formos pensar em questões humanitárias, trouxe graves consequências para sua respectiva população. É difícil prever como serão os próximos 10 anos, porque muitos países têm questões étnicas que também somam a questões econômicas, políticas e sociais. Além disso, cada país representa ou não um grau de influência no tabuleiro geopolítico. Nós, historiadores, podemos apenas explicar as raízes dos conflitos, mas acertar o que o futuro reserva não.

 

Saiba mais


Livros:

· A revolução ignorada, de Lilar Dirik. Editora: Autonomia Literária.

· Desvelando o Islam: ética, justiça e direito, de Eddna Raquel Hogerman (Org.). Editora: Nova Práxis Editorial

· Lendo Lolita em Teerã, de Azar Nafisi. Editora: Edições BestBolso.

· Mulheres do Islã: a face oculta que o ocidente não vê, de Abdul Haikal e Eddna Raquel Hogemann. Editora: Nova Práxis Editorial.

· O Irã sob o Chador: duas brasileiras no país dos aiatolás, de Adriana Carranca e Marcia Camargos. Editora: Globo.

· Observando o Islã, de Clifford Geertz. Editora: Zahar.

· Persépolis, de Marjane Satrapi. Editora: Cia. das Letras.

· Sobre o Islã: a afinidade entre muçulmanos, judeus e cristãos e as origens do terrorismo, de Ali Kamel. Editora: Nova Fronteira.


Filmes e documentário:

· As filhas do Sol, de Eva Husson. 2018. Baseado em fatos: o filme aborda o grupamento feminino que combateu o Estado Islâmico no monte Sinjar (Iraque) em 2014.

· Assim que abro os meus olhos, de Leyla Bouzid. 2015. Obra fílmica situada em 2010, um pouco antes dos movimentos que derrubaram o governo na Tunísia.

· A Praça de Tahrir, de Jehane Noujaim. 2013. O documentário nos leva aos dias da ocupação da Praça Tahrir no Egito.


 

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Artigo com bastante informação, mas não é cansativo de ler. A maioria das informações foram novas pra mim. Site ganhou mais um leitor.

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Agradecemos seu feedback. Ao que se refere à questões do mundo islâmico (árabe ou não) sempre há uma miríade de informações pois cada país, uma particularidade. Fique conosco, sirva-se de um bom hidromel e boa leitura.


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