William Wallace
- História Medieval
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Poucas figuras da Idade Média europeia foram tão profundamente moldadas pela cultura popular quanto William Wallace. Para o público contemporâneo, seu nome evoca imediatamente imagens de batalhas épicas, discursos inflamados sobre liberdade e resistência heroica contra a opressão inglesa — imagens amplamente cristalizadas pelo cinema, sobretudo após o lançamento de Braveheart (1995). No entanto, por trás do mito cinematográfico existe uma figura histórica complexa, inserida em um contexto político, social e militar extremamente específico: a Escócia do final do século XIII, dilacerada por crises dinásticas, dominação estrangeira e disputas de poder entre nobres, reis e comunidades locais.
O desafio do historiador não é julgar William Wallace como herói ou vilão, mas compreendê-lo dentro de seu tempo. Isso exige separar cuidadosamente as camadas de tradição literária, propaganda política posterior e nacionalismo moderno das fontes medievais disponíveis — escassas, fragmentárias e frequentemente hostis ao próprio Wallace. Ao contrário de reis como Eduardo I da Inglaterra, Wallace não deixou cartas, tratados ou crônicas de sua própria lavra. Sua imagem nos chega mediada, sobretudo, por cronistas ingleses adversários e por narrativas escocesas tardias, como o poema épico de Blind Harry, escrito quase dois séculos após sua morte.
Este artigo propõe uma análise ampla e rigorosa da vida de William Wallace, abordando suas origens sociais, a conjuntura política da Escócia após 1286, sua ascensão como líder rebelde, suas campanhas militares, sua captura e execução, bem como a construção posterior de seu legado. Mais do que um simples relato biográfico, trata-se de uma investigação sobre resistência, poder, identidade política e memória histórica na Idade Média.
A Escócia no final do século XIII: crise dinástica e dominação inglesa
Para compreender William Wallace, é indispensável compreender o colapso da ordem política escocesa no final do século XIII. Em 1286, a morte do rei Alexandre III lançou o reino em uma profunda crise sucessória. Sem herdeiros masculinos diretos, o trono passou para sua neta, Margarida, conhecida como a “Donzela da Noruega”, ainda criança. Sua morte prematura em 1290 deixou a Escócia sem um monarca legítimo, abrindo caminho para disputas entre diversas linhagens nobres.
Nesse contexto, a nobreza escocesa recorreu à arbitragem de Eduardo I da Inglaterra, um monarca experiente, militarmente agressivo e profundamente consciente de sua própria autoridade régia. Eduardo aceitou mediar a sucessão, mas impôs uma condição crucial: que fosse reconhecido como suserano da Escócia. Esse gesto marcou o início de uma interferência direta inglesa nos assuntos escoceses, algo que muitos contemporâneos interpretaram como uma violação da soberania tradicional do reino.
O candidato escolhido foi John Balliol, coroado rei em 1292. Contudo, Balliol revelou-se politicamente frágil e amplamente subordinado às exigências de Eduardo I. Quando tentou afirmar maior autonomia, foi rapidamente deposto em 1296, após uma campanha militar inglesa que incluiu o saque de Berwick-upon-Tweed e a derrota escocesa na Batalha de Dunbar. A Escócia foi, então, ocupada militarmente, seus símbolos régios confiscados — incluindo a Pedra do Destino — e sua elite submetida ao juramento de fidelidade ao rei inglês.
Foi nesse cenário de ocupação, humilhação política e ressentimento social que surgiram focos de resistência armada. William Wallace não foi o único rebelde, mas se tornaria o mais emblemático.
Origens de William Wallace: entre a pequena nobreza e a obscuridade documental
As origens exatas de William Wallace permanecem objeto de debate historiográfico. As fontes medievais são lacônicas e, em muitos casos, contraditórias. A tradição mais aceita sustenta que Wallace nasceu por volta de 1270, provavelmente na região de Elderslie, no sudoeste da Escócia, em uma família ligada à pequena nobreza ou à elite rural local.
Seu pai é geralmente identificado como Alan Wallace, um cavaleiro menor, embora essa identificação não seja absolutamente segura. Ao contrário da imagem popular de um camponês simples que se ergue contra um império, Wallace provavelmente possuía algum grau de educação e treinamento marcial, compatível com sua posterior atuação como líder militar. Isso sugere que ele transitava em um espaço intermediário da sociedade medieval: não pertencente à alta nobreza, mas distante da condição servil.
Essa posição social é crucial para compreender seu papel histórico. Wallace representava uma camada de guerreiros locais, proprietários menores e membros da comunidade que tinham muito a perder com a ocupação inglesa, mas pouco a ganhar com os acordos políticos das grandes casas nobres. Sua liderança emergiu menos de títulos formais e mais de prestígio pessoal, capacidade militar e carisma — elementos essenciais em sociedades de guerra medieval.
O início da rebelião: violência, ocupação e ruptura (1297)
A rebelião liderada por William Wallace não surgiu de um plano previamente articulado ou de um projeto nacional consciente, mas de um ambiente de tensão social extrema, alimentado pela ocupação inglesa e pela dissolução da autoridade régia escocesa. Após a deposição de John Balliol, a Escócia passou a ser governada por oficiais ingleses — xerifes, juízes e administradores — cuja função era garantir a cobrança de impostos, a aplicação da lei inglesa e a repressão a qualquer sinal de resistência.
Esses representantes do poder inglês tornaram-se símbolos concretos da dominação estrangeira. Em muitas regiões, seu comportamento foi percebido como arbitrário, violento e profundamente desrespeitoso às tradições locais. Confisco de propriedades, punições exemplares e humilhações públicas contribuíram para um clima de ressentimento generalizado, especialmente entre a pequena nobreza rural e as comunidades camponesas.
É nesse contexto que emerge o episódio mais famoso do início da carreira de Wallace: o assassinato do xerife inglês de Lanark, geralmente identificado como William de Heselrig, ocorrido em 1297. As fontes divergem quanto às circunstâncias exatas do evento. Algumas crônicas sugerem um ato premeditado de rebelião; outras, influenciadas por tradições literárias posteriores, introduzem motivações pessoais, como a morte de uma esposa ou companheira de Wallace — elemento que carece de comprovação documental contemporânea.
Independentemente do motivo imediato, o assassinato do xerife teve um efeito político decisivo. Ao matar um representante direto da autoridade inglesa, Wallace rompeu irreversivelmente com a ordem imposta por Eduardo I. A partir desse momento, ele deixou de ser um dissidente local para se tornar um rebelde declarado, foragido e, ao mesmo tempo, um polo de atração para outros descontentes.
A formação do movimento rebelde
Após Lanark, Wallace reuniu ao seu redor um grupo crescente de seguidores. Esse movimento não era um exército regular, mas uma coalizão fluida de guerreiros locais, composta por camponeses armados, pequenos proprietários, membros da baixa nobreza e veteranos de conflitos regionais. A guerra que travavam era, em grande medida, uma guerra de emboscadas, ataques rápidos e conhecimento do terreno — típica de sociedades que enfrentam um poder militar superior.
Importante ressaltar que Wallace não estava sozinho na resistência escocesa. Em outras regiões, líderes como Andrew Moray, no norte do reino, também organizaram rebeliões armadas contra a ocupação inglesa. Durante muito tempo, a historiografia deu a Wallace um protagonismo quase exclusivo, mas estudos mais recentes destacam que a resistência de 1297 foi policêntrica, surgindo simultaneamente em diferentes áreas da Escócia.
A convergência entre Wallace e Moray foi decisiva. Ao unir forças, os rebeldes passaram de ações localizadas para uma campanha militar com objetivos mais amplos. A Inglaterra, até então confiante em sua superioridade, começou a perceber que enfrentava algo mais sério do que simples banditismo rural.
A Batalha da Ponte de Stirling (1297): vitória improvável
O ponto culminante dessa primeira fase da rebelião foi a Batalha da Ponte de Stirling, travada em setembro de 1297. Militarmente, Stirling era um ponto estratégico crucial: controlava a principal rota de acesso entre o norte e o sul da Escócia. Para os ingleses, mantê-la significava dividir e isolar os focos de resistência.
As forças inglesas, comandadas por John de Warenne, conde de Surrey, e por Hugh de Cressingham, tesoureiro real na Escócia, eram numericamente superiores e incluíam cavalaria pesada — o elemento mais temido da guerra medieval. Em contraste, Wallace e Moray lideravam um exército predominantemente de infantaria, mal equipado segundo os padrões aristocráticos da época.
A genialidade da vitória escocesa residiu na exploração do terreno e do tempo. A ponte de Stirling era estreita, permitindo a travessia de apenas uma parte das tropas inglesas por vez. Wallace e Moray aguardaram pacientemente até que uma fração significativa do exército inimigo estivesse do lado norte do rio. Nesse momento, atacaram com força total.
A infantaria escocesa, organizada em formações compactas conhecidas como schiltrons, conseguiu resistir ao impacto da cavalaria e empurrar os ingleses para o rio. O resultado foi um massacre: muitos soldados se afogaram, outros foram mortos em combate cerrado. Hugh de Cressingham foi morto, e sua morte tornou-se símbolo da humilhação inglesa naquele dia.
A vitória em Stirling teve um impacto psicológico imenso. Pela primeira vez desde 1296, um exército inglês havia sido derrotado de forma clara e incontestável em solo escocês. Wallace deixou de ser apenas um rebelde regional e passou a ser visto como líder nacional da resistência.
Guardião da Escócia: poder sem coroa
Após Stirling, William Wallace foi nomeado Guardião da Escócia, título que exercia em nome do rei deposto John Balliol. Essa posição conferia-lhe autoridade política e militar, mas também expunha suas limitações. Wallace não pertencia à alta nobreza tradicional e enfrentava desconfiança por parte de muitos magnatas escoceses, que viam sua ascensão com cautela ou mesmo hostilidade.
Como Guardião, Wallace tentou transformar a vitória militar em estabilidade política. Organizou campanhas no norte da Inglaterra, levando a guerra ao território inimigo, numa estratégia de retaliação e pressão econômica. Essas incursões, embora eficazes no curto prazo, também contribuíram para consolidar a imagem de Wallace como um inimigo perigoso aos olhos de Eduardo I.
Ao mesmo tempo, tornava-se cada vez mais claro que Wallace carecia dos recursos necessários para sustentar uma guerra prolongada contra um reino tão poderoso quanto a Inglaterra. A resposta inglesa não tardaria.
O retorno de Eduardo I e a Batalha de Falkirk (1298)
A vitória escocesa em Stirling representou uma afronta direta à autoridade de Eduardo I da Inglaterra, um monarca cuja identidade política estava profundamente ligada à imagem de rei guerreiro e conquistador. Diferentemente de seus representantes locais, Eduardo não encarava a rebelião escocesa como um problema administrativo, mas como um desafio pessoal ao seu poder. Em 1298, ele decidiu intervir diretamente, liderando uma campanha militar em larga escala para esmagar a resistência.
O retorno de Eduardo I marcou uma mudança decisiva no conflito. Pela primeira vez desde o início da rebelião, Wallace enfrentaria não apenas contingentes regionais, mas o exército real inglês plenamente mobilizado, composto por cavalaria pesada, infantaria profissional e, sobretudo, arqueiros galeses armados com arcos longos — uma inovação tática que alteraria profundamente a guerra medieval nas décadas seguintes.
Wallace, ciente de sua inferioridade numérica e material, tentou evitar o confronto direto. Empregou uma estratégia de terra arrasada, devastando áreas por onde o exército inglês poderia avançar, na tentativa de dificultar o abastecimento inimigo. No entanto, essa tática mostrou-se insuficiente para deter um exército disciplinado e bem suprido. O encontro tornou-se inevitável.
A Batalha de Falkirk, travada em julho de 1298, revelou tanto a coragem quanto as limitações da liderança de Wallace. O exército escocês foi organizado em schiltrons, formações densas de infantaria armada com lanças longas, dispostas em círculos defensivos. Em teoria, essas formações eram capazes de resistir às cargas de cavalaria, como já haviam demonstrado em Stirling.
O problema, contudo, residia na ausência de apoio adequado. A cavalaria escocesa, composta por membros da nobreza, abandonou o campo de batalha — seja por cálculo político, desconfiança em relação a Wallace ou simples oportunismo. Sem proteção lateral, os schiltrons tornaram-se alvos fáceis para os arqueiros ingleses. As chuvas de flechas quebraram a coesão das formações, permitindo que a cavalaria pesada avançasse e completasse a derrota.
Falkirk não foi apenas uma derrota militar; foi um golpe político profundo. Demonstrou que, embora eficaz como comandante de resistência, Wallace não dispunha do apoio aristocrático nem dos recursos necessários para enfrentar um rei experiente em guerra convencional.
Declínio político e resistência prolongada
Após Falkirk, William Wallace renunciou ao cargo de Guardião da Escócia. A liderança do movimento passou gradualmente para figuras da alta nobreza, entre elas Robert Bruce, futuro rei da Escócia. Ainda assim, a saída de Wallace do poder formal não significou sua retirada da luta.
Durante os anos seguintes, Wallace continuou atuando como combatente irregular, mantendo viva a resistência por meio de ataques pontuais, alianças instáveis e possíveis missões diplomáticas. Algumas fontes sugerem que ele teria viajado ao exterior, possivelmente à França, em busca de apoio contra a Inglaterra. Embora os detalhes dessas viagens sejam obscuros, elas indicam que Wallace compreendia a necessidade de enquadrar a luta escocesa em um contexto político mais amplo.
Nesse período, a figura de Wallace passou a assumir um caráter quase simbólico. Ele já não comandava grandes exércitos, mas representava a persistência da oposição à dominação inglesa. Sua simples existência como rebelde ativo era, por si só, um desafio à autoridade de Eduardo I.
Captura, julgamento e execução (1305)
Em 1305, após anos de resistência intermitente, William Wallace foi capturado — provavelmente como resultado de traição. Levado a Londres, não foi tratado como prisioneiro de guerra, mas como traidor, pois, segundo a lógica inglesa, jamais fora reconhecido como súdito legítimo com direitos políticos.
O julgamento de Wallace foi, na prática, uma encenação jurídica. Ele foi acusado de traição, assassinato e atos de guerra contra o rei da Inglaterra. Ao responder às acusações, Wallace teria declarado que não poderia ser considerado traidor, pois nunca jurara fidelidade a Eduardo I — uma afirmação juridicamente coerente dentro da lógica feudal, mas politicamente irrelevante naquele contexto.
A sentença foi exemplar e brutal. Wallace foi condenado à pena reservada aos traidores: enforcado, esquartejado e decapitado. Sua cabeça foi exposta na Ponte de Londres, enquanto partes de seu corpo foram enviadas a diferentes cidades, como aviso a qualquer um que ousasse seguir seu exemplo.
Essa execução não buscava apenas punir um homem, mas aniquilar um símbolo.
Entre a história e o mito: a construção de William Wallace
Paradoxalmente, a tentativa de apagar Wallace contribuiu para sua imortalização. Nos séculos seguintes, sua figura foi progressivamente transformada em símbolo da liberdade escocesa. O poema épico de Blind Harry, escrito no século XV, desempenhou papel central nesse processo, criando uma narrativa heroica, emocional e profundamente nacionalista — ainda que historicamente imprecisa em muitos aspectos.
A partir do século XVIII, com o romantismo e o surgimento do nacionalismo moderno, Wallace foi reinterpretado como herói popular, mártir da independência e expressão da identidade escocesa. O cinema do século XX apenas consolidou essa imagem, projetando-a globalmente.
Para o historiador, contudo, o valor de William Wallace não reside na perfeição do mito, mas na complexidade do homem histórico: um líder surgido em meio ao colapso político, capaz de vitórias improváveis, limitado por estruturas sociais rígidas e, ainda assim, decisivo para manter viva a ideia de uma Escócia independente.
William Wallace não foi um rei, nem um general profissional, tampouco um revolucionário no sentido moderno. Foi, antes de tudo, um produto de seu tempo: um guerreiro de fronteira, moldado pela violência feudal, pela ocupação estrangeira e pela fragilidade das instituições políticas escocesas no final do século XIII.
Seu legado não está apenas nas batalhas que venceu ou perdeu, mas no impacto duradouro de sua resistência. Ao desafiar um dos monarcas mais poderosos da Europa medieval, Wallace demonstrou que a dominação não se sustenta apenas pela força militar, mas também pela legitimidade — algo que Eduardo I jamais conseguiu plenamente na Escócia.
A história de William Wallace é, portanto, menos sobre heroísmo absoluto e mais sobre limites, escolhas e consequências. É nesse espaço — entre a lenda e a realidade — que o historiador encontra seu verdadeiro objeto de estudo.
William Wallace e a Guerra dos Cem Anos antes da Guerra dos Cem Anos
Embora cronologicamente anterior à Guerra dos Cem Anos, a rebelião liderada por William Wallace antecipa muitos dos elementos estruturais que marcariam os grandes conflitos do final da Idade Média. Em especial, a combinação de guerra irregular, mobilização popular e desgaste econômico do inimigo aproxima a experiência escocesa das práticas militares que se tornariam comuns nos séculos XIV e XV.
Eduardo I compreendia perfeitamente o perigo desse tipo de guerra. Seu domínio sobre a Inglaterra havia sido construído com base na autoridade régia forte, na centralização administrativa e na aplicação sistemática da lei. Wallace representava o oposto: uma resistência que não dependia de castelos, de títulos ou de reconhecimento jurídico, mas da capacidade de explorar o território, mobilizar comunidades locais e agir fora dos limites da guerra feudal tradicional.
Nesse sentido, Wallace foi menos um comandante de batalhas decisivas e mais um agente de instabilidade estrutural. Sua campanha forçou os ingleses a manter tropas constantemente mobilizadas, elevando custos, desgastando a logística e dificultando a pacificação duradoura do território escocês. Essa lógica de desgaste, mais tarde, seria explorada com grande eficácia pelos ingleses na França — e, ironicamente, usada contra eles próprios.
Wallace, a nobreza escocesa e o problema da legitimidade
Um dos aspectos mais complexos da trajetória de William Wallace é sua relação ambígua com a nobreza escocesa. Diferentemente de líderes posteriores, como Robert Bruce, Wallace não possuía uma base aristocrática sólida. Sua autoridade derivava sobretudo do êxito militar e do apoio popular, fatores altamente voláteis em uma sociedade rigidamente hierarquizada.
A nobreza escocesa encontrava-se dividida. Muitos senhores haviam jurado fidelidade a Eduardo I por conveniência política ou necessidade material. Outros temiam que o sucesso de um líder “de origem inferior” ameaçasse a própria estrutura social da Escócia. Wallace, portanto, era visto tanto como um libertador quanto como um elemento disruptivo.
Essa tensão explica, em parte, o abandono da cavalaria escocesa em Falkirk. A retirada não foi apenas militar, mas política. Ao deixar Wallace isolado, a aristocracia reafirmava que a condução do reino deveria permanecer em mãos nobres, mesmo sob ocupação estrangeira.
Do ponto de vista historiográfico, esse episódio revela um dado essencial: a luta pela independência escocesa não foi apenas um conflito entre Inglaterra e Escócia, mas também uma disputa interna sobre quem tinha o direito de governar.
Wallace e Robert Bruce: ruptura e continuidade
A relação entre William Wallace e Robert Bruce é frequentemente distorcida pela cultura popular. Longe de ser uma oposição maniqueísta entre traidor e herói, o vínculo entre ambos reflete as ambiguidades políticas do período.
Bruce, herdeiro de uma das mais poderosas linhagens escocesas, oscilou entre submissão e rebelião em relação à Inglaterra. Essa postura pragmática, muitas vezes interpretada como oportunismo, permitiu-lhe sobreviver politicamente onde Wallace foi eliminado.
Após a queda de Wallace, Bruce incorporou muitas das lições aprendidas com a resistência anterior: evitou batalhas campais desnecessárias, apostou em guerra de atrito e compreendeu a importância da legitimidade régia. A vitória escocesa definitiva, consagrada em Bannockburn (1314), deve muito à experiência acumulada durante os anos de rebelião wallaciana.
Assim, Wallace não foi o arquiteto da independência escocesa, mas foi seu precursor indispensável. Ele manteve viva a chama da resistência quando a submissão parecia inevitável.
O problema das fontes: Wallace nos registros medievais
Do ponto de vista metodológico, William Wallace representa um desafio considerável ao historiador. As fontes contemporâneas são escassas, fragmentárias e, em muitos casos, hostis. A maioria dos registros ingleses o descreve como bandido, rebelde ou criminoso comum. Já as fontes escocesas posteriores tendem a idealizá-lo.
Entre as principais fontes medievais estão:
Chronica Gentis Scotorum, de John of Fordun,
Scalacronica, de Thomas Grey,
Gesta Annalia,
Documentos administrativos ingleses (Pipe Rolls, cartas régias, registros judiciais).
Nenhuma dessas fontes oferece um retrato neutro. Cabe ao historiador cruzar informações, contextualizar discursos e distinguir propaganda política de fatos verificáveis. A ausência de autobiografias, cartas pessoais ou crônicas favoráveis contemporâneas limita nossa compreensão direta da personalidade de Wallace, mas não invalida sua relevância histórica.
A execução como espetáculo político
A morte de William Wallace não foi apenas uma punição, mas um ato performático de poder. A execução pública, a exposição de seu corpo e a distribuição de seus restos tinham como objetivo transmitir uma mensagem clara: a rebelião não apenas fracassa, mas é desmembrada, apagada e exibida como advertência.
Esse tipo de punição insere-se em uma lógica medieval de justiça exemplar, na qual o castigo servia menos para corrigir o condenado e mais para disciplinar a sociedade. No entanto, no caso de Wallace, o efeito foi parcialmente inverso. A brutalidade do ato reforçou sua imagem de mártir e alimentou a memória coletiva da resistência.
Wallace na historiografia moderna
A historiografia contemporânea tende a afastar-se tanto da demonização inglesa quanto da glorificação romântica. Autores como G.W.S. Barrow, Michael Brown e Marc Morris enfatizam Wallace como um líder circunstancial, mas historicamente decisivo.
Ele não criou um Estado, não reformou instituições e não governou de forma duradoura. Ainda assim, sua ação impediu a consolidação do domínio inglês em um momento crítico. Sem Wallace, é plausível que a Escócia tivesse sido definitivamente absorvida pela Inglaterra no final do século XIII.
Conclusão
William Wallace ocupa um lugar singular na história medieval europeia. Não por ter sido o maior estrategista de seu tempo, nem por ter fundado uma dinastia, mas por ter encarnado uma forma de resistência que escapava às normas políticas e militares vigentes.
Ele foi um homem da fronteira — social, política e cultural. Sua trajetória expõe as fraturas da sociedade feudal, os limites da autoridade régia e a força simbólica da insubmissão. Para o historiador, Wallace não é um herói mítico nem um rebelde vulgar, mas um fenômeno histórico, cuja importância reside menos no que construiu e mais no que impediu que fosse destruído.
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