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A sombria história por trás do Conto de Fadas: Hansel e Gretel - João e Maria

Atualizado: 19 de jan.


Hansel e Gretel por Arthur Rackham
Hansel e Gretel por Arthur Rackham (imagem adaptada)

O célebre conto de Hansel e Gretel, conhecido em língua portuguesa como João e Maria, foi traduzido para mais de 160 idiomas desde que os Irmãos Grimm publicaram, em 1812, sua versão do antigo folclore germânico. Ao longo dos séculos, a narrativa consolidou-se como uma das histórias infantis mais difundidas do mundo ocidental, embora seu conteúdo esteja longe de qualquer inocência.


Sob a aparência de um conto popular, a história aborda temas profundamente sombrios: abandono infantil, fome extrema, escravidão, tentativa de canibalismo e assassinato. Esses elementos, por si só perturbadores, tornam-se ainda mais inquietantes quando se considera que as origens do conto são, em muitos aspectos, tão brutais quanto — ou até mais do que — a versão literária que chegou ao público moderno.


A maioria das pessoas está familiarizada com o enredo geral. Ainda assim, convém retomá-lo brevemente. A narrativa inicia-se com um casal empobrecido, assolado pela fome, que decide abandonar seus dois filhos na floresta como último recurso para garantir a própria sobrevivência. As crianças, Hansel e Gretel, ao tomarem conhecimento do plano, conseguem retornar ao lar seguindo um rastro de pedras que Hansel havia cuidadosamente deixado cair pelo caminho. Em muitas versões, é a madrasta — e não a mãe biológica — quem persuade o pai a cometer o ato.


Contudo, a solução é apenas temporária. Convencido mais uma vez, o pai abandona os filhos pela segunda vez. Desta vez, Hansel tenta repetir a estratégia, deixando para trás migalhas de pão. Diferentemente das pedras, porém, as migalhas são rapidamente devoradas pelos pássaros, e as crianças acabam irremediavelmente perdidas na floresta.


Exaustos e famintos, Hansel e Gretel deparam-se então com uma casa feita de pão de gengibre e outros doces, à qual se entregam de forma desesperada. O que aparenta ser um milagre revela-se, no entanto, uma armadilha cuidadosamente preparada por uma mulher retratada como uma velha bruxa. Ela aprisiona as crianças, escraviza Gretel e força-a a alimentar Hansel excessivamente, com o objetivo explícito de engordá-lo para posteriormente devorá-lo.


A inversão de papéis ocorre quando Gretel, demonstrando astúcia e coragem, consegue empurrar a bruxa para dentro de um forno, causando sua morte. Após escaparem, as crianças retornam para casa levando consigo o tesouro encontrado na morada da bruxa. Ao chegarem, descobrem que a madrasta — figura associada à crueldade inicial da narrativa — desapareceu ou morreu. Assim, a história encerra-se com a restauração da ordem familiar e a promessa de um futuro próspero, culminando no tradicional “viveram felizes para sempre”.


Entretanto, esse desfecho aparentemente reconfortante mascara uma realidade muito mais dura. A verdadeira história por trás de João e Maria, isto é, o contexto social e histórico que deu origem ao conto, está profundamente ligada a períodos de fome, miséria e abandono infantil, comuns em várias regiões da Europa pré-moderna. Longe de ser apenas uma fábula moralizante, o conto reflete experiências coletivas traumáticas, transmitidas oralmente ao longo de gerações, antes de serem fixadas por escrito no século XIX.


Assim, por trás do final feliz imposto pela tradição literária, esconde-se um testemunho sombrio das condições extremas que marcaram a vida de inúmeras famílias europeias — uma lembrança de que, na origem de muitos contos infantis, repousam realidades que pouco têm de fantasiosas.


Os irmãos Grimm


Wilhelm Grimm, à esquerda, e Jacob Grimm em uma pintura de 1855 de Elisabeth Jerichau-Baumann.
Wilhelm Grimm, à esquerda, e Jacob Grimm em uma pintura de 1855 de Elisabeth Jerichau-Baumann.


Os leitores modernos conhecem Hansel e Gretel sobretudo por meio das obras dos irmãos alemães Jacob e Wilhelm Grimm. Unidos por uma colaboração intelectual praticamente inseparável, os Grimm eram eruditos profundamente vinculados ao estudo da língua, da literatura e da cultura medievais, nutrindo especial interesse pela preservação do folclore germânico.


Entre 1812 e 1857, os irmãos publicaram mais de duzentas narrativas ao longo de sete edições distintas da coletânea que se tornaria conhecida, no mundo anglófono, como Grimm’s Fairy Tales. Essas histórias, porém, estavam longe de constituir simples entretenimento infantil. O projeto dos Grimm tinha um propósito cultural e político bem definido: registrar e salvaguardar tradições orais germânicas em um contexto no qual a região se encontrava sob forte influência francesa, especialmente durante e após as Guerras Napoleônicas.


Contrariamente ao imaginário contemporâneo, Jacob e Wilhelm Grimm não conceberam originalmente seus contos como literatura infantil. As primeiras edições da obra, publicadas sob o título Kinder- und Hausmärchen (“Contos para Crianças e para o Lar”), eram desprovidas de ilustrações e acompanhadas de extensas notas de rodapé de caráter acadêmico. O tom das narrativas era sombrio, permeado por violência explícita, assassinatos, punições severas e desordem moral — elementos que refletiam, em grande medida, as experiências históricas e sociais das comunidades que transmitiram essas histórias oralmente.


Apesar — ou talvez por causa — de sua crueza, os contos rapidamente conquistaram um público amplo. O apelo dessas narrativas revelou-se notavelmente universal, atravessando fronteiras culturais e linguísticas. Somente nos Estados Unidos, ao longo do século XIX e início do XX, foram produzidas mais de 120 edições diferentes das histórias atribuídas aos Grimm, evidenciando sua extraordinária difusão.


Esse conjunto de narrativas deu origem a um verdadeiro panteão de personagens hoje profundamente enraizados na cultura ocidental. Entre eles figuram Cinderela, Rapunzel, Rumpelstiltskin, Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho e, naturalmente, Hansel e Gretel. Embora hoje frequentemente associados ao universo infantil, esses personagens carregam consigo vestígios claros de um passado marcado por escassez, violência, abandono e instabilidade social, traços que foram progressivamente suavizados nas edições posteriores para atender às sensibilidades modernas.


Assim, compreender Hansel e Gretel à luz do projeto intelectual dos irmãos Grimm permite reconhecer que o conto não é apenas uma fábula moral, mas parte de um esforço mais amplo de preservação cultural, enraizado nas realidades históricas e sociais da Europa pré-moderna.


A verdade sobre a história de Hansel e Gretel


Hansel e Gretel; Interpretação de Alexander Zick
Hansel e Gretel; Interpretação de Alexander Zick

A origem profunda da história de João e Maria não se encontra na versão literária fixada pelos irmãos Grimm, mas em um conjunto de narrativas muito mais antigas, surgidas em contextos de extrema crise social. Muitos desses contos remontam às regiões bálticas e do norte da Europa durante a chamada Grande Fome de 1314 a 1322, um dos episódios mais devastadores da história medieval europeia.


Esse período de escassez não foi resultado de um único fator isolado. Estudos climatológicos indicam que intensa atividade vulcânica no sudeste da Ásia e na Nova Zelândia desencadeou um prolongado processo de resfriamento global e instabilidade climática. As consequências foram colheitas fracassadas, encurtamento das estações agrícolas e um colapso progressivo dos sistemas de abastecimento alimentar em várias partes do mundo.


Na Europa, a situação revelou-se particularmente catastrófica. O continente já enfrentava uma pressão demográfica elevada e reservas alimentares limitadas. Quando a Grande Fome se instaurou, seus efeitos foram imediatos e brutais. Um estudioso estimou que o fenômeno afetou cerca de 400 mil milhas quadradas, atingindo aproximadamente 30 milhões de pessoas, com taxas de mortalidade que, em determinadas regiões, podem ter alcançado até um quarto da população.


Diante desse cenário extremo, práticas que hoje parecem inconcebíveis tornaram-se tragicamente comuns. Há registros de idosos que escolheram voluntariamente morrer de fome para que os mais jovens pudessem sobreviver. Em outros casos, ocorreram infanticídios e o abandono deliberado de crianças, vistos não como atos de crueldade gratuita, mas como decisões desesperadas impostas pela miséria absoluta. As fontes medievais também indicam episódios de canibalismo, confirmando o grau de colapso social experimentado naquele momento.


O historiador William Rosen, em sua obra The Third Horseman, cita uma crônica estoniana segundo a qual, em 1315, “as mães eram alimentadas com seus próprios filhos”. Um cronista irlandês descreveu a situação com igual horror, afirmando que a fome era tão severa que as pessoas:


“estavam tão consumidas pela fome que desenterravam os corpos dos mortos dos cemitérios, raspavam a carne dos crânios e a comiam, e as mulheres devoravam seus próprios filhos em desespero”.

É desse caos sombrio e traumático que emergem as primeiras formas da narrativa que, séculos depois, seria conhecida como Hansel e Gretel. Longe de ser uma invenção literária isolada, o conto nasce como história de advertência, transmitida oralmente, destinada a refletir os perigos reais do abandono, da fome e da luta pela sobrevivência.


As versões mais antigas desses contos compartilham elementos recorrentes. O abandono infantil aparece como consequência direta da miséria extrema; a floresta surge como espaço simbólico de perigo, magia e morte — um lugar onde a ordem social se dissolve e a sobrevivência depende de astúcia e sorte. Esses temas não são metáforas abstratas, mas ecos de experiências vividas por comunidades inteiras.


Um exemplo significativo encontra-se na obra do colecionador italiano de contos populares Giambattista Basile, que publicou, no século XVII, o Pentamerone. Em uma de suas histórias, intitulada Nennillo e Nennella, uma madrasta cruel força o marido a abandonar seus dois filhos na floresta. O pai tenta frustrar o plano deixando um rastro de aveia para que as crianças encontrem o caminho de volta, mas o alimento é devorado por um burro, selando o destino dos pequenos.


Ainda mais perturbadora é uma antiga narrativa romena, conhecida como The Little Boy and the Wicked Stepmother. Nesse conto, duas crianças são abandonadas e conseguem retornar para casa seguindo um rastro de cinzas. Contudo, ao chegarem, a madrasta assassina o menino e obriga a irmã a preparar o corpo do irmão para uma refeição familiar. Horrorizada, a menina obedece parcialmente: cozinha o corpo, mas esconde o coração do irmão dentro de uma árvore.


Ignorando o crime, o pai consome a carne do próprio filho, enquanto a menina se recusa a participar da refeição. Após o banquete, ela recolhe os ossos do irmão e os coloca junto ao coração escondido na árvore. No dia seguinte, surge um pássaro cuco, que canta:

“Cuco!Minha irmã me cozinhou,Meu pai me comeu,Mas agora sou um cucoE estou a salvo da minha madrasta.”

A madrasta, aterrorizada, atira um pedaço de sal contra o pássaro, mas o objeto retorna e a atinge mortalmente.


Essas narrativas, de brutalidade extrema, deixam claro que João e Maria não surgiu como conto infantil, mas como expressão simbólica de uma realidade histórica marcada por fome, abandono e violência familiar. A versão suavizada que chegou ao público moderno é apenas a última camada de um longo processo de adaptação cultural, que encobriu, mas não apagou, as origens sombrias do conto.


Uma história em evolução com novas tomadas


A fonte direta da história de João e Maria, tal como a conhecemos a partir da tradição dos irmãos Grimm, encontra-se no relato de Henriette Dorothea Wild, vizinha da família Grimm e uma das principais narradoras orais cujas histórias foram registradas na primeira edição dos Kinder- und Hausmärchen. Henriette desempenhou papel central na formação do corpus inicial da coletânea e, posteriormente, veio a se casar com Wilhelm Grimm, o que reforça ainda mais sua importância no processo de transmissão e fixação dessas narrativas.


As versões de Hansel e Gretel publicadas pelos irmãos Grimm não permaneceram estáticas ao longo do tempo. Pelo contrário, o conto passou por modificações significativas entre as primeiras edições e a versão final de 1857. É plausível supor que os próprios Grimm tenham percebido, progressivamente, que suas histórias estavam sendo lidas por um público cada vez mais jovem. Em consequência disso, a última edição apresenta um processo deliberado de higienização narrativa, no qual certos elementos mais perturbadores foram suavizados ou reformulados.


Uma das alterações mais reveladoras diz respeito à figura materna. Nas versões iniciais, é a mãe biológica quem consente — ou mesmo decide — abandonar os próprios filhos à fome e à morte na floresta. Já na edição de 1857, essa personagem é transformada na madrasta malvada, figura arquetípica que desloca a culpa moral para fora do núcleo familiar legítimo. De modo semelhante, o papel do pai é significativamente atenuado: ele passa a demonstrar arrependimento, hesitação e sofrimento diante da decisão de abandonar as crianças, tornando-se uma figura menos ativa e menos culpável.


Essas alterações não são meros detalhes narrativos. Elas refletem uma mudança profunda na sensibilidade moral do século XIX, bem como a consolidação da ideia de infância como fase que deveria ser protegida de temas excessivamente cruéis. O conto, que nascera como advertência brutal em um contexto de fome e abandono reais, passa gradualmente a assumir a função de narrativa moralizante adaptada ao público infantil.


Ao longo do tempo, a história de Hansel e Gretel continuou a se transformar. Hoje, existem versões explicitamente destinadas a pré-escolares, nas quais os temas centrais do conto — abandono infantil, fome extrema e canibalismo — são completamente omitidos. Um exemplo é a adaptação do autor infantil Mercer Mayer, que evita qualquer referência às origens sombrias da narrativa, optando por uma versão inofensiva e desprovida de conflito social real.


Ocasionalmente, contudo, o conto tenta retomar suas raízes mais obscuras. Em 2020, o filme Gretel & Hansel: A Grim Fairy Tale, produzido pela Orion Pictures, chegou aos cinemas propondo uma releitura que se aproxima, ainda que parcialmente, do tom sombrio das versões mais antigas. Nessa adaptação, os irmãos vagam pela floresta em busca de alimento e trabalham para auxiliar os pais empobrecidos antes de encontrarem a figura da bruxa. Embora filtrada por uma estética contemporânea, a narrativa recupera elementos centrais da luta pela sobrevivência que marcaram as origens do conto.


Essas sucessivas reformulações demonstram que João e Maria não é uma história fixa, mas um organismo narrativo vivo, moldado pelas ansiedades, valores e sensibilidades de cada época. A versão hoje consagrada como “clássica” é apenas um estágio intermediário de um processo muito mais longo, no qual a violência da realidade medieval foi gradualmente transfigurada em fábula — sem jamais ser completamente apagada.



Parece que a verdadeira história de Hansel e Gretel ainda pode ser mais sombria do que esta última versão.

Fontes


Zipes, Jack (2014). "Hansel and Gretel (Hänsel und Gretel)". The Original Folk and Fairy Tales of the Brothers Grimm: The Complete First Edition.


Harshbarger, Scott. "Grimm and Grimmer: “Hansel and Gretel” and Fairy Tale Nationalism."

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