Carnaval na Idade Média
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Carnaval na Idade Média

Carnaval na Idade Média

O Carnaval medieval não nasce de uma “vontade natural de festejar”, como se fosse apenas alegria espontânea. Ele ganha forma num mundo em que o tempo é disciplinado: o ano cristão organiza a vida coletiva, regula a comida, o trabalho, a sexualidade, as expectativas morais e até a reputação. Nesse universo, o que hoje chamamos “Carnaval” é, sobretudo, um conjunto de práticas do ciclo pré-quaresmal — o limiar entre o tempo da licença e o tempo da penitência. Essa proximidade com a Quaresma é o motor do fenômeno: a festa faz sentido porque o freio vem logo depois.


Ao mesmo tempo, a festa não é “inocente”. Ela pode integrar e aliviar tensões, mas também pode expor conflitos, impor vergonha pública, legitimar agressões simbólicas e, em certas ocasiões, tornar-se perigosa. O Carnaval medieval é ambivalente por natureza: um espaço curto em que o mundo parece “virar do avesso”, mas onde o retorno à ordem é parte da própria lógica ritual.


O que “Carnaval” quer dizer no contexto medieval


A palavra “Carnaval” é útil, mas precisa ser usada com cautela. A Idade Média não conheceu um modelo único e uniforme, repetido do mesmo modo em toda a Europa. O que existiu foi uma família de celebrações e licenças concentradas antes da Quaresma — Shrovetide em inglês, Fastnacht em áreas de língua alemã, Entrudo no mundo ibérico, além de inúmeras designações locais. Falar em “Carnaval na Idade Média” é falar de uma gramática cultural que se manifesta de maneiras distintas conforme a cidade, o século, o tipo de autoridade local e o tecido social.


Essa gramática aparece com frequência por meio de certos elementos recorrentes: máscaras e disfarces; performances cômicas; sátira social; barulho e música; ocupação da rua; jogos de inversão hierárquica; e, sobretudo, a marca do calendário — o “antes” do jejum.


O calendário cristão como motor da festa


Para entender a energia do pré-quaresma, é preciso lembrar que a Quaresma, no mundo medieval, não era um símbolo abstrato. Em muitas comunidades, era um regime coletivo: abstinências, jejum, disciplina moral, reorganização da vida religiosa e do comportamento público. O contraste com esse regime ajuda a explicar por que o período anterior concentra práticas de “despedida”: comer melhor, beber mais, rir alto, encenar o mundo, extravasar — mesmo que por poucos dias.


O peso do calendário religioso sobre a cultura leiga tardomedieval é um dos pontos fortes da historiografia contemporânea. Um estudo clássico e muito influente sobre a Inglaterra pré-Reforma mostra como a experiência religiosa cotidiana era estruturante e vigorosa, atravessando a vida comum com intensidade e detalhe. Essa presença ajuda a compreender por que transições do ano litúrgico — como a passagem para a Quaresma — se tornavam socialmente explosivas: o corpo e a comunidade “sentiam” o tempo mudar.


Comida, gordura e jejum: o corpo como calendário


No imaginário moderno, o Carnaval é fartura. No medieval, isso precisa ser formulado com mais precisão. Nem toda comunidade tinha abundância real; a dieta era limitada e desigual. O que o pré-quaresma concentra é, muitas vezes, menos “luxo” e mais significado: comer e beber tornam-se linguagem pública de passagem. A mesa marca que o tempo do controle se aproxima. Mesmo um “excesso” modesto — um dia melhor, um prato mais rico, um vinho partilhado — já dramatiza a mudança do calendário.


Por isso o corpo é tão central. O Carnaval medieval frequentemente insiste no corporal: comer, beber, cantar, dançar, fazer ruído, representar o grotesco. Em uma sociedade onde a Quaresma disciplina o corpo, é natural que o “antes” da Quaresma transforme o corpo em palco.


Barulho, rua e performance: a festa como ocupação do espaço urbano


Outro traço decisivo do carnavalesco medieval é a rua. A festa não é só doméstica; ela se torna pública. O barulho e a multidão têm um papel que vai além do entretenimento: eles ocupam a cidade, afirmam presença coletiva e criam uma cena em que identidades se misturam — ainda que por pouco tempo.


Em certos lugares, essa dimensão performática se liga ao teatro e ao espetáculo urbano. Veneza, por exemplo, preserva em documentação arquivística e em tradições institucionais a associação entre Carnaval e “vida como teatro”, com indícios de controle e organização ao longo do tempo, inclusive em materiais produzidos a partir de fundos documentais do Arquivo do Estado. A relação entre festa, espetáculo e administração pública é um tema recorrente em cidades complexas: o governo reconhece o valor social do divertimento e, ao mesmo tempo, tenta limitar seus riscos.


Máscaras: liberdade, risco e reputação


A máscara é o símbolo mais famoso do Carnaval — e, historicamente, um dos mais perigosos.


Num mundo medieval, o rosto não é apenas identidade; é reputação. Reputação define crédito, honra, alianças, casamento, acesso a redes de proteção e trabalho. Disfarçar-se suspende essa ligação e abre espaço para uma licença real: o riso pode ser mais agressivo, a sátira pode atingir mais alto, a crítica pode circular com menos medo.


Mas a mesma suspensão permite abusos: agressões, roubos, vinganças, difamações. Por isso, a máscara costuma ser observada com ambivalência por autoridades urbanas e religiosas. Quando o rosto desaparece e a multidão cresce, a ordem pública pode vacilar. O Carnaval medieval não é só uma festa de máscaras; é uma festa que testa a capacidade de uma comunidade de suportar anonimato sem quebrar.


Veneza: anonimato, licença e governo do excesso


Veneza é um caso emblemático porque a cidade constrói uma das tradições carnavalescas mais célebres da Europa e, ao mesmo tempo, preserva a memória de que essa tradição sempre exigiu gestão.


A narrativa institucional veneziana aponta para um testemunho do termo “Carnevale” em documento de 1094 e para uma medida de 1296 que torna festivo o dia anterior ao início da Quaresma por decisão do Senado. Mesmo que a historiografia de detalhe deva sempre confrontar essas sínteses com edições críticas quando necessário, elas são valiosas para situar o fenômeno dentro de uma longa tradição urbana: Carnaval como prática reconhecida e, em alguma medida, formalizada.


O interesse histórico aqui não está apenas na data, mas no mecanismo social. Em uma república urbana com códigos rígidos de aparência e hierarquia, a máscara funciona como equalizador temporário: distâncias sociais se encurtam, a circulação se amplia, a sátira ganha espaço. Exatamente por isso, o poder público tende a intervir — ora permitindo, ora restringindo, de acordo com as pressões morais e os riscos à ordem.


Nuremberg e o Schembartlauf: quando o Carnaval vira arquivo (1449–1539)


Se Veneza é um laboratório do anonimato urbano, Nuremberg é um laboratório da memória visual do carnaval tardomedieval.


A evidência aqui é extraordinária: o manuscrito MS Douce 346, conservado e digitalizado pela Bodleian Library, documenta o “Nuremberg Shrovetide Carnival (1449–1539). Schembartsbuch”, com imagens que registram personagens, fantasias, cenas e a encenação do cortejo. Essa fonte não é uma simples “menção”; é um arquivo visual de alta densidade, útil para perceber que o Carnaval urbano podia ser planejado, repetido, disputado por prestígio e integrado à identidade da cidade.


manuscrito MS Douce 346
manuscrito MS Douce 346,

Outras iniciativas acadêmicas e digitais reforçam o valor do Schembartlauf como tradição bem documentada, situando o evento como ponto alto do “quinto tempo” carnavalesco na cidade imperial entre 1449 e 1539. E materiais curatoriais dedicados ao tema ajudam a contextualizar o Schembartlauf como desfile de mascarados ligado ao Shrove Tuesday, com origem associada a práticas corporativas e ao imaginário urbano.


Nuremberg deixa clara uma tese importante: o Carnaval medieval não é necessariamente “espontâneo”. Ele pode ser institucional, sustentado por grupos, rotinas e formas reconhecíveis. E isso muda a leitura simplista do carnaval como “povo contra ordem”. Muitas vezes, o carnaval é produzido dentro da própria ordem urbana — ainda que a ridicularize por instantes.


Fastnachtspiele: a comédia do pré-quaresma como crítica social


No mundo de língua alemã, o pré-quaresma também se liga a formas dramáticas conhecidas como Fastnachtspiele, as “peças de Shrovetide”. A própria tradição enciclopédica descreve esse teatro como fenômeno que emerge no século XV, com performances ao ar livre por atores amadores e um repertório de farça, sátira e elementos morais, refletindo gostos urbanos e burgueses.


A pesquisa especializada mostra como, em autores e contextos ligados a Nuremberg, os Shrovetide plays podem negociar tensões sociológicas da cidade sob cobertura religiosa ou moral, usando o humor como ferramenta de disputa e comentário social. O riso, aqui, é meio de comunicação pública: ele expõe vícios e conflitos sob forma teatral, encenando aquilo que a cidade vive no cotidiano, mas raramente confessa em linguagem direta.


O “mundo às avessas”: inversão como rito, não como revolução


A imagem do “mundo virado do avesso” é central para o Carnaval, mas precisa ser lida com rigor.


A Idade Média é um mundo de hierarquias visíveis: lugares na igreja, precedências na rua, sinais de honra, distinções de roupa e mesa. Numa sociedade assim, a inversão ritual seduz: ela permite rebaixar o alto por instantes, elevar o baixo temporariamente, brincar com papéis sociais. Contudo, quase sempre é uma inversão com prazo e moldura. O retorno à ordem está embutido no rito: a inversão é tolerável porque acaba.


A teoria cultural sobre o carnaval — especialmente a leitura de Bakhtin sobre riso, grotesco e “carnavalização” — ajuda a compreender por que o corpo e a paródia do solene aparecem com tanta força em culturas festivas tardo-medievais e modernas iniciais. Mas, para uma história social precisa, essa lente precisa ser combinada com documentação local: regulamentos, manuscritos, registros urbanos, sermões, relatos de conflito.


Quando o riso vira disciplina: charivari, juventudes e vergonha pública


Uma das correções mais importantes que a historiografia impõe ao senso comum é esta: o riso carnavalesco nem sempre é libertário. Muitas vezes ele é punitivo.


O caso paradigmático é o charivari: rituais ruidosos e performáticos — frequentemente conduzidos por grupos de jovens — que expõem publicamente pessoas ou situações consideradas desviantes pela comunidade. O estudo clássico de Natalie Zemon Davis sobre “misrule” analisa como juventudes e charivaris, na França do século XVI, funcionavam como uma forma de polícia moral informal, usando o ruído, a paródia e a humilhação para impor normas comunitárias.


Esse ponto é decisivo para o Carnaval medieval: a mesma gramática de máscara, barulho e inversão pode servir tanto ao riso integrador quanto à coerção. O carnaval, em certos contextos, é válvula; em outros, é tribunal.


“Festa dos Loucos”: fronteira do sagrado e disputa de interpretação


Entre as manifestações de inversão ritual, poucas foram tão romantizadas quanto a chamada Feast of Fools (“Festa dos Loucos”), frequentemente descrita como profanação clerical da liturgia. A pesquisa acadêmica recente, entretanto, tratou o tema com mais precisão.


O livro de Max Harris revisa criticamente a história do fenômeno, discute fontes e cronologias e argumenta contra exageros e simplificações acumuladas, situando o desenvolvimento do fenômeno em contextos específicos e distinguindo práticas ritualizadas de caricaturas posteriores.


A conclusão histórica prudente é simples: existiram, em certos ambientes, práticas festivas que tangenciam o espaço religioso; elas podiam incluir inversões e jogos; geraram reações e tentativas de contenção; e não podem ser reduzidas a um único estereótipo de “caos blasfemo”.


Reforma, conflito e propaganda: quando o carnavalesco vira arma


A linguagem do carnaval — inversão, paródia, rebaixamento do solene — pode ser mobilizada como ferramenta política e religiosa, especialmente em tempos de ruptura.


O artigo de Bob Scribner sobre a Alemanha da Reforma explora as conexões entre cultura popular, carnaval e a ideia do “mundo às avessas”, mostrando como repertórios carnavalescos dialogam com conflitos e mensagens reformistas em ambiente de transformação religiosa. Isso reforça a ambivalência: o carnavalesco é uma linguagem disponível. Em tempos estáveis, pode integrar; em tempos de crise, pode polarizar.


A violência possível: máscara, multidão e o lado escuro da licença


Qualquer tratamento historicamente adulto do Carnaval medieval precisa reconhecer seus riscos. A máscara pode facilitar assédio; a paródia pode virar difamação; o ruído pode virar tumulto; a humilhação pode destruir vidas num mundo de reputação frágil. O carnaval é, por isso, frequentemente objeto de preocupação das autoridades — não por uma “aversão abstrata à alegria”, mas porque multidão e anonimato tornam o controle mais difícil.


Essa tensão é constitutiva: o Carnaval vive no limite, porque sua função social depende justamente de tocar o limite — e de recuar a tempo.


Península Ibérica e Portugal: Entrudo, continuidade e cautela metodológica


No universo ibérico, o termo Entrudo é fundamental para falar do pré-quaresma. Mas aqui a precisão é essencial: a documentação detalhada e a forma “clássica” de muitas tradições entram com mais força em períodos posteriores, o que exige evitar projeções fáceis.


O caminho rigoroso é tratar o Entrudo como parte de um continuum de práticas pré-quaresmais que atravessam a transição medieval para a modernidade, com transformações profundas ao longo do tempo. Trabalhos acadêmicos em repositórios portugueses discutem o Entrudo e suas raízes/camadas históricas, oferecendo base para uma leitura longa e não anacrônica.


Como exemplo concreto de tradição regional com forte ligação ao ciclo carnavalesco, os Caretos de Podence são bem documentados em pesquisa universitária e em materiais patrimoniais. Uma dissertação da Universidade de Coimbra analisa história, patrimônio e turismo dos Caretos, oferecendo bibliografia e enquadramento acadêmico. E a documentação ligada ao reconhecimento patrimonial (incluindo dossiês em PDF) descreve práticas, transmissão e contexto social da festa.


Esse bloco ibérico permite afirmar com segurança: a gramática europeia do pré-quaresma encontra expressões próprias em Portugal, mas a escrita historicamente correta precisa sempre distinguir o que é medieval, tardo-medieval, moderno e contemporâneo, sem forçar “provas medievais diretas” onde a evidência é posterior.


Carnaval como instituição temporária: licença com prazo


Quando se juntam casos como Veneza (anonimato e gestão pública), Nuremberg (arquivo visual e tradição urbana), charivari (punição comunitária) e teatro de Shrovetide (crítica dramatizada), surge uma imagem robusta: o Carnaval medieval não é mera desordem.


Ele é uma instituição social temporária, com regras implícitas:


  • Acontece em um tempo específico, marcado pelo calendário.

  • Permite licenças específicas, sobretudo de fala, máscara e performance.

  • Opera por inversão, mas com moldura e limite.

  • Termina no retorno à disciplina, o que lhe dá sentido.


A festa funciona porque a comunidade inteira reconhece que “pode” por pouco tempo — e que depois “não pode”. O Carnaval medieval é o riso antes do rigor; o excesso antes da contenção; o mundo às avessas antes de ser colocado de volta no eixo.


Conclusão


Estudar Carnaval na Idade Média não é caçar uma “origem pura” da festa moderna. É compreender como sociedades hierárquicas criam espaços ritualizados para respirar antes da disciplina, para dizer o indizível sob máscara, para negociar tensões por meio da paródia, e, às vezes, para punir desvios sem tribunal formal.


O Carnaval medieval importa porque mostra uma verdade estrutural: a ordem social raramente se sustenta apenas por lei e força. Ela também se sustenta por rituais de exceção — momentos em que a própria ordem permite sua caricatura para preservar-se depois. O riso não derruba o mundo, mas revela onde ele range.

Fontes


BODLEIAN LIBRARIES. MS. Douce 346: Nuremberg Shrovetide Carnival (1449–1539). Schembartsbuch. Oxford: Digital Bodleian, s.d. Acesso em: 16 fev. 2026.


DAVIS, Natalie Zemon. The reasons of misrule: youth groups and charivaris in sixteenth-century France. Past & Present, v. 50, n. 1, p. 41–75, 1971.


DUFFY, Eamon. The Stripping of the Altars: Traditional Religion in England, 1400–1580. New Haven: Yale University Press, 1992 (2. ed.).


HARRIS, Max. Sacred Folly: A New History of the Feast of Fools. Ithaca: Cornell University Press, 2011.


SCRIBNER, Bob. Reformation, carnival and the world turned upside-down. Social History, v. 3, n. 3, p. 303–329, 1978.


VENEZIA (COMUNE DI). Storia del Carnevale di Venezia (síntese institucional). Acesso em: 16 fev. 2026.


ARCHIVIO DI STATO DI VENEZIA. Carnevale 2012: catalogo della mostra documentaria (PDF). Veneza, 2012. Acesso em: 16 fev. 2026.


UNESCO. Festa de Carnaval dos Caretos de Podence (dossiê em PDF). Acesso em: 16 fev. 2026.


COSTA, Luís Filipe. Caretos de Podence: História, Património e Turismo. Dissertação (Mestrado) — Universidade de Coimbra, 2016.


DAIBER, Claudia. Polemics investigated in a late fifteenth-century Fastnachtspiel… Medieval Worlds, 2018.


ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. Fastnachtsspiel. Britannica, s.d. Acesso em: 16 fev. 2026.

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