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O cachorro na Idade Média


Poucos animais atravessaram tantos espaços sociais na Idade Média quanto o cachorro. Ele esteve na porta de casas camponesas, em currais e rebanhos, nas oficinas e mercados urbanos, nos canis de castelos, nas grandes caçadas aristocráticas e, não raro, nos imaginários morais e religiosos que tentavam explicar o mundo por meio de exemplos. Isso faz do cão um tema privilegiado para compreender o cotidiano medieval sem reduzir o período a estereótipos: o cachorro não é apenas “companheiro”, nem apenas “ferramenta”; ele é, simultaneamente, trabalho, custo, afeto, perigo, prestígio e linguagem simbólica.


Uma advertência metodológica é necessária. Quando falamos de cães medievais, não devemos projetar automaticamente as “raças” modernas como se fossem categorias estáveis no passado. As fontes medievais tendem a falar mais em função (cães de caça, de faro, de perseguição por visão, de guarda, de condução de rebanho) do que em padrões padronizados de raça, como se estabeleceria muito mais tarde. O que existia, com certeza, era seleção e criação orientadas para desempenho, sobretudo em ambientes aristocráticos de caça, mas as fronteiras eram mais fluidas do que as nossas categorias atuais sugerem. Por isso, o melhor caminho é observar o cão medieval pelo que ele fazia e pelo que ele significava para pessoas de diferentes condições.


O mesmo animal podia ser visto como sinal de fidelidade e ordem doméstica, mas também como figura de impureza, de rua e de descontrole, dependendo do contexto. E a diferença entre o cão do plebeu e o cão do nobre não é apenas econômica: é cultural, jurídica e moral.


O “mundo de necessidade” medieval: por que cães eram tão úteis


A Idade Média foi um período em que a vida cotidiana era marcada por vulnerabilidades que hoje tendemos a subestimar: noites escuras com iluminação precária, deslocamentos difíceis, riscos de furto e violência local, oscilações de colheita, e uma economia em que perder um animal, parte do grão ou ferramentas podia significar desequilíbrio imediato. Em um mundo assim, segurança e vigilância não eram abstrações; eram práticas diárias.


O cão encaixa-se nesse cenário como um “instrumento vivo” de proteção. Ele percebe aproximações, reage ao estranho, impõe ruído numa noite silenciosa, e, em muitos casos, intimida sem precisar atacar. A função do latido, socialmente, é enorme: o cachorro torna a casa “audível”, isto é, torna difícil agir sem ser notado. Essa utilidade explica por que cães aparecem, de formas diversas, do campo à cidade.


No campo, eles se conectam diretamente a rebanhos, celeiros e propriedades. Em zonas rurais, rebanhos eram capital: lã, leite, carne e tração animal sustentavam famílias, pagavam tributos e alimentavam redes de troca. Um cão que ajuda a manter um rebanho unido ou que dificulta a ação de ladrões protege renda e sobrevivência. Já na cidade, a presença de mercados, açougues e descarte de restos criava uma ecologia favorável a cães errantes — o que podia ser funcional (um tipo de “limpeza” informal de resíduos) e, ao mesmo tempo, fonte de incômodo e risco.


A utilidade, portanto, não elimina a ambivalência: o cão é necessário, mas essa necessidade pode produzir convivências muito diferentes conforme o lugar e a classe social.


O cão entre plebeus: guarda, rebanho, oficina e uma economia de custo e benefício


Para a maior parte da população — camponeses, artesãos, trabalhadores urbanos — o cão era, em primeiro lugar, uma decisão econômica. Alimentar um animal custa. Em domicílios onde a alimentação era uma equação delicada, um cão precisava “merecer” seu lugar por meio de utilidade. Isso não significa ausência de afeto, mas significa que o afeto cresce dentro de uma lógica de trabalho e convivência.


Nas aldeias e propriedades agrícolas, o papel mais evidente é a guarda. Um cachorro que protege quintal, celeiro, ferramentas e pequenos animais domésticos é um seguro contra perdas. Ele não precisa ser um animal enorme; basta ser atento e territorial. Em muitas comunidades, o cão também funcionava como “sentinela” contra visitantes inesperados — e isso inclui tanto a ameaça de ladrões quanto a presença de estranhos em períodos de instabilidade. O cão, nesse sentido, participa da própria construção de fronteiras: “aqui é a casa de alguém”.


Outro papel decisivo é o de condução e proteção de rebanho. Mesmo em regiões onde predadores não eram o maior problema, o furto de animais e a dispersão do rebanho representavam perigo. Um cão que acompanha o pastor, cerca o rebanho e o mantém coeso reduz perdas. Em áreas onde predadores eram mais presentes, cães maiores de proteção tornam-se ainda mais relevantes. O ponto importante é que, para o plebeu, o cão é parte do sistema produtivo: ele protege o que sustenta o inverno e o pagamento de obrigações.


Em oficinas e ambientes urbanos menores, cães também aparecem como auxiliares contra pragas. Não se trata de romantizar “cães caçadores de ratos” como uma categoria pura e universal, mas de reconhecer o óbvio: em lugares com armazenamento de alimentos e matéria-prima, roedores são ameaça, e qualquer animal que ajude a reduzir isso é bem-vindo. A utilidade pode ser simples: perseguir, espantar, impedir instalação.


Mas há um elemento que merece destaque e costuma ser ignorado: O cão do plebeu também tem uma vida social menos registrada. Ele circula com a família, acompanha crianças, participa do trajeto cotidiano para campos, fontes, estradas e igreja. A familiaridade é construída por repetição. Mesmo quando a função é dominante, a convivência produz vínculo. A diferença é que esse vínculo raramente vira símbolo público ou registro formal — por isso ele é menos visível, não menos real.


O cão entre nobres: caça, canis e o animal como performance de status


Se o cão plebeu é majoritariamente utilitário, o cão aristocrático é utilitário e simbólico. O grande eixo é a caça, que no medievo europeu foi muito mais do que um passatempo. Para a elite, caçar era treinamento físico, prática de sociabilidade, ritual de prestígio e demonstração de controle territorial. E, em muitos lugares, era também uma questão jurídica: quem podia caçar, onde podia caçar, com quais meios, e sob quais punições.


Aqui, cães deixam de ser apenas “ajudantes” e tornam-se parte de uma cultura técnica. Tratados de caça como o Le Livre de Chasse, de Gaston Fébus, e o The Master of Game (associado a Edward of Norwich) descrevem tipos funcionais, qualidades desejáveis, formas de treinamento e organização de caçadas. Essas obras mostram que, para a aristocracia, o cão era objeto de conhecimento especializado. Selecionar bons cães, treiná-los e mantê-los era parte do ideal aristocrático de excelência.


O que se vê nesses ambientes é a criação de uma verdadeira infraestrutura: canis, tratadores, rotinas de cuidado, alimentação organizada, controle de doenças e ferimentos, instrumentos de manejo. Manter uma matilha custa recursos e exige pessoal. Isso transforma o cão em “consumo visível”: não é só um animal que serve; é um animal que demonstra que o senhor pode sustentar um estilo de vida específico.


Além disso, o cão aristocrático tende a aparecer mais nas imagens e textos porque ele participa de cenas que a elite gosta de registrar: caçadas, banquetes, viagens, cerimônias. O cão aparece como extensão da ordem nobre: disciplinado, treinado, obediente, integrado ao ritual. É uma forma de dizer, visualmente: “aqui há domínio e hierarquia”.


Mesmo o cão de companhia em ambientes de elite pode cumprir essa função. Em arte e cultura material, cães menores às vezes aparecem associados à intimidade doméstica de damas e cortes. Essa presença, porém, não era neutra: ela gerava críticas moralistas sobre luxo, vaidade e prioridades invertidas. O cão, nesse caso, vira argumento em debate social: alimentar e mimar cães pode ser retratado como sinal de decadência quando comparado ao ideal cristão de caridade. A existência da crítica é, por si só, prova de que o hábito existia de forma suficientemente visível para incomodar.


Campo e cidade: o cão errante, o incômodo urbano e o medo da raiva


Uma abordagem no seu padrão precisa incluir o lado menos “pitoresco”: a experiência medieval com cães errantes. Cidades medievais concentravam restos orgânicos, tinham mercados e açougues, e possuíam mecanismos de limpeza imperfeitos. Isso criava espaço para animais oportunistas, inclusive cães, que se alimentavam do descarte.


Essa presença não deve ser descrita como “anarquia”, mas como realidade: cães circulavam, disputavam território, brigavam entre si e, em alguns contextos, tornavam-se agressivos. Isso impactava a experiência urbana de segurança. Em feiras, ruas estreitas e aglomerações, um cão agressivo podia causar acidentes e medo.


A raiva era particularmente temida. As fontes medievais, mesmo sem microbiologia moderna, reconheciam que mordidas podiam levar a quadros graves e assustadores. A “loucura” do animal, o comportamento alterado e a morte consequente alimentavam temor real. Isso ajuda a explicar por que, em períodos e locais específicos, autoridades e comunidades reagiam com dureza contra cães errantes.


O cão urbano, portanto, participa de uma tensão permanente: ele pode ser útil (consumindo restos, guardando oficinas, acompanhando pessoas), mas pode ser visto como perigo e sujeira. A ambivalência, aqui, não é abstrata; ela é sensorial: cheiro, barulho, mordida, lixo.


Lei e privilégio: quando o cachorro vira problema jurídico


Um dos pontos mais interessantes — e mais “medievais” no sentido social — é o cão como marcador de conflito entre privilégio senhorial e necessidade plebeia. Em regiões onde a caça era reservada à elite, possuir certos cães e utilizá-los em determinados espaços podia ser interpretado como ameaça à ordem jurídica do senhor.


As chamadas leis de floresta e regulamentos de reserva de caça, em diversas tradições europeias, criaram um ambiente em que o ato de caçar se torna não só moralmente reprovável para quem “não pode”, mas juridicamente punível. E o cão é central nisso: cães tornam a caça possível. Controlar cães é controlar a prática.


Em algumas tradições inglesas ligadas ao direito florestal, há menções a práticas de limitação física de cães (conhecidas em termos históricos como expeditation), associadas a impedir que animais pudessem perseguir caça em áreas de reserva. Independentemente da variação local e do rigor real da aplicação, o que importa como leitura histórica é a mensagem: a ordem social pode se impor sobre o próprio corpo do cão. Ele não é só propriedade; ele é instrumento de transgressão ou de privilégio.


Na Idade Média, o cão não é “neutro”. Ele ocupa posições diferentes conforme a classe. No castelo, ele é celebrado como parte do ideal de caça. Na aldeia, ele pode ser tolerado como guarda e pastoreio, mas suspeito se associado à caça em território reservado. O mesmo animal vive em dois regimes morais e jurídicos.


Cuidado, alimentação e saber prático: o cão como corpo que adoece e trabalha


Cães são corpos: sofrem feridas, parasitas, doenças e desgaste. E no mundo medieval havia saber prático para lidar com isso, especialmente onde cães tinham alto valor econômico ou simbólico, como em canis aristocráticos.


Tratados de caça e cultura cortesã, ao falar de manutenção de matilhas, acabam preservando fragmentos de um “conhecimento aplicado” sobre cães: alimentação, repouso, cuidados com patas e feridas, manejo após caçadas longas, prevenção de perdas. Não é “veterinária” moderna, mas é cuidado sistemático. O cão valioso recebe atenção porque é investimento.


Já para plebeus, o cuidado tende a ser mais doméstico e pragmático: alimentar com sobras, tratar feridas com recursos disponíveis, adaptar rotina conforme utilidade. Isso não implica negligência; implica limites materiais. E, justamente por isso, a diferença social aparece no corpo do cão: cães de canil aristocrático podem ser alimentados e tratados com maior regularidade; cães plebeus dependem mais da precariedade do ambiente.


A raiva entra também aqui como fenômeno de medo coletivo. A sociedade medieval reconhecia que existiam episódios de “loucura” em cães e de consequências terríveis em humanos mordidos. Mesmo quando a explicação fosse moral, climática ou humoral, a percepção do risco era concreta, e isso reforçava reações comunitárias a cães errantes.


O cão no imaginário cristão e moral: fidelidade, impureza e metáforas sociais


Bestiários, sermões e literatura de exempla transformavam animais em lições, e o cão aparece com uma ambivalência notável. De um lado, ele é o animal da fidelidade: reconhece o dono, guarda a casa, vigia. Essa leitura se encaixa perfeitamente numa sociedade que valorizava ordem doméstica e lealdade em relações hierárquicas. Não é por acaso que cães aparecem, em arte funerária e representações de elite, como símbolos de fidelidade (inclusive conjugal) e vigilância.


De outro lado, o cão também pode ser mobilizado como imagem de impureza e degradação, especialmente quando associado a carniça, restos e retorno ao que foi rejeitado. Pregadores exploravam imagens fortes e acessíveis: um cão que volta ao lixo, que devora o que não deveria, vira metáfora do pecador que retorna ao vício. Esse uso não deve ser lido como “ódio a cães”, mas como retórica moral que se apropria do cotidiano para comunicar uma lição.


Essa duplicidade é reveladora: o cão é tão presente na vida medieval que se torna material simbólico. Ele serve como elogio de virtude e como advertência contra vício. E a escolha de uma imagem ou outra depende do público e do objetivo do discurso.


Arte, túmulos e manuscritos: o cão como detalhe que revela hierarquia e intimidade


O cão também é fonte visual. Em manuscritos iluminados, tapeçarias e cenas de caça, cães aparecem em movimento, em matilha, perseguindo, farejando, cercando. Isso documenta uma cultura aristocrática que se vê e se narra pela caça. Mas cães também aparecem em cenas domésticas e de cotidiano, como “marcas de vida”: um cão no canto de uma cena de casa ou de rua sugere intimidade, hábito, casa habitada.


Em túmulos e esculturas funerárias, especialmente de elite, cães aos pés de figuras podem significar fidelidade, vigilância, ordem doméstica ou mesmo status de vida cortesã. A imagem, ali, não é casual: ela é linguagem. O cão torna-se um símbolo do que se deseja afirmar sobre a pessoa enterrada e sobre o tipo de vida que ela representou.


O cão não está apenas “no texto”; ele está na pedra e na tinta, reiterando que sua presença era habitual e culturalmente compreendida.


Houve Cães famosos? Quando um animal vira história, culto ou lenda


A pergunta “houve cães famosos?” é excelente, mas a resposta precisa ser honesta: a Idade Média raramente preserva “biografias de cães” no sentido moderno. Quando um cão vira célebre, quase sempre é porque entra numa narrativa moral, religiosa ou lendária. Em outras palavras: o cão fica famoso não por “existir”, mas por significar.


O caso mais importante e documentado para discussão historiográfica é Guinefort, o chamado “galgo santo” de um culto popular na França do século XIII. A história gira em torno de um cão injustamente morto após proteger uma criança; depois, comunidades passaram a tratá-lo como protetor, criando práticas devocionais que incomodaram autoridades eclesiásticas.


Outro exemplo importante, sobretudo para a cultura de devoção tardomedieval, é o cão associado a São Roque, que teria levado pão ao santo doente e o assistido no isolamento. É uma narrativa hagiográfica poderosa: o cão como agente de misericórdia. Mesmo que não possamos tratar isso como “documentação biográfica” de um cão específico, a história é reveladora do que se queria ensinar: fidelidade, cuidado e providência.


Há também lendas como Gelert, na tradição galesa, em que um cão fiel é morto por engano e só depois reconhecido como inocente. É uma história moral sobre precipitação e culpa humana.


Os cães mais lembrados da Idade Média são os que viraram espelhos das virtudes e vícios humanos. A fama do cão medieval é, quase sempre, uma fama narrada — e isso diz muito sobre o período.


Conclusão


O cachorro na Idade Média não foi um detalhe pitoresco; foi um componente estrutural da vida social. Para plebeus, ele aparecia sobretudo como utilidade indispensável: guarda, rebanho, trabalho, sobrevivência — com afeto construído no cotidiano. Para nobres, o cão era também técnica e espetáculo: caça, canis, prestígio, disciplina e encenação de hierarquia. Na cidade, ele podia ser companheiro e mecanismo informal de convivência com resíduos, mas também incômodo e risco, especialmente quando errante ou associado ao medo da raiva. No imaginário cristão e moral, oscilava entre símbolo de fidelidade e imagem de impureza, conforme a intenção do discurso.


O cão atravessa classes e ambientes, mas não ocupa o mesmo lugar em todos eles. Ele revela como o medievo organizava trabalho, privilégio, lei, moralidade e representação. Em suma, entender o cachorro na Idade Média é uma forma particularmente humana — e historicamente sólida — de entender a própria Idade Média.

Fontes


CUMMINS, John. The Hound and the Hawk: The Art of Medieval Hunting. London: Phoenix Press, 2001.


FÉBUS, Gaston (Gaston Phoebus). Le Livre de Chasse. Edições críticas e traduções acadêmicas diversas.


HASSIG, Debra. Medieval Bestiaries: Text, Image, Ideology. Cambridge: Cambridge University Press, 1995.


SALISBURY, Joyce E. The Beast Within: Animals in the Middle Ages. New York: Routledge, 1994.


SCHMITT, Jean-Claude. The Holy Greyhound: Guinefort, Healer of Children since the Thirteenth Century. Cambridge: Cambridge University Press, 1983.


WALKER-MEIKLE, Kathleen. Medieval Pets. Woodbridge: Boydell Press, 2012.


EDWARD OF NORWICH. The Master of Game. Edições acadêmicas diversas (texto medieval sobre caça e cães; consultar edição crítica/tradução usada na sua pesquisa).


(Se você quiser reforçar o bloco jurídico sobre florestas e caça) YOUNG, Charles R. The Royal Forests of Medieval England. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1979.

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