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Por que a Idade Média se tornou um campo de militância política no presente?

Por que a Idade Média se tornou um campo de militância política no presente?

A Idade Média ocupa um lugar singular no imaginário histórico do Ocidente. Nenhum outro período é tão frequentemente convocado no debate público como metáfora negativa, advertência moral ou insulto político. Chamar algo de “medieval” raramente significa apenas situá-lo no tempo; quase sempre implica associá-lo a atraso, obscurantismo, violência, intolerância ou irracionalidade. Essa associação, tão naturalizada no discurso contemporâneo, revela menos sobre o período histórico em si e muito mais sobre as necessidades simbólicas do presente.


Quando historiadores, professores ou divulgadores questionam essa imagem — apontando a complexidade institucional do mundo medieval, a racionalidade de sua produção intelectual ou a diversidade de suas formas sociais —, a reação costuma ser imediata e hostil. Acusações de romantização, revisionismo ideológico ou defesa implícita de valores conservadores surgem com rapidez. O conflito, porém, não é meramente historiográfico. Ele é político, cultural e epistemológico.


A Idade Média tornou-se um campo de militância porque passou a funcionar como passado funcional: um passado que precisa ser mantido simples, negativo e distante para sustentar narrativas modernas de progresso, ruptura e superioridade moral. Quando esse passado é complexificado, ele deixa de cumprir sua função simbólica. É nesse ponto que a História, enquanto disciplina, entra em choque com a militância.


Este artigo parte de uma constatação central: a militância contemporânea não reage à Idade Média porque ela é mal conhecida, mas porque ela é útil quando permanece mal compreendida. O objetivo aqui não é defender o período medieval nem minimizar suas violências, hierarquias e exclusões. Trata-se de compreender por que o medievo se tornou um território tão sensível, por que a nuance histórica provoca reações tão intensas e como conceitos, práticas pedagógicas e discursos políticos transformaram o passado em instrumento do presente.


A invenção moderna da “Idade Média obscura”


É fundamental esclarecer, desde o início, que a imagem de uma Idade Média essencialmente obscura não é produto da própria Idade Média. Ela é uma construção intelectual moderna, elaborada a partir de interesses específicos e consolidada ao longo de séculos. O próprio termo “Idade Média” nasce carregado de juízo de valor: uma “idade intermediária”, situada entre a Antiguidade idealizada e a Modernidade celebrada.


Os humanistas do Renascimento desempenharam papel decisivo nesse processo. Ao se autodefinirem como herdeiros diretos da cultura clássica greco-romana, eles passaram a retratar os séculos medievais como um longo intervalo de decadência cultural, marcado pela perda da língua latina clássica, pela suposta barbárie germânica e pelo domínio da teologia cristã. Essa leitura não era neutra: ela legitimava o próprio projeto renascentista ao criar um passado negativo a ser superado.


No século XVIII, o Iluminismo radicalizou essa herança. Para afirmar a razão, a ciência e o progresso como valores centrais, foi necessário consolidar a Idade Média como seu oposto simbólico. O medievo tornou-se o tempo da superstição, da autoridade e da ignorância, enquanto a modernidade surgia como libertação. Essa oposição funcionou como narrativa fundadora da identidade moderna europeia.


O problema não está no fato de que o Iluminismo tenha criticado aspectos reais do passado medieval, mas na transformação dessa crítica em caricatura. A Idade Média passou a ser tratada como bloco homogêneo, ignorando suas profundas transformações internas, suas diferenças regionais e sua longa duração. Um milênio inteiro foi reduzido a um estereótipo funcional.


Essa imagem iluminista atravessou os séculos e se enraizou no senso comum, nos currículos escolares, na cultura popular e, mais recentemente, no discurso político militante. Mesmo após décadas de pesquisa historiográfica que desmontaram essa visão, ela permanece ativa porque continua sendo útil.


A reação historiográfica: quando a Idade Média se torna inteligível


A partir do século XX, a historiografia medieval passou por uma transformação profunda. Historiadores começaram a questionar a narrativa linear de progresso que opunha Antiguidade, Idade Média e Modernidade como estágios morais da humanidade. O foco deslocou-se da simples sucessão de eventos políticos para a análise de estruturas sociais, mentalidades, práticas culturais e formas de organização do poder.


Nesse contexto, figuras como Marc Bloch desempenharam papel central. Ao estudar a sociedade feudal, Bloch não buscou julgar o mundo medieval com critérios modernos, mas compreendê-lo a partir de suas próprias lógicas. O feudalismo, em sua análise, não era sinônimo de atraso, mas uma resposta histórica específica a condições políticas, econômicas e sociais concretas. Essa abordagem representou uma ruptura metodológica decisiva.


O mesmo pode ser dito de Georges Duby, que investigou as estruturas de poder, as relações senhoriais e a organização social do Ocidente medieval com rigor crítico, sem recorrer a caricaturas. Duby mostrou que o mundo medieval possuía racionalidade própria, ainda que profundamente distinta da moderna. Sua obra deixou claro que compreender não significa absolver, mas reconhecer a complexidade dos processos históricos.


Essa renovação historiográfica atingiu um ponto alto com Jacques Le Goff, que explorou dimensões até então negligenciadas: o imaginário, o tempo, o trabalho, o dinheiro, o purgatório. Ao fazer isso, Le Goff revelou que práticas frequentemente rotuladas como supersticiosas obedeciam a sistemas simbólicos coerentes e sofisticados. A Idade Média deixou de ser um “erro histórico” e passou a ser um universo cultural inteligível.


Esse movimento não reabilitou moralmente o medievo. Ele o retirou do campo da caricatura e o recolocou no campo da História.


O choque entre historiografia e militância


É exatamente nesse ponto que o conflito com a militância contemporânea se torna visível. A historiografia moderna da Idade Média opera por complexificação, nuance e contextualização. A militância, por sua vez, depende de simplificação, polarização e julgamento moral imediato. Quando o historiador insiste em explicar, o militante interpreta como defesa. Quando contextualiza, vê relativização. Quando distingue práticas, acusa revisionismo.


Esse choque não é acidental. Ele revela duas concepções radicalmente distintas de passado. Para a historiografia, o passado é um objeto autônomo de investigação, dotado de alteridade. Para a militância, o passado é um recurso discursivo, convocado para legitimar posições no presente.


A Idade Média, por sua associação com religião, hierarquia e tradição, tornou-se o alvo ideal desse processo. Ela funciona como passado negativo absoluto, necessário para sustentar a narrativa moderna de emancipação contínua. Quando o historiador desmonta essa função simbólica, ele ameaça algo maior do que um equívoco histórico: ameaça uma estrutura narrativa profundamente enraizada.


A Idade Média como espelho moral do presente


Um dos usos mais recorrentes da Idade Média no discurso contemporâneo é como espelho moral invertido. Tudo aquilo que o presente deseja rejeitar — intolerância, autoritarismo, violência religiosa, negação da ciência — é projetado sobre o medievo. Esse mecanismo permite ao presente afirmar sua própria superioridade moral sem enfrentar suas contradições internas.


Nesse sentido, a Idade Média não é realmente estudada; ela é utilizada. O passado torna-se advertência, não objeto de conhecimento. Esse uso simbólico explica por que a simples tentativa de apresentar o período como complexo provoca reações tão intensas: a complexidade rompe a função moral do espelho.


Quando se reconhece que o mundo medieval produziu universidades, sistemas jurídicos sofisticados, debates filosóficos intensos e formas variadas de organização social, o presente perde um de seus contrastes mais confortáveis. A modernidade deixa de ser ruptura absoluta e passa a ser continuidade transformada. Para muitos discursos políticos, essa conclusão é inaceitável.


Cristianismo medieval, racionalidade e o erro do julgamento anacrônico


Se há um eixo temático que torna a Idade Média particularmente sensível ao uso militante no presente, esse eixo é o cristianismo. A associação entre o período medieval e uma cosmovisão cristã abrangente é historicamente incontestável: a religião estruturava o calendário, a moral, a educação, a política, o direito e as formas de legitimação do poder. No entanto, é precisamente essa centralidade que transforma o medievo em alvo privilegiado de discursos contemporâneos que veem na religião um obstáculo à razão, à ciência e à liberdade.


O problema começa quando essa associação é tratada de forma redundante e simplificada. No imaginário militante, o cristianismo medieval aparece como força monolítica de repressão intelectual, responsável pela suposta paralisação do pensamento racional durante séculos. Essa narrativa, embora eficaz retoricamente, ignora décadas de pesquisa historiográfica que demonstraram a complexidade do papel da Igreja medieval e a profunda racionalidade interna de sua produção intelectual.


A historiografia contemporânea não nega a existência de censura, coerção ou violência associadas a instituições eclesiásticas. O que ela recusa é a leitura linear segundo a qual a religião medieval seria, por definição, inimiga da razão. Ao contrário, boa parte do pensamento racional do Ocidente medieval se desenvolveu dentro das estruturas eclesiásticas, não à margem delas.


Racionalidade teológica e o nascimento das universidades


Um dos pontos mais frequentemente ignorados no discurso militante é o fato de que a Idade Média foi o período de institucionalização do ensino superior no Ocidente. As universidades medievais — Paris, Bolonha, Oxford — surgiram no seio de uma cultura profundamente cristã e produziram debates intelectuais de enorme sofisticação lógica e conceitual.


A escolástica, frequentemente caricaturada como exercício estéril de especulação, foi, na realidade, um método rigoroso de investigação racional. Baseava-se na leitura crítica de autoridades, na formulação de questões, na apresentação de argumentos contrários e na construção de sínteses lógicas. Não se tratava de submissão acrítica à fé, mas de tentativa sistemática de compreender racionalmente a ordem do mundo a partir de pressupostos teológicos.


Autores como Peter Brown, ao estudar a transição da Antiguidade tardia para o mundo medieval, demonstraram que o cristianismo não destruiu a herança intelectual clássica. Ele a reinterpretou, preservou e transformou. Textos de Aristóteles, Cícero e outros autores antigos foram incorporados ao debate medieval por meio de traduções, comentários e disputas conceituais intensas.


Ignorar esse processo e apresentar a Idade Média como tempo de suspensão da razão não é apenas um erro histórico; é uma negação da própria genealogia do pensamento ocidental. A militância reage a esse reconhecimento porque ele rompe a oposição simplista entre “religião medieval” e “razão moderna”, oposição essa fundamental para certas narrativas identitárias contemporâneas.


A confusão entre poder e totalidade


Outro equívoco recorrente no uso militante da Idade Média é a tendência de identificar a Igreja medieval exclusivamente com poder repressivo, como se ela fosse uma instituição homogênea, dotada de vontade única e atuação uniforme ao longo de mil anos. Essa leitura ignora a multiplicidade interna do cristianismo medieval: ordens religiosas distintas, conflitos entre bispos e papas, disputas entre poder secular e eclesiástico, tensões entre centro e periferia.


A historiografia mostrou repetidamente que a Igreja medieval não foi um bloco monolítico. Ela foi espaço de conflito, negociação e adaptação, atravessada por interesses divergentes e por debates teológicos profundos. Reduzi-la a instrumento unívoco de dominação é substituir a História por caricatura.


Essa simplificação interessa ao discurso militante porque permite associar religião, tradição e opressão em um único pacote simbólico. A Idade Média torna-se, assim, o exemplo máximo do que acontece quando a religião “domina” a sociedade. Pouco importa que essa leitura seja historicamente insustentável; o que importa é sua utilidade retórica.


Presentismo normativo e o tribunal do passado


O julgamento militante da Idade Média se apoia fortemente no presentismo normativo, isto é, na aplicação acrítica de valores e categorias contemporâneas a sociedades passadas. Conceitos como laicidade, liberdade religiosa, direitos individuais ou igualdade jurídica são projetados retrospectivamente sobre o mundo medieval como se fossem critérios universais e atemporais.


Esse procedimento produz um efeito duplo. Em primeiro lugar, transforma o passado em erro moral: a Idade Média “falhou” por não corresponder a valores que só se consolidariam séculos depois. Em segundo lugar, impede a compreensão das lógicas internas do período. A pergunta deixa de ser “como funcionava essa sociedade?” e passa a ser “por que ela não era como a nossa?”.


A historiografia insiste que essa é uma pergunta mal formulada. Sociedades humanas não existem para antecipar o futuro. Elas operam dentro de horizontes históricos específicos, respondendo a problemas concretos com os instrumentos simbólicos e materiais disponíveis. Julgar o medievo com categorias modernas não o torna mais inteligível; apenas o torna mais condenável.


Esse mecanismo explica por que a nuance histórica provoca tanta resistência. Contextualizar práticas religiosas, jurídicas ou sociais do período é visto como relativização moral. A História perde sua função explicativa e se transforma em tribunal ideológico.


A virada historiográfica e o desconforto com a complexidade


A renovação historiográfica do século XX intensificou esse desconforto. A partir das contribuições da Escola dos Annales, a Idade Média passou a ser estudada como sistema complexo de longa duração, no qual economia, religião, mentalidades e poder se entrelaçavam de forma dinâmica. Essa abordagem rejeitou narrativas teleológicas e julgamentos morais simplificadores.


Lucien Febvre e Marc Bloch insistiram que o historiador deve reconstruir as condições de possibilidade do pensamento passado. Febvre, ao estudar a incredulidade no século XVI, mostrou que certas formas de pensamento simplesmente não eram concebíveis em determinados contextos históricos. Esse tipo de análise dissolve a tentação de julgar o passado como se ele tivesse acesso às mesmas categorias do presente.


Autores posteriores, como Jacques Le Goff, aprofundaram essa perspectiva ao investigar o imaginário medieval. Conceitos como purgatório, tempo sagrado, trabalho e dinheiro foram analisados como construções históricas, dotadas de racionalidade própria. O mundo medieval revelou-se, assim, não irracional, mas outro.


É justamente essa alteridade que incomoda o discurso militante. Um passado que não pode ser facilmente condenado também não pode ser facilmente instrumentalizado.


Cristianismo, violência e a recusa da simplificação


Reconhecer a racionalidade do cristianismo medieval não implica negar a existência de violência, coerção ou exclusão. Cruzadas, perseguições religiosas e mecanismos de controle social fazem parte da história do período. O ponto central, contudo, é que violência não é sinônimo de irracionalidade, nem exclusividade medieval.


A militância tende a tratar a violência medieval como prova de atraso civilizacional, esquecendo que a modernidade produziu formas de violência em escala industrial. A diferença está menos na presença ou ausência de violência e mais nas formas de legitimação e nos horizontes simbólicos em que ela se insere.


Ao recusar essa comparação e insistir na excepcionalidade negativa da Idade Média, o discurso militante preserva a função moral do período como espantalho histórico. A historiografia, ao contrário, busca compreender a violência como fenômeno humano recorrente, assumindo formas distintas em contextos distintos.


Inquisição, Cruzadas e a fabricação de “campos minados” históricos


Entre todos os temas associados à Idade Média, poucos provocam reações tão imediatas e polarizadas quanto a Inquisição e as Cruzadas. No imaginário contemporâneo, ambos se transformaram em símbolos absolutos de intolerância religiosa, violência irracional e fanatismo. São frequentemente mobilizados como provas definitivas do suposto caráter essencialmente obscurantista do mundo medieval. No entanto, essa leitura, embora eficaz como recurso retórico, é historicamente insustentável.


O problema não reside no reconhecimento da violência — que existiu, foi real e teve consequências profundas —, mas na transformação desses fenômenos em entidades monolíticas, desprovidas de variação temporal, espacial e institucional. Ao fazer isso, o discurso militante converte processos históricos complexos em slogans morais. A História deixa de ser análise e passa a ser acusação simbólica.


A Inquisição medieval, por exemplo, não foi uma instituição única, centralizada e homogênea ao longo de toda a Idade Média. Ela surgiu em contextos específicos, respondeu a problemas concretos e assumiu formas distintas conforme a região e o período. A própria noção de “Inquisição” como sistema permanente de terror é, em grande medida, uma construção posterior, fortemente influenciada por disputas religiosas da Idade Moderna e por narrativas anticlericais dos séculos XVIII e XIX.


A historiografia demonstrou que os tribunais inquisitoriais medievais operavam dentro de uma lógica jurídica própria, baseada em procedimentos formais, registros escritos e categorias legais que, embora incompatíveis com os padrões modernos, não podem ser reduzidas a arbitrariedade pura. Ignorar esse dado não torna a Inquisição mais condenável; apenas a torna menos compreensível.


Cruzadas: guerra, fé e política em um mundo não moderno


O mesmo ocorre com as Cruzadas. No discurso militante, elas costumam ser apresentadas como guerras religiosas movidas exclusivamente por fanatismo cristão, desconectadas de qualquer racionalidade política ou social. Essa leitura ignora o contexto do século XI, no qual religião, política e identidade não eram esferas separadas, mas dimensões interdependentes da experiência humana.


As Cruzadas foram, simultaneamente, fenômenos religiosos, políticos, sociais e econômicos. Envolveram nobres em busca de prestígio, camponeses movidos por expectativas espirituais, papas tentando afirmar autoridade, reinos orientais e islâmicos com agendas próprias, além de dinâmicas regionais extremamente variadas. Reduzi-las a “guerra santa irracional” é aplicar categorias modernas a um mundo que não operava segundo a lógica moderna.


A militância reage à contextualização das Cruzadas porque ela dissolve a clareza moral desejada. Um passado que pode ser explicado deixa de servir como símbolo absoluto do mal. A nuance ameaça a função pedagógica negativa que se espera da Idade Média no discurso político contemporâneo.


A transformação da História em campo minado


Inquisição e Cruzadas tornaram-se, assim, campos minados historiográficos. Qualquer tentativa de explicação detalhada é rapidamente interpretada como relativização ou defesa. O historiador se vê diante de uma escolha falsa: ou condena sem explicar, ou explica e é acusado de justificar.


Essa falsa dicotomia revela uma profunda incompreensão do método histórico. A História não existe para distribuir absolvições ou condenações morais; ela existe para reconstruir processos. Quando essa distinção é apagada, o passado deixa de ser objeto de conhecimento e se transforma em arma retórica.


Esse fenômeno não é exclusivo da Idade Média, mas nela assume intensidade particular porque o período já carrega o peso simbólico de “idade negativa”. A militância encontra, assim, terreno fértil para simplificações que dificilmente seriam aceitas ao tratar de períodos mais próximos ou mais valorizados culturalmente.


Redes sociais, memória histórica e radicalização discursiva


O ambiente digital amplificou de forma decisiva esse processo. As redes sociais operam segundo uma lógica que privilegia impacto emocional, polarização e simplificação. A História, enquanto disciplina de longa duração, sofre nesse ambiente. A Idade Média, com sua iconografia poderosa e já estigmatizada, torna-se matéria-prima ideal para narrativas de choque.


Imagens de fogueiras, cruzes, cavaleiros e clérigos circulam desacompanhadas de contexto, reforçando associações automáticas entre medievo e violência. O algoritmo favorece o conteúdo que provoca indignação imediata, não aquele que exige leitura atenta ou reflexão prolongada. Nesse cenário, o historiador que tenta explicar perde visibilidade; o militante que acusa ganha alcance.


Esse mecanismo ajuda a explicar por que o debate público sobre a Idade Média se tornou tão agressivo. Não se trata apenas de divergência intelectual, mas de economia da atenção. A complexidade histórica não compete bem com o slogan moral.


A Idade Média como linguagem política contemporânea


Nesse contexto, a Idade Média deixa de ser período histórico e passa a funcionar como linguagem simbólica. Falar de “medievalismo”, “retorno às trevas” ou “obscurantismo medieval” torna-se uma forma de qualificar o presente. O passado é convocado não para ser compreendido, mas para nomear o inimigo.


Esse uso linguístico do medievo explica por que a militância reage de forma tão visceral à historiografia contemporânea. Quando o historiador desmonta os estereótipos, ele não está apenas corrigindo um erro factual; está retirando uma ferramenta discursiva poderosa. A reação, portanto, é menos intelectual e mais defensiva.


Violência, modernidade e a falsa excepcionalidade medieval


Um dos argumentos implícitos mais recorrentes no discurso militante é a ideia de que a violência medieval seria qualitativamente diferente — e moralmente inferior — à violência moderna. Essa suposição ignora que a modernidade produziu guerras industriais, genocídios e sistemas de extermínio em escala inédita.


A diferença entre a violência medieval e a moderna não reside em sua existência ou ausência, mas em suas formas de legitimação, organização e escala. A militância, ao insistir na excepcionalidade negativa da Idade Média, preserva a narrativa de progresso moral contínuo, evitando confrontar as contradições do próprio presente.


A historiografia, ao contrário, reconhece que a violência é fenômeno humano recorrente, moldado por contextos históricos específicos. Essa leitura não absolve o passado; ela o torna comparável.


Neo-medievalismo: entre conceito analítico, metáfora política e distorção histórica


O termo neo-medievalismo ocupa hoje um lugar central no vocabulário político e acadêmico quando se busca qualificar fenômenos contemporâneos percebidos como regressivos, fragmentários ou incompatíveis com o modelo liberal moderno. Sua recorrência não é casual. Ela revela tanto a persistência da Idade Média como passado simbólico negativo quanto a dificuldade contemporânea de pensar o presente sem recorrer a analogias históricas simplificadoras.


É fundamental, portanto, distinguir com clareza três níveis de uso do conceito:

  • o acadêmico rigoroso,

  • o jornalístico-metafórico

  • e o militante-acusatório.


    Confundir esses níveis é um dos principais fatores de distorção no debate atual.


A origem acadêmica do neo-medievalismo


No campo da teoria política e das relações internacionais, o conceito de neo-medievalismo surgiu como tentativa de compreender processos que escapavam ao modelo clássico do Estado-nação soberano. A fragmentação da autoridade política, a sobreposição de jurisdições, o enfraquecimento da soberania estatal diante de corporações transnacionais, organismos supranacionais e identidades não nacionais levaram alguns teóricos a recorrer à analogia com certas estruturas do mundo medieval.


Nesse uso, o termo não implica retorno histórico, muito menos julgamento moral do período medieval. Trata-se de uma metáfora estrutural controlada, que reconhece diferenças fundamentais entre o presente e o passado. O medieval, nesse contexto, funciona como referência comparativa limitada, não como sinônimo de atraso.


Esse uso acadêmico é legítimo justamente porque não depende de caricaturas da Idade Média. Ele não supõe que o mundo medieval tenha sido irracional ou obscuro, mas que possuía formas específicas de organização política distintas do modelo estatal moderno. A analogia serve para iluminar o presente, não para condenar o passado.


A transposição do conceito para o discurso político


O problema surge quando o conceito de neo-medievalismo abandona o campo analítico e é absorvido pelo discurso político militante. Nesse novo registro, ele deixa de designar uma estrutura comparável e passa a funcionar como acusação moral. O “medieval” torna-se rótulo pejorativo, sinônimo de obscurantismo, fanatismo, tribalismo e irracionalidade.


Esse deslocamento altera profundamente o sentido do termo. O que antes era uma ferramenta conceitual passa a ser um instrumento de deslegitimação. Fenômenos contemporâneos complexos — crises institucionais, conflitos culturais, tensões identitárias — são reduzidos a sinais de um suposto “retorno às trevas”. O passado medieval é mobilizado como ameaça simbólica.


Esse uso militante depende, necessariamente, de uma Idade Média simplificada e negativa. Sem essa caricatura, o conceito perde sua força retórica. É por isso que a historiografia medieval, ao desmontar estereótipos, entra em choque direto com o discurso neo-medievalista militante.


O medieval como insulto político


Quando “medieval” passa a ser utilizado como insulto, o termo deixa de designar um período histórico e passa a operar como categoria moral. Ele não descreve; ele condena. Não explica; exclui. Essa operação linguística revela muito mais sobre o presente do que sobre o passado.


Ao empregar o medieval como sinônimo do inaceitável, o discurso militante evita a necessidade de análise precisa. Em vez de discutir autoritarismo, populismo, fundamentalismo ou crise institucional com categorias próprias, recorre-se a uma analogia histórica vaga, porém emocionalmente eficaz. O resultado é um empobrecimento duplo: do debate político e da compreensão histórica.


Esse mecanismo reforça exatamente aquilo que a historiografia contemporânea busca combater: a transformação da Idade Média em mito negativo funcional. O passado deixa de ser campo de investigação e torna-se repertório de insultos.


O paradoxo do neo-medievalismo militante


Há um paradoxo central nesse uso militante do neo-medievalismo. Ao acusar o presente de “retornar” à Idade Média, o discurso político pressupõe uma Idade Média estática, homogênea e essencialmente negativa. Essa pressuposição ignora tudo o que a pesquisa histórica demonstrou nas últimas décadas.


Mais ainda: ao recorrer a essa caricatura, o discurso militante enfraquece sua própria crítica ao presente. Fenômenos contemporâneos complexos são explicados por analogias frágeis, em vez de por análises estruturais rigorosas. O medieval funciona como atalho retórico, não como instrumento analítico.


Esse paradoxo foi identificado com clareza por Umberto Eco, ao distinguir a Idade Média histórica daquilo que chamou de “Idade Média imaginária”: um conjunto de imagens produzidas pela modernidade para falar de si mesma. O neo-medievalismo militante pertence a essa Idade Média imaginária. Ele fala menos do passado e mais dos medos e ansiedades do presente.


Neo-medievalismo e o medo da alteridade histórica


A persistência do neo-medievalismo como acusação revela uma dificuldade mais profunda: o medo da alteridade histórica. Reconhecer que a Idade Média foi um período racional à sua maneira, com soluções próprias para problemas universais, enfraquece a ideia de que a modernidade liberal é o único horizonte legítimo da história.


Ao transformar o medieval em insulto, evita-se esse confronto. O passado é mantido à distância, como advertência moral, não como experiência humana legítima. Essa postura protege o presente de questionamentos incômodos, mas ao custo de empobrecer a imaginação histórica.


A historiografia, ao insistir na alteridade, torna-se incômoda. Ela mostra que outras formas de organização social já existiram e funcionaram — com limites e violências, mas também com racionalidade e coerência interna. Para discursos militantes que dependem de narrativas lineares de progresso, essa constatação é perturbadora.


Neo-medievalismo e a politização do ensino


O impacto do neo-medievalismo militante não se limita ao debate público. Ele influencia diretamente o ensino de História. Quando o medieval é apresentado sistematicamente como sinônimo de regressão, o aluno não aprende a pensar historicamente; aprende a repetir um juízo moral pré-fabricado.


O conceito, em vez de abrir caminhos interpretativos, fecha possibilidades de compreensão. A Idade Média deixa de ser estudada como período histórico e passa a ser utilizada como exemplo negativo universal. Essa prática reforça o presentismo e compromete a formação intelectual, preparando estudantes para aderir a slogans, não para analisar processos.


Ensino de História, professor militante e a ética do historiador


Se o debate público e o discurso político são os espaços mais visíveis da militância em torno da Idade Média, é no ensino de História que seus efeitos se tornam mais profundos e duradouros. A sala de aula não é apenas um local de transmissão de informações, mas um espaço de formação intelectual, no qual se constrói a relação do estudante com o passado. Quando a Idade Média é utilizada como instrumento militante nesse contexto, a distorção deixa de ser episódica e passa a ser estrutural.


O uso ideológico do período medieval no ensino não se manifesta apenas em declarações explícitas. Ele aparece, de forma mais sutil, na seleção de conteúdos, na escolha de exemplos, na omissão de debates historiográficos e na maneira como certos conceitos são apresentados. A Idade Média surge como um bloco homogêneo de atraso, intolerância e irracionalidade, funcionando como contramodelo moral da modernidade. O aluno aprende menos sobre o medievo e mais sobre aquilo que ele supostamente “não deve ser”.


A pedagogia da condenação e a perda do método histórico


Essa prática pode ser definida como pedagogia da condenação. Nela, o passado é apresentado não como objeto de investigação, mas como advertência ética. A pergunta central deixa de ser “como funcionava essa sociedade?” e passa a ser “por que essa sociedade estava errada?”. Essa inversão metodológica compromete o próprio sentido do ensino histórico.


A História, enquanto disciplina, não existe para fornecer exemplos edificantes ou demoníacos. Seu papel é reconstruir processos históricos, compreender estruturas, identificar permanências e rupturas. Quando o professor substitui esse método por uma narrativa moralizante, ele abdica da especificidade da História e a transforma em retórica política aplicada.


No caso da Idade Média, essa pedagogia se beneficia de um terreno já preparado pelo imaginário moderno. O aluno, muitas vezes, chega à sala de aula com a ideia prévia de que o período foi obscuro e irracional. O professor militante não precisa demonstrar essa tese; basta confirmá-la. O ensino deixa de ser questionamento e passa a ser reforço de estereótipos.


Presentismo normativo na prática docente


O instrumento central dessa pedagogia é o presentismo normativo. Valores contemporâneos — laicidade, direitos individuais, igualdade jurídica, liberdade de consciência — são aplicados retroativamente à Idade Média como critérios universais. O período é avaliado não por suas próprias lógicas, mas por sua incapacidade de antecipar a modernidade.


Esse procedimento não apenas falseia o passado, como também produz uma compreensão empobrecida do presente. Ao ensinar que a História é uma sequência de erros superados, o professor reforça a ideia de que a sociedade atual representa o ápice moral da experiência humana. O aluno perde a capacidade de reconhecer que a modernidade também é histórica, contingente e sujeita a julgamento futuro.


A historiografia contemporânea insiste que explicar não é justificar. Compreender por que certas práticas existiram não equivale a defendê-las. No ensino militante, essa distinção se dissolve. Qualquer contextualização é vista como relativização; qualquer nuance, como conivência. O resultado é a substituição do pensamento histórico por adesão ideológica.


Posição política e exercício da História: uma distinção necessária


É fundamental estabelecer uma distinção clara entre ter posição política e usar a História como militância. A primeira não invalida o trabalho historiográfico; a segunda, sim. Muitos dos grandes historiadores do século XX possuíam engajamentos políticos claros fora da academia. Marc Bloch combateu o nazismo; Georges Duby analisou criticamente estruturas de dominação; Jacques Le Goff dialogou com tradições progressistas.


Nenhum deles, contudo, permitiu que a militância substituísse o método. Suas posições políticas não determinaram previamente as conclusões de suas pesquisas. O passado manteve autonomia explicativa. O erro ocorre quando o professor-historiador inverte essa relação: a conclusão vem antes da análise; as fontes são selecionadas para confirmar uma tese; o debate historiográfico é omitido por ser inconveniente.


Nesse ponto, a História deixa de ser investigação e se torna instrumento de convencimento.


A Idade Média como alvo privilegiado no ensino militante


A Idade Média é particularmente vulnerável a esse uso ideológico por quatro razões centrais. Primeiro, a distância temporal dificulta a contestação por parte dos alunos. Segundo, a iconografia medieval — cruzes, fogueiras, castelos, clérigos — funciona como símbolo negativo imediato. Terceiro, a centralidade do cristianismo permite associações simplificadas entre religião e opressão. Por fim, a herança iluminista da “Idade das Trevas” já está profundamente enraizada no senso comum.


Esses fatores criam o ambiente ideal para a militância pedagógica. O professor não precisa demonstrar a tese; basta evocá-la. A Idade Média passa a ser ensinada não como período histórico plural, mas como erro civilizacional.


Consequências para a formação histórica


As consequências dessa prática são profundas. O aluno formado nesse modelo aprende a julgar, mas não a compreender. Ele confunde análise com condenação, explicação com apologia, nuance com relativização. Incapaz de reconhecer a alteridade histórica, ele projeta suas categorias morais sobre qualquer sociedade passada.


Essa formação empobrece não apenas o conhecimento histórico, mas a própria capacidade crítica. Um estudante que não aprende a pensar historicamente dificilmente compreenderá as contradições do presente. Ele estará preparado para repetir slogans, não para analisar processos.


A ética do historiador e a responsabilidade docente


A ética do historiador — especialmente do historiador-professor — exige o reconhecimento de que o passado não existe para legitimar agendas contemporâneas. Isso não significa neutralidade absoluta, mas compromisso com o método. O professor deve apresentar debates, expor divergências historiográficas, distinguir explicação de legitimação e reconhecer os limites do próprio julgamento.


Ensinar História é ensinar a lidar com a complexidade humana ao longo do tempo. Quando esse compromisso é abandonado, a disciplina perde sua função crítica e se transforma em retórica moral travestida de conhecimento.


Síntese teórica: quando a História resiste à instrumentalização


As partes anteriores demonstraram que a militância em torno da Idade Média não é um fenômeno pontual nem resultado de simples desconhecimento. Trata-se de um processo estrutural, ancorado em tradições intelectuais modernas, reforçado por dinâmicas comunicacionais contemporâneas e institucionalizado, em certos contextos, no ensino de História. O ponto decisivo é compreender que o conflito não se dá entre “defesa” e “crítica” do medievo, mas entre método histórico e uso ideológico do passado.


A historiografia medieval contemporânea opera por reconstrução paciente de contextos, por atenção à alteridade histórica e por recusa de julgamentos anacrônicos. Ela aceita a ambiguidade como dado constitutivo do passado. A militância, ao contrário, exige clareza moral imediata e símbolos estáveis. Onde o historiador vê processos, a militância busca exemplos; onde a História oferece explicações, a retórica política exige condenações.


Essa tensão revela um problema epistemológico mais amplo: a dificuldade contemporânea de sustentar um regime de historicidade que reconheça a autonomia do passado. Em um tempo marcado pelo presentismo, o passado é convocado para servir ao presente — como advertência, legitimação ou insulto. A Idade Média, por sua distância temporal e por sua associação simbólica com religião e tradição, tornou-se o passado ideal para esse tipo de operação.


Ao longo do artigo, vimos como esse mecanismo atua em múltiplos níveis: na construção moderna do estereótipo medieval; na redução do cristianismo medieval a inimigo da razão; na transformação de Inquisição e Cruzadas em campos minados; na radicalização promovida pelas redes sociais; na vulgarização do conceito de neo-medievalismo; e, por fim, na prática docente militante que substitui método por pedagogia moral.


O efeito cumulativo é a erosão da imaginação histórica. Quando o passado é permanentemente julgado por categorias do presente, perde-se a capacidade de reconhecer que sociedades humanas operaram — e operarão — segundo lógicas diversas. A História deixa de ser espaço de aprendizagem sobre a condição humana e passa a ser repertório simbólico para disputas imediatas.


Nesse sentido, insistir na complexidade da Idade Média não é um gesto ideológico, mas um gesto disciplinar. A recusa da caricatura não absolve violências; ela as torna inteligíveis. A distinção entre explicar e justificar não enfraquece a crítica; ela a torna mais rigorosa. A História, quando fiel ao método, desestabiliza certezas — e é exatamente por isso que incomoda.


Conclusão


A pergunta que orientou este artigo — por que a Idade Média se tornou um campo de militância política no presente — encontra resposta na própria dinâmica contemporânea de uso do passado. O medievo foi transformado em espantalho simbólico, necessário para sustentar narrativas de progresso, secularização e superioridade moral. Quando a historiografia desmonta esse espantalho, a reação é inevitável.


O conflito, portanto, não é com a Idade Média, mas com a complexidade histórica. Um passado complexo não serve bem à militância. Ele exige tempo, leitura, debate e aceitação da ambiguidade. Em um ambiente marcado por polarização e velocidade, essas exigências soam como obstáculo.


Resgatar a Idade Média de seus estereótipos não é romantizá-la. É reconhecer que a História não existe para confortar ideologias, mas para ampliar a compreensão do humano no tempo. Em um cenário em que o passado é constantemente mobilizado como arma política, fazer História com método e nuance torna-se um ato de resistência intelectual.


Fontes


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