Como roubar a coroa do Rei: A história de um roubo de Helene Kottanner no ano de 1440
- História Medieval
- 14 de mar. de 2021
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Atualizado: há 1 minuto

No ano de 1440, uma serva chamada Helene Kottanner recebe a delicada tarefa de roubar a coroa do rei da Hungria — e é a própria Helene quem nos relata, em primeira pessoa, como o feito foi executado.
Dispomos de pouquíssimos documentos medievais escritos por mulheres, sobretudo por aquelas que não pertenciam aos estratos mais elevados da sociedade. Ainda assim, existe um testemunho excepcional: As Memórias de Helene Kottanner, relato que narra o notável roubo da Coroa Sagrada de Santo Estêvão e o papel decisivo de Helene nesse episódio.
Em 1439, a Hungria era governada por Alberto II e por sua esposa, Isabel (Elizabeth) de Luxemburgo. Alberto, que também era duque da Áustria, havia ascendido ao trono húngaro havia poucos anos — em grande medida por ser casado com Isabel, filha do rei Sigismundo (que governou a Hungria de 1387 a 1437).
Helene Kottanner, integrante do serviço doméstico da casa real, apresenta-se como confidente fiel do “nobre e mais gracioso rei”. Logo no início de seu relato, Alberto adoece e, apesar dos esforços de seus médicos, morre em 27 de outubro de 1439.
A morte do soberano lança o reino em crise imediata. A nobreza teme que, sem um governante forte, a Hungria se torne vulnerável ao avanço do Império Otomano. Por isso, pressiona Isabel para que se case com Władysław (Wladislau) III, rei da Polônia. Ela, porém, reage com veemência:
“Queridos senhores, por favor, não me deem um pagão; eu preferiria casar-me com um camponês cristão.”
Além disso, Isabel estava grávida de vários meses, e seus médicos asseguravam tratar-se de um menino — e ela preferia que o filho fosse reconhecido como rei, sob sua tutela. Ainda assim, a pressão política aumenta e ela acaba cedendo (embora Helene acrescente que a rainha jamais tencionou, de fato, consumar tal casamento).
Em vez disso, Isabel engendra um plano secreto: apoderar-se da Santa Coroa de Santo Estêvão, guardada no castelo de Plintenburg (Visegrád), e utilizá-la na coroação da criança que ainda nasceria. A rainha acreditava que, se obtivesse esse tesouro — símbolo maior da legitimidade régia, usado nas coroações desde o século XI —, nobres e povo aceitariam o recém-nascido como novo rei.
Para executar o roubo, Isabel convoca Helene Kottanner. Helene registra que a rainha:
“Disse que eu deveria fazê-lo porque não havia ninguém em quem ela pudesse confiar que conhecesse o lugar tão bem quanto eu. O pedido me assustou, pois significava grande perigo para mim e para meus filhinhos. Pesei o assunto em minha mente, imaginando o que fazer; e não havia ninguém a quem eu pudesse pedir conselho, exceto Deus. Disse a mim mesma que, se eu não o fizesse e algo ruim ocorresse como resultado, eu teria pecado contra Deus e contra o mundo. Então declarei estar disposta a empreender aquela difícil jornada, mesmo correndo o risco de perder a vida — mas pedi que me dessem um ajudante.”
O primeiro homem convidado a integrar a trama “ficou tão dominado pelo medo que toda a cor sumiu de seu rosto, como se estivesse meio morto”, e logo fugiu. Um segundo foi contatado — um húngaro cujo nome Helene se recusa a registrar, embora observe que
“era leal, sábio e sensato na maneira como cuidava desse negócio”.
O plano previa que Helene e seu companheiro viajassem a Plintenburg em fevereiro, a fim de reunir outras damas da corte e conduzi-las até a rainha. Chegaram ao castelo em 20 de fevereiro de 1440 e partiram com a comitiva no dia seguinte. A sorte, porém, sorriu-lhes: o castelão responsável por guardar a coroa estava doente e, por isso, não dormia em seu aposento habitual, situado ao lado do tesouro real.
Quando a noite caiu e todos se recolheram, Helene, seu companheiro e um terceiro homem (também não nomeado) deram início ao roubo. Helene providenciou chaves entregues pela rainha e velas, pedindo ainda velas extras aos criados sob o pretexto de fazer muitas orações. Os homens trouxeram limas para vencer as fechaduras. Dois deles entraram no tesouro, enquanto Helene permanecia em vigília. Ela escreve, com dramaticidade:
“Trabalharam tão arduamente nas fechaduras que o som das pancadas e das limalhas podia ser ouvido com clareza. Mas, mesmo que os guardas e os homens do castelão estivessem alerta naquela noite e observassem ativamente o tesouro confiado aos seus cuidados, certamente Deus Todo-Poderoso teria tapado seus ouvidos, para que nada ouvissem. E eu, sozinha, conduzi tudo o melhor que pude, tomada por medos e preocupações; ajoelhei-me em profunda devoção e orei a Deus e a Nossa Senhora para que ajudassem a mim e aos meus auxiliares. Temia mais por minha alma do que por minha vida e implorei a Deus que, se o empreendimento fosse contra Sua vontade, eu fosse condenada por isso; ou, se algum mal resultasse para o país e para o povo, que Deus tivesse misericórdia de minha alma e me deixasse morrer ali mesmo.”
Em dado momento, Helene afirma ter ouvido ruídos que, a princípio, interpretou como sobrenaturais. Prometeu que, se obtivessem êxito, faria peregrinação a Mariazell — e, até lá, não dormiria em cama de penas nas noites de sábado. Em seguida, registra:
“Enquanto eu orava, pareceu-me ouvir barulhos altos e o som de armaduras junto à porta que dava diretamente para os aposentos das damas de companhia. Assustei-me tanto que meu corpo inteiro começou a tremer e senti suor frio; pensei que não se tratava de fantasma algum e que, enquanto eu estava à porta da capela, tinham dado a volta para observar o outro lado. Não sabia o que fazer e apurei o ouvido para ver se conseguia ouvir as mulheres — mas não ouvi ninguém. Então desci suavemente os degraus, passei pelo quarto da princesinha e fui até a porta que dava direto ao quarto das damas. Ao chegar, novamente nada ouvi. Aliviada, agradeci a Deus e retomei minhas orações, dizendo a mim mesma que certamente era o Diabo, que teria gostado de frustrar nosso plano.”
Pouco depois, seus cúmplices saíram com a coroa. Para ocultá-la, tomaram um travesseiro de veludo vermelho, abriram-no, retiraram parte das penas e inseriram a coroa no interior, costurando-o novamente. Já quase amanhecia quando Helene se preparou para a jornada com as demais mulheres. O travesseiro foi colocado em seu próprio trenó. Ela escreve: “Eu me voltava para trás com frequência, temendo que alguém nos seguisse. Preocupava-me incessantemente, e meus pensamentos se amontoavam; eu me maravilhava com o que Deus havia feito — ou ainda poderia fazer.”
As provações, contudo, não cessaram. No caminho, a comitiva precisou atravessar o Danúbio, ainda congelado, mas já com pontos frágeis:
“Chegamos ao Danúbio, coberto de gelo, mas em muitos lugares ele se tornara mais fino. Quando estávamos no meio do rio, a carruagem das damas de companhia mostrou-se pesada demais; o gelo se rompeu e a carruagem tombou. As senhoras gritaram, e houve grande caos e confusão. Tive medo e pensei que nós e a Santa Coroa morreríamos juntos no Danúbio. Ainda assim, Deus veio em nosso socorro. Ninguém se afogou; porém, das coisas que estavam na carruagem, várias caíram na água e desapareceram sob o gelo. Levei a duquesa da Silésia e as damas de mais alta patente para o meu trenó e, com a ajuda de Deus, atravessamos o gelo em segurança — e as demais também.”
Em 22 de fevereiro, chegaram ao castelo da rainha em Komorn (Komárom). Helene então descobre que Isabel estava prestes a dar à luz. Ela e a parteira são chamadas, e Helene registra com assombro: “não demorou meia hora para que o Deus Todo-Poderoso tivesse um jovem rei pronto para nós”.
O bebê recebeu o nome de Ladislau, e, com 12 semanas, foi coroado rei da Hungria pelo arcebispo de Gran (Esztergom). Helene afirma ter presenciado a cerimônia e observa, com evidente intenção de sublinhar a excepcionalidade do infante, que “quando o arcebispo colocou a Santa Coroa na cabeça da criança e a manteve ali, ela ergueu a cabeça com a força de uma criança de um ano — algo raramente visto em crianças de 12 semanas”.
A história do novo rei, entretanto, não se consolidou sem contestação. Wladislau III sustentou sua reivindicação ao trono, e a rainha, com o filho, viu-se em situação cada vez mais precária. Em 1442, Isabel morre — em circunstâncias que a tradição, por vezes, descreve como suspeitas — e o jovem Ladislau atravessaria a infância como peça em um tabuleiro político na Europa Centro-Oriental. Aos 17 anos, pouco antes de se casar, Ladislau faleceu (análises modernas sugerem como hipótese uma doença hematológica, como a leucemia) e entrou para a história como Ladislau, o Póstumo.
Fonte
KOTTANNERIN, Helene. The Memoirs of Helene Kottanner (1439–1440). Tradução do alemão, introdução, ensaio interpretativo e notas: Maya Bijvoet Williamson. Cambridge: D.S. Brewer, 1998. (Library of Medieval Women). ISBN 9780859914628.
